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O diálogo, o risco e o tempo — leia os conselhos do fotojornalista português nomeado para o World Press Photo

Depois de o ter vencido em 2016 na categoria Temas Contemporâneos, Mário Cruz está novamente nomeado para o World Press Photo, desta feita na categoria Ambiente, por uma imagem captada em Manila, Filipinas. Aos leitores do Vida Extra interessados em fotografia, dá alguns conselhos — ou, como prefere chamar-lhe, “sugestões”

Mário Cruz

Mário Cruz

Fotojornalista

Mário Cruz

A fotografia é uma forma de comunicação. Eu sempre vi a minha ligação com a fotografia como um diálogo, no qual consigo perceber, por um lado, o que me interessa e, por outro, o que me desperta para agir. Independentemente daquilo que nos leva a este diálogo, é para mim claro que nos faz sentir sempre algo estimulante, mesmo que não o saibamos definir.

Desde que o meu trabalho ganhou uma projeção considerável, através do World Press Photo, recebo e-mails a pedir conselhos, sobretudo de quem pensa em começar a fotografar. Penso que, se queremos fotografar, mas não sabemos o quê ou porquê, então fotografar não passa de algo que nos ocupa quando não temos nada para fazer e, por isso, não deve causar qualquer dúvida. A fotografia, quando se sente, torna-se inevitavelmente em palavra, sentimento, dúvida, silêncio, raiva, enfim... a fotografia consegue ser apenas, e só, uma extensão nossa.

Para quem sente e, particularmente, para quem está a começar a sentir, o diálogo passa naturalmente por um longo processo. Se os projetos fotográficos podem demorar dias ou anos, o processo que nos leva até eles é seguramente longo. Sempre considerei interessante e até, de certa forma, obrigatório experimentar os vários campos da fotografia: Moda, Espetáculo, Desporto, Documental, Natureza, Retrato, etc. Nunca se sai a perder e, inevitavelmente, aprendemos alguma coisa, nem que seja saber aquilo que não queremos fazer.

O meu trabalho de Agência (Lusa) ajudou-me e ajuda-me naquilo que um dia gostaria de fazer a 100%: projetos documentais feitos com tempo e pensamento. Desde o jogo de futebol até ao encontro de chefes de Estado, desde as conferências de imprensa até aos retratos, tudo isso ajuda e essa experiência acumulada está presente, muitas vezes inconscientemente, quando fotografo aquilo que quero fotografar. É através destas viagens às várias áreas fotográficas, aos períodos de pura experimentação, e também pelas visitas a locais que não são os nossos, que vamos criar a nossa própria linguagem fotográfica.

Se há um bom conselho, ou melhor, sugestão, é o de fotografar o que está à nossa volta. É importante percebermos o que nos rodeia e quem somos. Essa parte do processo, em termos fotográficos, é especial, se pensarmos que é o início para um caminho que nunca saberemos muito bem onde irá dar.

Segunda e última sugestão: passem muito tempo a fotografar um projeto, a interagir com esse projeto e não fechem a porta ao inesperado e ao natural. Nas oportunidades que tive para mostrar o meu trabalho em conferências e palestras, disse e repeti por várias vezes que o fator diferencial é o tempo. É necessário muito tempo para criarmos não só a nossa linguagem, mas também para percebermos a maneira como queremos comunicar e usar a fotografia. Esse mesmo tempo é fundamental para adquirir conhecimentos, acesso, intimidade ou simplesmente criar a tal reação.

Arrisquem! Não vale a pena recorrer a receitas ou copiar o que já teve sucesso. A fotografia está em permanente evolução, sejam parte dela. Vivemos e sobrevivemos num período de pouca reflexão, em que o ritmo acelerado impõe-se a qualquer outra coisa. Somos mergulhados numa overdose visual, em tudo o que é publicação ou rede social. A fotografia, infelizmente, perde. Mas, mesmo no meio do excesso e da falta de critério, conseguimos encontrar um lado bom. A oportunidade. Hoje, quem fotografa tem à sua disposição diversas opções para mostrar o seu trabalho, opções essas que nos levam até outros fotógrafos, até outros projetos. A sinergia fotográfica atual é imensa, quem está a pensar em fotografar pode e deve tirar o melhor partido disso.

A fotografia não deve estar refém da moda do populismo imagético. E muito menos da aceitação através de prémios. Agora, enquanto escrevo, não me vem à memória nenhum fotógrafo que conheça que nunca tenha sido premiado e isso quer dizer muito do estado atual da fotografia e nada em relação a esses fotógrafos. Na verdade, os prémios podem ter três papéis bastante importantes: financiar projetos, trazer visibilidade para os mesmos e ajudar a dar atenção a fotógrafos que estão agora a dar os seus primeiros passos. Nada mais. Um fotógrafo que nunca ganhou um prémio nunca será pior fotógrafo do que aquele que tem 100 só porque fotografa para isso.

Este ano serei novamente presidente do júri do Novo Talento Fnac Fotografia. Que esta edição dê seguimento ao exemplo do ano anterior. Que a fotografia de quem está a começar a fotografar seja o reflexo de um processo cuidadoso e de reflexão. Que o prémio seja um estímulo para potenciar os futuros projetos e que seja mais uma mostra da boa fotografia portuguesa. Criar memória é o nosso contributo para o diálogo futuro.

World Press Photo: Pode ver todos os finalistas do concurso, onde se inclui o fotojornalista Mário Cruz, AQUI.

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