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“Só queria que a minha filha tivesse prazer em ver o Benfica comigo, não transformá-la num hooligan.” Descubra o método do Pai Panda

“Como qualquer pai deixado sozinho a tomar conta de uma filha, por vezes dá a impressão que cometo erros.” Mas é tudo pensado, garante, na nova entrada da crónica “Diário de um Pai Solteiro”. À segunda-feira, no Vida Extra

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Como qualquer pai deixado sozinho a tomar conta de uma filha, sem a mãe por perto a exercer opressão pedagógica, por vezes dá a impressão que cometo erros, mas na verdade tudo faz parte de um sistema cuidadosamente pensado. Pensei nisso ontem, a meio do quarto jogo de futebol que vimos nas 24 horas anteriores, depois de mais uma torrente de indignações da Panda a propósito de erros de arbitragem ou falhanços clamorosos que, na sua opinião, constituem a totalidade das ocorrências relevantes de uma partida.

Este entusiasmo futebolístico não se manifesta apenas em jogos do Benfica, o que seria normal tendo em conta que lhe dei chocolates em gomas durante os 90 minutos de todos os jogos que vimos juntos desde que tinha dois anos. Não, este entusiasmo é uma constante e dá de si a ver jogos da liga inglesa e italiana ou entre equipas de segunda linha do nosso campeonato, com aqueles estádios vazios com tambores ou trompetes a ouvir-se o tempo todo. Nunca vi tanto futebol como agora. Sinto que ela nos está a transformar numa família portuguesa típica. Sinto-me a ser arrastado pelo monstro que eu próprio criei e que se reforça com Toy e “Ela é Mafiosa” na escola pública de pobres onde anda. Eu só queria que tivesse prazer em ver o Benfica comigo, não a queria transformar numa espécie de gremlin hooligan que bebeu uma mini Sagres depois da meia noite. Como só a levei ao estádio uma vez e tem apenas cinco anos, o léxico de palavrões tradicionais que usa ainda é diminuto. Nesta fase, inventa os seus próprios insultos sofisticados que rivalizam de igual para igual com os do Capitão Haddock. No domingo, no jogo Nápoles vs Juventus, em que calçou as suas chuteiras oficiais do Cristiano Ronaldo que me lixam o soalho todo, apontei estes: “Passa a bola sua cabeça de alforreca de gelatina epilética!”, “FALTA?! Onde é que foi falta, seu rato azelha que faz chichi nas cuecas cor de rosa!”, “O quê!? Foi fora de jogo ó orelhas de canguru com ovos mexidos que chora a pedir a mamã!”, “Remata, ó porco espinho preguiçoso trapalhão no chão, que nem sabes nada de nada de nada vezes mil infinitos e és totó!”

Houve mais, mas não me lembro de todos.

A Pata Hidrofóbica já me chamou a atenção, porque para além de desprezar futebol com todas as moléculas do corpo, e de a Panda lhe pedir SportTV, parece que noutro dia estavam todos a jantar com a família do namorado Florêncio num restaurante daqueles com televisão a dar um jogo qualquer do Belenenses ou do Braga e a Panda de repente gritou um longo insulto por ocasião de um falhanço e atirou o cesto das tostinhas do paté ao ar. A isto somam-se os arrotos que ela dá com orgulho à espera que a elogiem como eu elogio.

Acho que não há nada como uma mãe para realmente educar uma filha como deve ser. Contudo, para mim, a Panda constitui uma experiência em desenvolvimento. Só não quero que seja atrofiada como os miúdos hoje em dia, de acordo com os artigos que vou lendo sobre essas coisas. Crescem numa redoma, ficam extremamente frágeis e vulneráveis e desenvolvem depressões antes mesmo de saberem o que é o casamento ou trabalhar oito horas por dia num emprego. Eu tento evitar isso. Acho difícil uma pessoa ser muito triste e angustiada se gostar de futebol. Podia mostrar aqui uma tabela Excel que fiz com a saúde mental de todas as mulheres que conheci e se gostam ou não de futebol e posso garantir que a probabilidade de ter uma depressão e gostar de ver o Benfica e beber minis é próxima de zero. A excepção são adeptas do Sporting em que, estranhamente, há uma propensão grande para problemas de autoestima.

Enfim, é a forma como tento justificar o que faço e a minha criação. Uma Panda de chuteiras CR7 a patinar no soalho, com a boca besuntada de cheetos. Olho para ela e penso “ok, não me parece deprimida”. E faço pior. Há dias mostrei-lhe três minutos de uma série de manga japonesa chamada “Attack On Titan”. Logo no primeiro plano há um gigante nu e disforme com um sorriso maquiavélico que espezinha uma cidade de humanos e apanha uma mulher, a mãe do protagonista principal, que está com as pernas esmagadas por escombros. O gigante leva-a à boca e dá-lhe uma dentada na cabeça. Vemos sangue pulverizado pelo ar em slow motion e o filho dela a assistir horrorizado… Não olhem para mim assim. Sabia lá! É um desenho animado, ao fim e ao cabo, qualquer pessoa comete erros, e além do mais eu mudei logo de canal de volta para “Lady Bug”. Ao fim de dez minutos a Panda recuperou e saiu de debaixo do cobertor para comer as gomas que lhe ofertei.

Sabia que era uma série algo violenta e assustadora, embora não aquele ponto. Tenho cuidado nessas coisas e evito ao máximo expô-la a filmes ou séries que a traumatizem, porque ela conta tudo à mãe. Claro que foi logo contar à Pata Hidrofóbica que eu lhe andava a mostrar séries em que mães eram comidas vivas por gigantes à frente dos filhos. A Panda tem um prazer infinito em detectar as coisas erradas que eu faço e em contar tudo à mãe. E em especificar à mãe que eu lhe pedi para não contar à mãe. E a mãe tem um prazer infinito em repreender-me. E em especificar que eu não posso pedir-lhe para não lhe contar coisas. Claro que eu podia responder à Pata Hidrofóbica que só lhe mostrava mesmo séries em que aconteciam coisas más às mães e que amanhã íamos ver o “Bambi” e no dia seguinte o “Marco” ou algo assim, mas não o fiz. O meu ponto vagamente pedagógico é que desde os primórdios dos tempos há histórias assustadoras para as crianças, cheias de gigantes e bruxas que comem meninos curiosos demais, e mães e pais que vão com o caneco logo nos primeiros minutos ou páginas, assim como jogos de futebol em que somos primários. São lições importantes que constroem um perfil psicológico resiliente e saudável. Em compensação, a mãe ensinou-a a ler. Pfff… Ler… completamente overrated.

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