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Vida Extra

Duas mulheres que reinventam o património português em peças de luxo

Na crónica desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre o resgatar de referências nacionais e do bordado de Viana do Castelo. Fernanda Lamelas e Marta Champalimaud deitaram mãos à obra. Uma em lenços de seda, a outra em vestidos de linho

Nunca tanto como agora se viu o luxo fazer-se na busca de referências culturais e do trabalho manual. Grandes marcas francesas, como a Hermès e a Chanel, investem na preservação e continuidade de ofícios tradicionais, seja na formação de artesãos ou na aquisição de atelieres onde esse trabalho é desenvolvido. Mais do que uma contra-corrente à moda de produção acelerada é um olhar para aquilo que torna uma peça única e autêntica, os valores que regem o novo luxo.

Sem gigantes de luxo, em Portugal, este caminho ganha cada vez mais forma. O património nacional e os bordados de Viana do Castelo, por exemplo, são as referências exploradas por duas mulheres, que de forma intuitiva foram percebendo a existência de uma riqueza a preservar, desenvolver e renovar, através do design. Duas mulheres que desenvolvem duas peças distintas (lenços de seda e vestidos de linho), mas partilham esta mesma paixão. Fernanda Lamelas pinta aguarelas com detalhes da arquitetura e referências portuguesas, que depois dão vida a lenços de seda. Marta Champalimaud vai buscar o bordado típico de Viana do Castelo, que ganha uma nova roupagem em vestidos de linho.

Marta Champalimaud no Palácio Mendia, em Lisboa, propriedade da avó que foi vendida ao grupo hoteleiro Selina

Marta Champalimaud no Palácio Mendia, em Lisboa, propriedade da avó que foi vendida ao grupo hoteleiro Selina

A vontade de contribuir para a preservação do saber das mulheres minhotas leva a criadora dos vestidos Martine Love a desenvolver um projeto que começa com duas bordadeiras e, um ano depois, já emprega seis. Com base nos modelos idealizados por Marta Champalimaud, os vestidos são feitos por uma costureira no Porto e os corações icónicos de Viana são bordados por quem há várias gerações aprendeu o ofício com as mães e as avós. Descobrir e formar quem queira aprender esta arte é o objetivo, num processo que permita não deixar morrer os desenhos coloridos bordados a ponto cruz, que começa como ocupação das mulheres quando os homens iam para o mar.

Apesar das dificuldades em encontrar quem saiba e esteja disponível para colocar o seu talento ao serviço da Martine Love, o posicionamento no segmento de luxo, com um número de peças controlado, assegura, para já, a cadência de produção. Lançada em abril de 2018 com três modelos diferentes, a marca apresenta-se na primavera deste ano com 12 referências, o que significa uma produção que passa de um total de 60 vestidos para 180, até ao final do ano. O aumento da produção e dos preços (para um intervalo entre os €345 e os €695) são o resultado da vontade de Marta Champalimaud em pagar mais às bordadeiras, que atualmente recebem 12% do valor de cada vestido. O objetivo é chegar aos 15%.

Cada peça demora entre 11 a 15 a horas a bordar, dependendo da quantidade e complexidade dos desenhos. A base dos motivos são os inconfundíveis corações de Viana do Castelo, mas

sob encomenda (e um valor acrescido) é possível personalizar, com nomes, frases ou datas. Por enquanto, as mulheres lançam as mãos às peças da Martine Love apenas à noite, em complemento do emprego que têm durante o dia, mas Marta Champalimaud tem em mente criar condições e um volume de trabalho para que as bordadeiras possam, com um rendimento mensal, fazer desta atividade o seu único emprego.

Os planos para a marca têm pano para mais mãos. Às vendas atuais que faz em show-room, no Instagram e no mercado do blogue Stylista de Maria Guedes, Marta Champalimaud acrescenta pontos de venda no Douro (hotel Six Senses), Cascais (The Oitavos), Algarve (Quinta do Lago) e Comporta (Côté Sud), localizações em linha com o posicionamento de exclusividade. O mercado internacional já está a ser explorado com vendas no Instagram, mas no digital a ideia é chegar às grandes plataformas de marcas de luxo, como Farfetch, Net-a-Porter e Yoox.

Desenhos de rua viram estampas de lenços

Fernanda Lamelas há muito que se move quer no universo das artes como do luxo. Começa como arquiteta de várias joalharias (Machado Joalheiro, Marcolino, Ferreira Marques, entre outras), bem como de habitação, escritórios e projetos públicos, mas é como ‘urban sketcher’ que desenvolve o traço artístico, ao desenhar o que a sua sensibilidade capta quando anda na rua. No luxo fez a comunicação de relógios e joias, como Chaumet, H.Stern e Mími. A epifania para lançar a marca Fernanda Lamelas Arts surge com a constatação da quantidade de desenhos que acumulava em diários gráficos.

Fernanda Lamelas no atelier e show-room em Lisboa, com o lenço ‘Grémio Literário’ ao pescoço. Na parede, em primeiro plano, à direita, o modelo ‘Carmo’ e ao fundo, à esquerda, o modelo ‘Filigrana’

Fernanda Lamelas no atelier e show-room em Lisboa, com o lenço ‘Grémio Literário’ ao pescoço. Na parede, em primeiro plano, à direita, o modelo ‘Carmo’ e ao fundo, à esquerda, o modelo ‘Filigrana’

Francisco de Almeida Dias

Por que não desenhar para lenços de seda e promover o património nacional? O primeiro a passar do caderno gráfico para um lenço foi o ‘Carmo’, inspirado no Largo do Carmo, em Lisboa, com um detalhe de um pórtico Manuelino e o fundo azul do céu de Lisboa. A partir daqui nunca mais parou de digitalizar as aguarelas que foi fazendo. O destino final? Estampas para lenços 100% em seda indiana, quadrados com 60 centímetros, e produzidos artesanalmente no norte do país. Correu tão bem que neste momento está a desenvolver também um tamanho maior (90 centímetros) e totaliza 250 referências e 20 coleções. E não é por já andar nisto há muito tempo: a primeira entrega data de agosto de 2018, com o tema ‘Palácio da Pena’ e os motivos românticos deste palácio em Sintra.

O foco das vendas está nas lojas de museus ou palácios (que vendem apenas a coleção com os próprios motivos como o MAAT, Serralves, Fundação Calouste Gulbenkian e Palácio da Pena), hotéis (Valverde e Corinthia), além do show-room e da loja online. Recebe encomendas no Instagram e tem à venda no Ramiro a coleção inspirada no marisco, que dá fama a este restaurante de Lisboa. Agora, Fernanda Lamelas, está a preparar o lançamento de uma coleção com desenhos das fontes do Rossio, para a Loja das Meias, uma localização que passará a ter disponível todas as coleções da marca, a partir de março.

O retalho de luxo, como a Loja das Meias, é o passo natural para os produtos Fernanda Lamelas Arts, concebidos como peças raras, que materializam o património português e a beleza dos seus detalhes. No passado desta artista estão décadas de atividade associada à representação de marcas de luxo de relógios suiços e joias, não só a fazer a sua promoção mas também enquanto negócio da família do marido, António Moura, que encerrou este capítulo para se dedicar ao marketing e às vendas dos lenços imaginados pela sua mulher. Uma combinação na vida e no conhecimento da produção e do retalho de luxo. O marido tem ainda uma intervenção na definição das gravatas, outro produto que Fernanda Lamelas desenvolve em paralelo com os lenços de pescoço.

Lenço Grémio Literário dobrado em faixa (€120, 60cm)

Lenço Grémio Literário dobrado em faixa (€120, 60cm)

StyleShoots

Acrescentar valor com a criatividade e a distribuição é o percurso que a Fernanda Lamelas Arts quer fazer, num contexto nacional em que Portugal é bom na produção mas ainda está a aprender na construção de marcas e no circuito de vendas, principalmente no posicionamento de luxo. Por isso, por enquanto, a estratégia é fortalecer a marca e as vendas no mercado nacional, para depois dar o passo internacional. De qualquer forma, já há um pé que chega lá fora: os estrangeiros, grande parte da clientela das lojas de museus e hotéis. Em janeiro esteve presente em Paris, na Maison&Object, feira profissional dedicada a tendências de lifestyle, decoração e design, onde se mostrou no expositor da Boca do Lobo, marca de mobiliário de luxo do norte.

Do universo digital para o artesanato

Desde criança que a criadora dos vestidos Martine Love convive com os bordados de Viana, nas longas refeições em família em que, para passar o tempo, se entretinha a contornar os corações na toalha de mesa. Mas, à semelhança de Fernanda Lamelas, foi preciso a vida levá-la primeiro por outros caminhos, para depois se cruzar de forma consequente com os bordados icónicos do norte do país. Publicitária por formação, Marta Champalimaud começa por trabalhar o marketing digital da Nike, numa agência em Barcelona, onde absorve o rigor e profissionalismo dos catalães.

De regresso a Portugal, no final da primeira década de 2000, a família preparava-se para abrir o hotel The Oitavos, em Cascais, integrado no Parque Natural Sintra-Cascais, e Marta Champalimaud junta-se ao projeto enquanto gestora de lojas de roupa de golfe e de fitness (no ginásio na Quinta da Marinha, também da família). Aprende muito sobre gestão de equipas e o cliente de luxo, mas sente que a veia criativa tinha de sair do armário onde estava escondida. Já tinha o gosto por moda e em 2017 dá o salto para voar sozinha.

Nas inúmeras viagens ao norte, para encontrar os melhores fornecedores têxteis para as lojas, já tinha esbarrado com Isilda Parente, a histórica bordadeira de Viana do Castelo, com quem descobre não só o perigo de extinção dessa arte, como as potencialidades em termos de vestuário. Vai estudar o assunto. Encontra uma costureira para os vestidos e separa alguns elementos do bordado de Viana, que passa para o formato digital e que desenha sobre o vestido já feito, para serem bordados posteriormente.

O vestido camiseiro, com cinto e caimento em forma de tulipa, inspirado nos anos 40/50 é o primeiro, por ser o mais adaptável a todo o tipo de corpos. Daí passa para modelos sem mangas e agora está a desenvolver kimonos e camisas unissexo, entre outros modelos. O tecido de xadrez tartã, formado por quadrículas que permitem às bordadeiras aplicar o ponto com os motivos de Viana, é outra das hipóteses a explorar. Roupa de casa, tapetes e cerâmicas são os passos que desenha para o futuro.

Túnica Afife (€280)

Túnica Afife (€280)

Até lá vai investir na formação em moda, área que conhece apenas por instinto, e planeia ir visitar o atelier da Maison Lesage, a mais reconhecida casa de bordados do mundo, que atualmente integra a Chanel. Uma das várias marcas de luxo tradicionais que sabe que assegurar o futuro das marcas de luxo passa por garantir conhecimentos e experiência artesanais. É desta casa que saem os opulentos bordados manuais que a marca Chanel ostenta nas criações mais exclusivas. No passado, o atelier que se desenvolve como um negócio de família em meados do século 19, trabalha para todos os grandes da alta-costura francesa desde a pioneira Elsa Schiaparelli, Pierre Balmain, Christian Dior, Hubert de Givenchy, passando por Cristobal Balenciaga e Yves Saint-Laurent. Este, durante 44 anos, entrega os bordados das suas criações apenas a François Lesage, a filha do casal que dá origem à casa Lesage, e que projeta mundialmente o legado ao longo do século 20 e 21.

A Martine Love ainda está no começo, mas já está a fazer a sua parte na preservação de uma das riquezas nacionais mais exclusivas. Marta Champalimaud olha para a marca que está a construir e imagina-a, no futuro mais ou menos longínquo, entre o grupo das grandes do luxo mundial. O logotipo da Martine Love é um trevo de quatro folhas, o mesmo que Marta Champalimaud tem desde a adolescência tatuado no tornozelo (às escondidas da mãe). Quer ter sorte. Essa, já se está a construir com uma ideia. A mesma que está na cabeça das tais marcas de luxo reconhecidas. Que o destino seja honrar o património, num caminho partilhado.

Ateliers e show-rooms:

Martine Love Calçada de Santo Amaro, 76-1º dir. Lisboa (2ª feira – 11h/19h, 4ª feira 14h/19H, por marcação tel: 915 070 906)

www.martinelove.com

Fernanda Lamelas Arts Praça da Figueira, 4-1º Lisboa (2ª a 6ª feira - 10h/13h, 14h30/18h, por marcação tel: 937 407 449)

www.fernandalamelasarts.com