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E a Gena Rowlands nunca ganhou um Óscar! (honorário de carreira é outra história)

Mia Tomé escreve nova entrada de “Miallennial”, abrindo o apetite para a noite mais esperada do showbizz norte-americano

Mia Tomé

Quando era adolescente, naquela fase em que tudo é entusiasmante, intenso e sensível, vibrava com o acontecimento Óscares. Via os filmes, fazia listas e competia com o outro cinéfilo da turma, que, se bem me lembro, tirava cinco a Físico-Química. Claro que o entusiasmo de quando tinha 13 anos ia um bocadinho mais longe do que só e apenas os filmes, não vou mentir. Eu pensava no vestido que a Angelina Jolie ia usar. Por norma, nessa noite dormia em casa de amigas e, às escondidas, numa espécie de festa do pijama, pela televisão que existia no quarto, ficávamos até tarde a sussurrar comentários sobre os vencedores.

Mas obviamente que com o passar dos anos as convicções mudam e os interesses também. E eis que um dia me deparo com o facto de a responsável por eu ter escolhido o caminho do teatro e do cinema, a atriz mais inacreditável que este mundo já viu, nunca ter sido galardoada com uma estatueta dourada. Pelo menos naquela categoria tão cobiçada, a de “Melhor Atriz” (em 2015 lá lhe deram um Óscar honorário de carreira, numa cerimónia privada que ninguém viu). Mas entendam: um Óscar daqueles que se recebe com o rufar do tambor, daqueles em que se vê as quatro caras das nomeadas no ecrã, e quase se percebe que elas estão a bater com o pé freneticamente no chão, NUNCA. Como assim?!

A Gena Rowlands é musa e inspiração não só do cinema independente, mas de todas as outras vagas cinematográficas desde o dia em que pisou um set. Deusa do realismo de Cassavetes, entusiasmou uma série de mulheres a serem atrizes, a serem artistas, a serem autoras, mostrou-nos que uma atriz tem a missão de investigar e criar a sua ação dentro de um filme, as atrizes pensam, dissertam, constroem. Intrigou realizadores, autores, com o seu carisma, com a sua forma de trabalhar inacreditável. Das mulheres mais inspiradoras que a tela já conheceu, quando em 1975 foi nomeada pelo filme “Uma mulher sob influência”, a estatueta passou-lhe ao lado, e o mesmo aconteceu em 1981, quando nomeada pelo seu trabalho em “Glória”. Outras oportunidades existiram para haver uma nomeação de Melhor Atriz, mas parece que a Academia sempre teve pouca vontade de aplaudir atrizes do chegavam do cinema independente.

Voltou sempre para casa sem Óscar: a verter talento, com um intelecto brilhante, dona de conversas encantadoras, com a capacidade de congelar teatros. Lembro-me dela muitas vezes e confesso que ao aproximar-se esta festa dos filmes, penso sempre nesse pormenor. Não que seja relevante para a carreira daquela mulher a quem o cinema também pertence, mas porque me faz sentir que afinal não devia ser um prémio assim tão cobiçado, vá lá, a Gena nunca recebeu nenhum Óscar e a Gena merece ganhar todos os prémios que cinema tem para oferecer.

Nota-se que sou fã? Se o meu amigo Nelson me ler irá dizer: não é fã, é groupie. Chamem-lhe o que quiserem, mas baterei sempre o pé no que toca a não torcer por esta senhora.

Sobre a corrida deste ano, se quiserem uma opinião, acho que o “A Star is Born” vai limpar a loiça toda. Já eu, sou team “Roma”, torço pela Yalitza Aparicio e pela Amy Adams, no “Vice”.

Não, não me entusiasmo como há dez anos, mas descobri que este ano vou a uma festa em que tenho de ir de pijama. Sendo assim, farei um esforço para me entusiasmar como quando tinha 13 anos, e recordarei o meu amigo que tirava cinco a quase tudo, mas que não adivinhava mais categorias que eu. No que tocava à direção de fotografia, sobretudo, sempre fui eu a mais certeira. Este ano? Vai para o “Roma”, obviamente.

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