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Vida Extra

Para que serve um telemóvel que dobra? Para fugir aos dragões?

Por que existe um telemóvel que dobra? Porque o podemos fazer, porque há quem vá dar quase dois mil euros por ele, e quase podia ficar por aqui, mas a questão é bem mais complexa

Nas conversas que tenho tido, desde que o Samsung Galaxy Fold foi mesmo oficialmente anunciado (dia 21/02, ao fim da tarde), os meus interlocutores procuram incessantemente uma explicação mais racional, mas mais imediata, que talvez os faça verdadeiramente justificar o desejo do novo objeto.

Lançamento em São Francisco. O Fold fechado vai ser gordinho e aberto, uma verdadeira luminária

Lançamento em São Francisco. O Fold fechado vai ser gordinho e aberto, uma verdadeira luminária

Samsung

Comecei a minha pequena notícia no Jornal da Noite praticamente por dizer que finalmente temos de novo um telemóvel que mostra bem o seu preço — estavam todos a tornar-se demasiado parecidos. Em cima da mesa de um qualquer restaurante de luxo, a espessura do Fold quando fechado não deixará dúvidas. A verdadeira placa de luz que se vai iluminar frente ao feliz proprietário de cada vez que abra as suas 7,3 polegadas de propriedade também não vai deixar dúvidas, e a grande distância. A Samsung sabe disso muito bem e vai vender o aparelho como um objecto de luxo, em lojas selecionadas, embalagens especiais, com brinde, e o mais certo é que lhe seja apresentado com luvas brancas. Não estou a brincar. Ter este telemóvel é uma questão de estatuto social, como ter um carro topo de gama à porta de casa, ou um fatinho com a etiqueta bem visível.

O preço anunciado para o Fold foi de quase dois mil dólares o que nas condições atuais quer dizer que deve ultrapassar largamente os dois mil euros

O preço anunciado para o Fold foi de quase dois mil dólares o que nas condições atuais quer dizer que deve ultrapassar largamente os dois mil euros

Samsung

Para o futuro é muito mais. Quase todos os formatos nos têm parecido inúteis e fúteis até os adotarmos, os que sobrevivem. Claro que houve muitos que ficaram pelo caminho. Entrando na pura especulação, acredito, e muito, num futuro em que os nosso ecrãs favoritos dobrem. Mas em vez de ecrãs muito pequenos que se tornam maiores, imagino o contrário. Ecrãs grandes que se tornam suportáveis. Eu explico: ainda ontem em conversa com um ilustrador, que precisa naturalmente de um ecrã grande para os seus desenhos, ele me referia as maravilhas do seu tablet e o incómodo que é. Imagino facilmente um ecrã de trabalho grande que transportamos como uma pequena pasta ou um tablet de tamanho normal com um conforto muito razoável. Mas isto para já seria muito caro e pesado. Para lá chegarmos temos forçosamente que passar pelo Fold. É o percurso natural da tecnologia.

Para a Samsung é muito mais. Ter o último objeto de desejo ou, neste caso, ser o fabricante do último objeto de desejo é muito importante. A marca já provou repetidas vezes que é inovadora, que tem verdadeiros mestres do marketing, capazes de enfrentar de frente as maiores crises e de as vencer. Mas tem também sérios problemas. Os problemas internos com a justiça coreana têm sido relativamente contidos dentro do país, mas há um monstro à solta e chama-se Huawei. A marca chinesa tem galopado o mercado mundial a uma velocidade estonteante, sendo difícil não acreditar em apoio gigantesco do próprio governo. Mas quem sou eu aqui sentado em Lisboa para poder saber…

Mesmo sem o mercado dos Estados Unidos, onde está proibida de vender, a Huawei ascendeu rapidamente ao segundo lugar em alguns dos critérios de vendas mundiais, ultrapassando a Apple pelo caminho. Os últimos números nacionais apontam para que possa ter chegado, pelo menos temporariamente, a primeiro lugar nas vendas e preferências dos portugueses. Isto para dizer o óbvio — Samsung já não é forçosamente a primeira marca que nos vem à cabeça quando pensamos no sistema operativo Android. Até podem dizer que a concorrência faz cópias, mas se não são cópias que funcionam e vendem, é um filme que vemos repetido de tempos em tempos. Entre o Fold e a nova gama de S10, a Samsung tem que elevar a fasquia e tentar distanciar-se do dragão que se aproxima. É importante em termos de tecnologia mas também em imagem de marca. Vamos ver se, no Mobile World Congress, a Huawei também anuncia o seu dobrável, para quando, e a que preço.

Uma das gracinhas dos novos S10: podem carregar outro telemóvel ou um acessório, e sem fios. Não são os primeiros, e só é útil numa emergência

Uma das gracinhas dos novos S10: podem carregar outro telemóvel ou um acessório, e sem fios. Não são os primeiros, e só é útil numa emergência

Samsung

A família Galaxy fez 10 anos e era preciso deixar uma marca no tempo, e a tempo, antes do Mobile World Congress. Os S10 trazem uma série de detalhes que podem melhorar sensivelmente o uso, mas prefiro não me pronunciar já. Dou este exemplo. Quando a Apple lançou o seu X, muitos disseram que era apenas uma evolução menor. Hoje eu acho que foi uma etapa significativa. No caso destes três S10 que a Samsung agora colocou à venda, vou ter que experimentar umas coisas. Sobre os sistemas de inteligência artificial e a nova forma de ler a impressão digital, vou ter também que deixar assentar a poeira do lançamento.

De tudo o que se passou no mega lançamento que a Samsung encenou em São Francisco, ainda uma nota para um detalhe tecnológico que me deixa fascinado. Uma das áreas em que a empresa tem de facto conseguido surpreender, com excelentes produtos, é a dos relógios e, desta vez, mostrou o seu Galaxy Wear Active, mais vocacionado para desportistas, como o nome indica. Um relógio com todas as funções que esperamos de um smartwatch topo de gama, incluindo leitura do ritmo cardíaco, mas desta vez com leitura da tensão arterial óptica, sem necessidade da típica braçadeira. Tanto quanto consegui saber é uma tecnologia que só está disponível a nível comercial, e de forma fiável, desde o ano passado, e já chegou a estes relógios. O preço na Europa deve andar nos 250€ e, com estas características, vai fazer concorrência a muitos aparelhos que se vendem hoje (se for aos EUA parece que são 199 dólares, absurdamente mais barato). Estive pouco tempo com um destes relógios e ainda não tive verdadeiramente oportunidade de testar, mas, como sempre, fiquei muito curioso.

Galaxy Watch Active. Ler a tensão arterial a qualquer momento com um “simples” relógio

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Samsung

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