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É esta a diferença entre amar os pais e os filhos e uma mulher

Uma reflexão sobre o amor em três vertentes — a dos pais, dos filhos e da mulher. Pai Panda está de volta, com “Diário de um Pai Solteiro”, sempre à segunda-feira

Mike Scheid

1. Pais

Antes da minha filha as únicas pessoas que senti de forma viva e presente que amava, enquanto as amava, foram a minha mãe e o meu pai, até ser adolescente. Queria que me vissem fazer coisas, que admirassem os meus desenhos ou textos, que me levassem ao colo e depois às cavalitas. Quando me deixavam em creches chorava porque não queria que me deixassem.

Precisava do contacto, da presença e sofria com a ausência. A adolescência interrompeu isso de forma catastrófica. Sim, claro que se perguntarem a qualquer filho se ama os pais a maior parte vai responder que sim, a questão é que não precisamos deles da mesma forma. A certa altura até nos podem suscitar conflitos e vontade de independência. Mais tarde, quando o meu pai adoeceu e morreu, voltei a ser uma criança de cinco anos e amei-o mais do que qualquer pessoa antes. As pessoas da família próxima são como uma árvore num jardim que dá sombra aprazível. Estão ali com os seus hábitos e comportamentos eternos até ameaçarem não estar de forma palpável e real. Um dia a árvore desaparece e fica um buraco no chão onde havia raízes, vazio e revolto, exposto à luz crua do sol.

2. Filhos

Nunca amei nada de forma tão permanente e real como a Panda. Não sou original nisso. Quase todos os pais e mães dizem o mesmo. Vejo uma fotografia dela em que está com a língua de fora concentrada a brincar com LEGO e eu lembro-me que uns minutos antes ralhei com ela por um motivo qualquer. E aquela foto lembra-me que aquele foi um momento mágico que nunca mais se repete. Sinto uma melancolia boa que me faz perceber que a adoro. É na consciência da transitoriedade desse momento que está o que podemos considerar de amor palpável. A família, nos melhores casos, é tida como uma realidade não negociável Os pais são gigantes, deuses, até serem fracos e velhinhos. Até deles restar um buraco no chão revolto como uma ferida na terra. A pequena mão de bebé que segura o nosso dedo mindinho, vai crescer. O tempo a passar. Estamos a perdê-los a cada grão de areia que passa pela cintura da ampulheta. Ainda há o medo de os perder mesmo, porque somos responsáveis por eles, temos de os proteger e manter vivos, está-nos inscrito nos genes.

A consciência do amor é a compreensão da perda.

3. Mulher

E depois perguntam-me se é suposto ascender a esta dimensão idealizada no casamento com uma desconhecida. O que é o amor nisso? É diferente? As separações, especialmente com ciúmes à mistura, transtornam mais os seres humanos do que a felicidade e a paz. Não me lembro de ver homens e mulheres perderem a cabeça por paixão a não ser para reagirem mal a qualquer coisa que perdem. O ciúme de ser deixado e trocado por outra pessoa materializa a destruição: somos pó e a cinza de nós próprios. E para sempre. Há quem fique eternamente em suspenso por uma coisa que não foi e considere que essa falta que sente é a última coisa que a liga a esse passado. Por isso preferimos manter vivas as chagas de desgostos recorrendo a sal do que deixar cicatrizar. Quantas vezes as pessoas sentem mais “por perder” do que por ter? Uma cadeia em que quem não tem, foge de quem se quer dar, para ir atrás de quem não o quer. É na falta e no desejo não satisfeito que se manifesta algo mais forte do que na presença, na disponibilidade e a paz. Há paixões que são como água que enche baldes cheios de furos que se esvaziam logo e que pedem mais água. A Natureza costuma ser particularmente hábil e sábia nas coisas que envolvam reprodução das espécies. Afinal de contas é disso que se trata. E é evidente que a Natureza ilude os apaixonados humanos, como faz a ave do paraíso fêmea atrair-se pela dança ridícula e as penas do macho. É irracional. Se não fosse, não era possível que duas pessoas se achassem fabulosas, casassem, tivessem filhos e depois se divorciassem de forma litigiosa. Não funcionaria assim. Escolhíamos pessoas como escolhemos um T2 em Odivelas tendo em conta a evolução do mercado e as acessibilidades. Porque razão a Natureza não nos faz sentir paixão pelas características que importariam numa vida em comum em detrimento de outros atributos como “sabe tocar guitarra eléctrica”, “tem um sorriso incrível”, “faz-me rir”, “gosto do cheiro”? Tantas pessoas que admitem “ele é perfeito para mim, mas eu não gosto dele” ou “ela seria uma óptima namorada mas eu só gosto das mulheres erradas”. As pessoas até têm noção disso, não é que tenha descoberto a pólvora aos 13 anos depois de desperdiçar poupanças em ursos de pelúcia, rosas e caixas de chocolate. Cartas e canções que me envergonharam depois. O facto de gostar de uma rapariga era completamente não correlacionado com ela gostar de mim. Não era gostar muito, muito, muito, que ia fazer com que ela gostasse de mim: era o oposto. E o contrário também. É muito diferente dos filhos. E dos pais. Um filho desenha a mamã com um coração à volta dela e as lágrimas vêm aos olhos desta mãe que fica enternecida. Um pretendente lá no escritório contudo pode fazer os retratos que quiser a uma colega que o mais a que se arrisca é parecer obcecado e creepy e ser gozado pelos colegas. Tudo porque há um mecanismo de avaliar o outro. Não escolhemos filhos. Não escolhemos pais. Mas escolhemos maridos e mulheres. Alguém que não nos quer está implicitamente a dizer-nos “não és bom que chegue para mim”. E vice-versa. Alguém que se oferece mais do que nós queremos também parece desvalorizar-se. O equilíbrio estará em ambos acharem que lhes saiu algo melhor do que merecem, uma perda como máquinas de movimento perpétuo, como a força de gravidade que faz duas estrelas rodar em torno uma da outra numa queda infinita. Mas nem isso é controlável. A Natureza não quer saber do amor para sempre entre dois adultos, muito menos de idosos que por ela podiam ir com o caneco mais cedo para libertar recursos para jovens. Só quer resolver a parte de duas pessoas se apaixonarem pelos melhores genes e terem um bebé com os melhores genes. Quer que duas pessoas percebam que estão a viver algo transitório. Algo que elas considerem que se não aproveitarem, não se volta a repetir. As duas. Ao mesmo tempo. O que, convenhamos, tem a força de um milagre quando acontece.

(Bom, já desconfiava que este tópico “3 A Mulher” me ia ocupar bastantes mais linhas que os dois primeiros dois, mas não nesta proporção)

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