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Vida Extra

À descoberta da ilha azul

Um passeio pelo Faial, a Ilha Azul de Raul Brandão, com o Pico e São Jorge ali tão perto. Tanto para ver em tão poucos quilómetros quadrados e a pouco mais de duas horas de voo de Lisboa

Marina da Cidade da Horta na Ilha do Faial, Açores

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Quando o avião começa a baixar para o Faial, passa entre as vizinhas ilhas de São Jorge e do Pico. A primeira, alongada e rochosa, para norte, ou seja, à nossa direita no rumo habitual do voo. A segunda, na direcção oposta, quase encostada ao Faial, com a alta montanha do Pico, invariavelmente rodeada por um cachecol de nuvens. Lá em baixo começa a vislumbrar-se a cidade da Horta, aninhada à beira-mar entre duas volumosas elevações: a sul o Monte da Guia e a norte a ponta da Espalamaca, dominados no centro da ilha pelo Cabeço Gordo (altitude 1010 m), ponto mais alto do cone de um vulcão extinto.

Nesta sumária descrição cabe tudo aquilo que faz desta ilha açoriana e das suas gentes aquilo que são: a dependência secular da navegação no Atlântico e a capacidade de superar o isolamento e as fúrias da natureza, tantas vezes titânicas e devastadoras. Basta pensar que a última erupção vulcânica se deu em 1957/58 nos Capelinhos, na ponta mais ocidental da ilha. E que o último grande sismo foi em 1998 com um cortejo significativo de destruições e mesmo de mortes.

Vista do Monte da Guia, na ilha do Faial, Açores, sobre o Porto Pim e a cidade da Horta

Vista do Monte da Guia, na ilha do Faial, Açores, sobre o Porto Pim e a cidade da Horta

Rui Ochôa

Igrejas e impérios

É por isso que, quando estamos na marginal da Horta e olhamos para a cidade, uma das marcas mais fortes é a das igrejas, imponentes e situadas em pontos altos: a meio, a igreja matriz anexa ao antigo Colégio dos Jesuítas; por detrás da doca de recreio a de São Francisco e, na direcção oposta, a caminho das piscinas e do cais de embarque para o Pico, a do Carmo, já a meia encosta. Por toda a ilha há os impérios, ou seja capelinhas não sacralizadas dedicadas ao culto do Espírito Santo que neste arquipélago floresceu. Entre um Deus temível que não poupa os crentes aos terramotos e à lava e uma divindade fraterna e distribuidora dos frutos da terra assim se alicerçou a religiosidade popular açoriana.

A meio da marginal da Horta outra referência funda do passado ilhéu: o medo da pirataria, neste caso enfrentado pelas muralhas do Forte de Santa Cruz, tal como, mais a sul pelo Portão Fortificado de Porto Pim e pelo vizinho forte de São Sebastião.

Igreja do Santissimo Salvador na Cidade da Horta , Ilha do Faial, Açores

Igreja do Santissimo Salvador na Cidade da Horta , Ilha do Faial, Açores

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Memórias baleeiras

Do mar tanto podia vir a fortuna como a desgraça. Os cereais aqui cultivados abasteciam as praças-fortes portuguesas nas costas marroquinas. As frotas que regressavam dos Brasis ou das colónias espanholas aportavam aqui para reabastecer. No século XIX os navios baleeiros norte-americanos vinham recrutar gente sem medo aqui e não é por acaso que personagens secundárias do romance “Moby Dick” são açorianas. De resto Herman Melville escreveu no seu livro: “Não se sabe bem porquê mas a verdade é que os ilhéus são os maiores caçadores de baleias”.

Acabada a navegação comercial à vela, o porto da Horta passou a ser um entreposto carvoeiro onde os vapores vinham abastecer. Aqui foram instaladas a partir de 1893 as primeiras estações dos cabos submarinos de telecomunicações, uma das quais corresponde ao actual Hotel Fayal Garden. Durante a I Guerra Mundial a ilha temeu os ataques dos submarinos alemães, um dos quais bombardeou o porto de Ponta Delgada e outro afundou o navio patrulha “Augusto de Castilho” ao largo de Santa Maria. Em 1919 aqui amarou o primeiro hidroavião, precursor dos gigantescos Clippers que haveriam de fazer a ligação entre os Estados Unidos e a Europa.

Marina da Horta, Faial, Açores

Marina da Horta, Faial, Açores

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Histórias de velejadores

Acabada a guerra, a navegação à vela voltou mas na versão de recreio. Aqui chegam por ano centenas de iates e veleiros dos mais diversos tipos. Alguns dos grandes navegadores solitários passaram por aqui, caso de Slocum, Chichester, Tabarly ou Bardiaux. Toda esta gente se encontra no Café Peter’s, que tem fama de servir o melhor gin do mundo. No andar de cima, um curioso museu organizado pela família dos proprietários e que apresenta, entre evocações dos grandes navegadores, uma colecção única de peças esculpidas em dente de cachalote, arte mais conhecida pela sua designação anglo-saxónica de scrimshaw.

Peter Café Sport na Cidade da Horta, Faial, Açores

Peter Café Sport na Cidade da Horta, Faial, Açores

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A tradição manda que, para dar boa sorte, a tripulação de todo o veleiro que aqui aporte deve pintar uma mensagem no muro da doca de recreio e esta, apesar de ampliada em 1986, já parece ter esgotado o espaço disponível para decorações coloridas. Entretanto o Faial tem o seu próprio navegador solitário, Genuíno Madruga, que entre 2008 e 2009 deu duas voltas ao mundo, a última das quais dobrando o temível Cabo Horn na passagem do Atlântico para o Pacífico.

Genuíno, agora com 68 anos mas “ainda para as curvas” como gosta de dizer, gere o restaurante homónimo em Porto Pim. Entre marisco e peixe grelhado conta aos visitantes as suas aventuras, a maior das quais foi ter enfrentado uma tempestade formidável no Oceano Índico. “Foi aí que percebi donde vinha a ideia do gigante Adamastor”, recorda ele, sublinhando que no seu barco de 11 m, o “Hemingway”, havia sempre víveres para três meses e um rádio de onda curta que lhe permitia, volta e meia, entrar em directo nas rádios portuguesas com emissões por esse mundo.

Restaurante “Genuíno” no Faial

Restaurante “Genuíno” no Faial

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Cidade de colinas

Se, nestas ilhas, Angra do Heroísmo, na Terceira, é a mais extraordinária das lições de urbanismo e de história da arquitectura portuguesa, a Horta, ainda que noutra escala, não lhe fica muito atrás. Tal como a Lisboa antiga, a Horta soube adaptar-se às colinas com uma teia de escadinhas e calçadas íngremes, rodeadas por casas com mansardas em madeira trabalhada, varandas e fachadas de cores garridas. À medida que descemos para a marginal surgem prédios mais altos e elaborados, alguns de cariz oitocentista, testemunhando os altos e baixos de sucessivos ciclos económicos, da cultura da laranja e do vinho, ao cabo submarino, à caça à baleia, à pesca e aos lacticínios.

Ponto alto do centro é a Praça da República onde se situam alguns dos edifícios civis mais notáveis, a começar pelo Teatro Faialense construído em 1916 e com um interior belíssimo com sucessivos andares de frisas e balcões. Aqui decorreu nos últimos dias de Janeiro o VII Congresso da Associação de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE) em cuja sessão de encerramento tive o prazer de participar no quadro de um debate sobre os novos rumos de que o turismo precisa para não ficar deslumbrado por um ciclo de vacas gordas que, de resto, não é isento de efeitos perversos a nível urbanístico, social e cultural.

Na mesma praça, outro edifício notável, também de inspiração art déco, o da Sociedade Amor da Pátria (Norte Júnior, 1934), sede de uma velha associação maçónica e republicana, cuja sala de jantar é um deslumbramento. Nada falta, nem uma jazz band à antiga, com tuba e percussão, tocando boleros e standarts e convidando a um pé de dança. Aqui se realizou a sessão inaugural da Assembleia Regional em 1976, mais tarde com instalações próprias na parte alta da cidade

Homens, mulheres e Porto Pim

Falar da Horta e esquecer Porto Pim seria um ultraje. Para sul da cidade e da doca de recreio, protegida pelo Monte da Guia, fica esta acolhedora baía com uma das raras praias de areia branca (em geral é negra devido à sua origem basáltica) e um declive tão suave que, uma vez na água, mais depressa nos cansamos do que perdemos o pé.

A toda a volta, de um lado as casas e armazéns da família de John Dabney, empresário que foi cônsul dos Estados Unidos e deixou a sua marca aqui e noutras ilhas e, do outro lado da acolhedora baía, as pitorescas casinhas de pescadores e mareantes. Logo nos imaginamos de visita às páginas de “Mulher de Porto Pim” de António Tabbuchi.

Dir-vos-ei a fechar que há mais Faial para além da Horta, assunto ao qual prometo voltar em breve.

Baía de Porto Pim

Baía de Porto Pim

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