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Os segredos na greve dos enfermeiros

Nos quase 20 anos que já levo como jornalista dedicada à Saúde, nunca tinha visto uma greve como esta dos enfermeiros. Não só por ser longa, ter um financiamento inédito e consequências potencialmente graves, mas acima de tudo por conter tantos segredos e desinformação

Luis Melendez

Nas últimas semanas, quase todo o meu trabalho foi dedicado ao protesto dos enfermeiros em blocos operatórios de hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), ouvindo todas as partes. De um lado e outro, são apresentados argumentos para fundamentar a posição de quem quer ter a razão, mas no meio sobram coisas por dizer.

Desde logo, está por saber que cirurgias em concreto o Governo garante terem ficado por fazer, levando-o a impor a requisição civil. As mesmas operações que os sindicatos afirmam ter sido agendadas já fora de tempo apenas com a intenção de armadilhar a capacidade de os profissionais cumprirem os serviços mínimos a que estavam obrigados pelo respetivo acórdão do Tribunal Arbitral.

Por que razão não foram até agora reveladas as cirurgias adiadas e no centro da discórdia? Sem violar os direitos ao sigilo médico e à privacidade dos doentes, o Ministério da Saúde já poderia ter ‘posto as cartas na mesa’ para tirar as teimas. Como também já poderia ter indicado, no balanço regular que envia aos jornalistas, quantas das intervenções canceladas foram do foro oncológico ou pediátrico, por exemplo. São detalhes que fazem a diferença e que, em parte, terão sido, entretanto, revelados na argumentação que um dos sindicatos que convocaram o protesto entregou à Justiça para tentar impedir a continuação da requisição civil.

Além do que tem de ser visto às claras, é igualmente preciso informar melhor. E aqui a responsabilidade é nossa, dos jornalistas. E dou um exemplo concreto. Noticiou o Expresso em primeira mão que grupos de enfermeiros discutiam nas redes sociais uma nova forma de protesto logo que o período de requisição civil terminasse. A sua ideia era recorrer aos dias de faltas injustificadas a que por lei têm direito todos os anos para, cirúrgica e concertadamente, não comparecerem nos serviços, bloqueando a resposta do SNS.

Ora o que foi reproduzido, e comentado até pelo Presidente da República, foi que as faltas aconteceriam durante a requisição civil como forma de retaliação. O que configuraria crime. Nada disto esteve alguma vez em preparação. Não foi isso que o Expresso noticiou. Mas foi isso que chegou a muitos portugueses. Da mesma forma, chegaram também a público denúncias de operações adiadas por culpa dos enfermeiros em hospitais onde não há greve cirúrgica, como o Amadora-Sintra, ou ainda antes de o protesto ter sido iniciado, caso do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, portanto, sem que a veracidade da informação tivesse sido verificada e posta em causa.

Como jornalista, não tomo parte nem dou razão ao Governo ou aos enfermeiros, mas não abdico de defender o acesso a informação credível e ao discurso sem meias-verdades. Sem que estes valores estejam garantidos, todos falam e dificilmente alguém terá razão. Os enfermeiros, por exemplo, já pediram aos anónimos que fizeram donativos para o fundo solidário que se identifiquem para que não restem dúvidas sobre o financiamento da greve. Falta agora ao Governo uma atitude semelhante: retirar do anonimato as cirurgias em concreto que foram canceladas devido ao incumprimento dos serviços mínimos.

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