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Vida Extra

“Marés Vivas” nasceu há 30 anos. A falta que ela faz

Uma série de puro entretenimento que tornou as praias mais seguras e foi a mais vista no planeta

David Hasselhoff, Mitzi Kapture, Kelly Packard, David Chokachi, Brooke Burns e Michael Bergin em Baywatch (1989)

D.R.

Qual é a melhor maneira de tornar uma profissão apelativa e respeitada? A resposta pode ser erguer uma série de televisão em seu redor. E quem o pode fazer melhor que qualquer um? Alguém que tenha exercido essa profissão, em especial se for ajudado pelo acaso. E foi assim mesmo que, com “Baywatch/Marés Vivas” (1989-2001), a carreira de nadador salvador ganhou um glamour impensável.

Esta história começa em 1977. Greg Bonann era banheiro numa praia da baía de Santa Mónica, Los Angeles, quando se lançou às águas do Pacífico para salvar duas crianças em apuros. Os miúdos eram filhos de um executivo de televisão e numa visita posterior aos estúdios (supõe-se que organizada como gratidão), Bonnan teve a lata de sugerir uma série acerca da vida e obra dos nadadores salvadores. A coisa não avançou — quem é que que quereria ver uma série em que a ação máxima do episódio seria respiração boca a boca? — mas Greg parou de salvar vidas e mudou de ofício, passando a fazer parte do showbiz, sem nunca esquecer o plano original que continuaria a ser recusado por sucessivos interlocutores. Greg fez bem em teimar e o projeto deu tantas voltas que em abril de 1989, 12 anos depois do tal salvamento, estreou na NBC o telefilme “Baywatch: Panic at Malibu Pier”, já com David Hasselhoff (o Justiceiro) como musculado salvador que também resolvia crimes e apanhava vilões. O esforço foi o suficiente para ser encomendada uma série pela NBC que viria a ser um fracasso na primeira temporada. Baywatch foi cancelada, acabando quando ainda mal começara.

David Hasselhoff e Rebecca Carlton, de Baywatch, em 1995

David Hasselhoff e Rebecca Carlton, de Baywatch, em 1995

D.R.

Segundo fôlego

O cenário era péssimo e, para piorar, a empresa que a produzia faliu, afogada (desculpem…) em dívidas, tendo alguns dos produtores — e o protagonista Hasselhoff — comprado os direitos para eventuais episódios futuros por tuta e meia (literalmente, esses direitos custaram dez dólares), motivados pela então imensa popularidade do Justiceiro como cantor na Alemanha. E foi deste modo que, com dinheiros europeus, Baywatch arrancou para uma segunda existência, com menos 30% de orçamento. A aposta revelou-se um êxito, com a série a ganhar tração no mercado americano desyndication (canais locais e regionais com programação própria fora do prime time) com a popularidade a crescer exponencialmente com a entrada de Pamela Anderson em 1992, na terceira season.

No seu auge, Baywatch viria a ser vendida para quase 150 países e a ter mais de mil milhões de espetadores por episódio, garantindo presença no Guiness como “a série mais vista globalmente”, tornando-se noutro ícone americano.

Cavados e coleantes

A ação repetitiva decorria na Califórnia, nas praias próximas de Los Angeles (sobretudo Malibu, Venice e Santa Monica), que são praias normalíssimas, diga-se de passagem, que a magia da televisão transformou no “Céu na Terra”. A NBC pretendia uma proposta respeitável e profissional, mas como no segundo ano de Marés Vivas os patrões já eram outros, os limites da decência haviam mudado e os fatos de banho puderam passar a ser mais cavados nas ancas, com as atrizes a terem um súbito desejo de implantar silicone no peito, com todos a serem impedidos de ganhar peso, por contrato, se quisessem manter o emprego. Com um consumo mensal de 40 frascos de loção solar, as praias em Baywatch passaram a viveiros de modelos atraentes e jovens musculados e foi essa a fórmula que conquistou o universo a uma escala talvez compreensível se nos lembramos que não havia internet e que a figura feminina sexualizada durante tanto tempo era quase omissa em televisão e até em cinema de grande público.

Conhecida como “SOS Malibu” no Brasil, “Alerte à Malibu” em França, “Los Guardianes de la Bahía” no Chile ou “Los Vigilantes de la Playa” em Espanha, o mundo era a ostra de Baywatch. Numa entrevista, David Hasselhoff afirmou que a mulher do Xá ter-lhe-á dito que no Irão os que possuíam parabólica e apanhavam Marés Vivas, costumavam vender bilhetes a quem quisesse ver a série. Se non è vero è ben trovato.

Exibida em Portugal sucessivamente na RTP, TVI e ainda na SIC Radical, Marés Vivas não obteve nem prémios, nem homenagens, mas se houve produto de televisão que marcou os anos 90 e promoveu uma certa americanização definitiva do mundo (que não fazia ideia que vinha aí o 11 de setembro) foi esta. Baywatch foi durante os seus 12 anos a materialização do american way mais depurado: bonito à superfície, rico, elementar, profissional e diligente, ao mesmo tempo que se revelava intensamente satisfatório e agregador no anseio que sugeria. Dito de outra forma, tudo era tão exageradamente postiço, artificial e inverosímil que se tornou até viciante.

Em 2011, mais de dez anos depois de Marés Vivas ter terminado, a então secretária de Estado americana Hillary Clinton lamentava que alguns generais afegãos conhecessem a América a partir do Wrestling e de Baywatch, referindo que a América estava a perder a batalha das relações públicas também porque Hollywood só vinha piorando as coisas. Quem sabe. Certo é que em alguns países muçulmanos os locais odiavam a América porque acreditavam que os americanos tratavam mal as suas mulheres, obrigando-as a andar em roupa interior encarnada, coleante e cavada.

A hipersexualização em Baywatch pode muito bem ter contribuído para irritar alguns fundamentalistas, o que talvez explique porque Clinton disse o que disse no Senado.

Yasmine Bleeth, Donna D'Errico, Traci Bingham, Brooke Burns, Gena Lee Nolin e Nancy Valen em Baywatch (1989)

Yasmine Bleeth, Donna D'Errico, Traci Bingham, Brooke Burns, Gena Lee Nolin e Nancy Valen em Baywatch (1989)

D.R.

A decisiva Pamela

Não haja a menor dúvida que as mulheres curvilíneas e loiras foram um fator em Marés Vivas e, por isso, os produtores perseguiram a atriz Pamela Anderson, que então fazia um pequeno papel na série “Home Improvement” e fora capa da Playboy quatro vezes. Antes que conseguissem contratá-la, Pamela começou por ficar famosa junto da equipa por faltar a sucessivos castings. O interessante é que os produtores queriam sobretudo as curvas de Pamela e desenharam-lhe um personagem sem espessura, new age e dado a misticismos leves. Perante o desafio redutor, os argumentistas colaram-na à sua vida verdadeira, de conteúdo brando e morno, o ideal para que Anderson fosse fazendo crescer o personagem à vontade, sem pressões dramáticas, pavoneando dotes físicos, simpatia e doçura pela areia. Resultou, dado que Pamela Anderson era muito amiga do ar livre, gostava de se levantar cedo e tomar banho no mar, o que contribuiu grandemente para criar uma boa onda (desculpem…) que alastrou a toda a equipa.

Pamela Anderson em Baywatch (1989)

Pamela Anderson em Baywatch (1989)

D.R.

Histórias da carochinha

Dramaticamente, a série era fraquíssima, quase anedótica, com plots previsíveis e personagens finos como um guardanapo de pastelaria, numa simplicidade que terá sido o gatilho para a universalidade. Ou talvez tenha sido Pamela a correr em câmara lenta pela areia no início de cada episódio. Hoje pode parecer evidente que uma série tem de ser recheada de personagens angustiados, tensos e divididos, mas então as coisas eram mais básicas, não havia gravações automáticas, Cabo ou Netflix, a televisão mandava e nós víamos e ponto final.

Coisas boas disto é que foi graças a Baywatch que se compreendeu melhor a profissão de nadador-salvador, bem como se alertou a consciência dos veraneantes acerca dos riscos que podiam correr na praia e no mar. Apesar de todo o pacote visual, em Baywatch os casos de afogamento e perigo procuravam ser pedagógicos, sendo um dos personagens secundários mais recorrentes um nadador-salvador autêntico que se fartou de auxiliar os atores nas suas ações e salvamentos, bem como a fazer de duplo.

Já agora, as corridas longas em câmara lenta, imagem de marca da série, foram inspiradas nos sprinters dos jogos Olímpicos de 1988 e (ao que parece) utilizados para completar o tempo de duração dos episódios.

Nas encarnações finais, a série foi para a Austrália e depois para o Havai (onde os fatos de banho eram amarelos) e acabou por morrer afogada (desculpem novamente) no decréscimo de audiências e de interesse.

Com 11 temporadas e quase 250 episódios, perto de vinte capas de Playboy diferentes durante a exibição da mesma, impõe-se a pergunta: Marés Vivas faz falta hoje? Se calhar até faz. Os americanos (como os portugueses e noutros países) têm falta de candidatos a nadador-salvador e no último verão o porta-voz da American Lifeguard Association admitiu que a sua vida era muito mais simples quando David Hasselhoff e Pamela Anderson estavam no ativo, a salvar vidas na televisão.

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