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Karaoke é poesia, cinema e roque enrole (prólogo ao dia de S. Valentim)

Episódios de uma millennial que vive no Bairro Alto, é atriz e às vezes escreve coisas. Recontos e resumos de encontros cósmicos, historietas nos camarins, acontecimentos cármicos nos sets de rodagem, idas a concertos pelo amor ao Roque Enrole e as graças da cidade. Esta é a nova entrada de “Miallennial”, sempre ao sábado no Vida Extra

Lembram-se daquela cena de karaoke do “Lost in translation” ? Aquela em que a Scarlett Johansson — doce e a tocar os padrões de Lolita — canta “Brass in Pocket” dos The Pretenders, lançando pelos próprios olhos raios ultravioleta à personagem do Bill Murray? Conseguimos perceber o funcional que um karaoke pode ser: 1) confessar o que estamos a sentir sem ser por palavras nossas 2) vincar aquela frase que parece que foi mesmo escrita por nós, mas sempre protegidos pelo facto de “ah...aquela música já existia, eu só estou a cantar o que está a aparecer no ecrã, eu nem sequer sabia a letra e já tinha bebido imensa tequilla”. Balelas. Toda a gente sabe que o karaoke tem aquele gostinho romântico que verte poesia e que suja o chão com amarguras do coração.

Quem é que nunca foi em frente para cantar aquela música que dizia exatamente aquilo que queríamos que o nosso amor platónico ouvisse? Mesmo que para os nossos amigos e espectadores, a performance fosse apresentada em tons irónicos e super “a fingir”, ao ponto de se usar uns óculos de sol e desafinar de propósito, só para parecer que se estava zero envolvido com aquela frase do tipo “amar não é pecado e se eu estiver errado, que se dane o mundo, eu quero é você!”. Bom, com o que vos vou contar, já vão perceber onde é que a curadoria musical pode chegar.

Descia tranquilamente a rua do elevador da Bica com destino ao Cais do Sodré, começo a ouvir docemente desafinado, e em volume exagerado, tiradas do êxito de 1994 “Chamar a Música”. Aproximei-me de uma porta que vertia luzes de todas as cores, bolas de espelhos e strobs pouco funcionais, era um espaço pequeno, claramente cheio de habituais frequentadores daquele lugar e... muita atenção agora: uma pujante sessão de karaoke.

Descubro que estava numa festa de aniversário de uma das associadas do grupo excursionista “Vai tu” — e fomos. Entrámos sem vacilar, pousámos os casacos com o vigor de quem se está a preparar para uma atuação emotiva e polvilhada com luzes a condizer — oxalá nos deixassem cantar!

... E cantaram mesmo. Aqui Isabel Costa e João Pedro Mamede

... E cantaram mesmo. Aqui Isabel Costa e João Pedro Mamede

Mia Tomé

A poesia estava em vários sítios: nas fotografias penduradas na parede, nos sorrisos das caras que estavam a ver gente nova, na camisa do senhor que lançava o som “Alex Team Karaoke” (em letras brancas), no preço da bebida e, claro, nos duetos do próprio do Alex com as senhoras apaixonadas (sim, ele também cantava).

Celebraram-se baladas como “Depois do prazer” de Alexandre Pires, onde o autor garante estar “fazendo amor com outra pessoa, mas o meu coração vai ser pra sempre seu”. Pois claro, como não?

Já o roque enrole desta magia surge-nos com os Quinta do Bill, “oh se te quero...oh se te amo...”, que confesso, roubei por dez segundos o microfone ao corajoso que a escolheu. Mas o momento surpreendente da noite, não duvidem, foi o dueto entre dois ativos participantes que efusivamente lançaram “Sangue Oculto” dos GNR, e reparem, um dueto bilingue, em que um dos cavalheiros interpretou o grande Reininho e o outro fazia do senhor que canta em espanhol (e que belo sotaque!).

Ah, Sétima Legião (coro entusiasta dentro da sala), “procuro à noite um sinal de ti, espero à noite por quem não esqueci”, tudo honesto, tudo arrancado das entranhas do coração e tudo extremamente alto.

É então que me surge à cabeça Scarlett Johansson de micro na mão, a forma como ela cantava as palavras, as cores, a dancinha, os olhares, e o dizer sem dizer — porque não eram palavras suas. Queria tentar fazer o mesmo. Pedi à Bela e ao Mamede que cantassem comigo, queria que aquilo ficasse esbatido em três pessoas, que mesmo com os óculos escuros e a fingir que estava a fingir, não queria nada passar por sensível. Não havia personagem do Bill Murray para dedicar olhares, mas existia a imaginação, ou aquela telepatia em que até os céticos acreditam, e isso é suficiente para se dedicar canções pirosas à distância. Karaoke é poesia é cinema e roque enrole.

Dia de S. Valentim? Antes fosse Dia de São Te Ver em aparição no karaoke. Que venham aí duetos poéticos e que os blindemos com amigos, alegria e óculos de sol. Cantem alto no dia 14 de Fevereiro, no “Vai Tu”, certamente, valerá a pena.

Isabel Costa e João Pedro Mamede, à porta do “Vai Tu”

Isabel Costa e João Pedro Mamede, à porta do “Vai Tu”

Mia Tomé

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