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Porque é que alguém fica com um homem que lhe bate? (Eu sei o que é violência doméstica, e tu?)

Cristina Margato, na pele de Winnie, escreve sobre violência doméstica

SEACAT

Querido Willie,

Hoje vamos pegar o touro pelos cornos. Sabes o que é violência doméstica? Eu sei. E tu? Vou começar por contar-te uma história. Há uns anos recebi um e-mail de uma amiga que me dizia que tinha tido uma arma apontada à cabeça pelo homem que ela considerava um príncipe encantado.

Eu tinha-o conhecido uns tempos antes. Primeiro num almoço de amigos, em que ela o levara. Mais tarde, visitei-os na nova casa, um lugar idílico junto ao mar, onde a vida acontecia devagar.

A minha amiga é uma das mulheres mais inteligentes e cultas que conheço.

O e-mail apanhou-me sem aviso. Estava longe de imaginar que ele seria capaz de lhe apontar uma arma à cabeça.

É por isso que te aconselho a ouvir um dos TED mais interessantes que já ouvi até hoje AQUI. O testemunho de Leslie Morgan Steiner, uma mulher inteligente.

A primeira coisa que é preciso perceber: não são as mulheres burras que caem nas mãos dos homens maus. Não é o capuchinho vermelho que cai na mão do lobo mau. É qualquer pessoa.

O pior é pensar que quem cai e quem não consegue sair desta situação fá-lo por falta de inteligência. Acredito que em parte seja por vergonha. Por muita vergonha.

Uma das coisas com que o agressor conta é com a vergonha da vítima. Com o seu silêncio. Também com a desatenção dos amigos e da família.

O agressor conta com o isolamento da vítima; e até, tendo em conta o elevado número de penas suspensas, com a complacência das autoridades.

O agressor conta com o facto de em matéria de desafectos haver quem considere que há muitas atenuantes, ao ponto de existirem juízes que se acham no direito de fazer considerações morais sobre o comportamento das mulheres. E sobre isso não necessito de acrescentar mais nada tendo em conta os casos recentes, sobre os quais poderás ter lido nos jornais.

E é por isso, Willie, que a minha amiga mostrou, uma vez mais, a sua inteligência ao enviar o e-mail aos amigos e à família. Foi a decisão mais inteligente da vida dela.

Ela percebeu que perdendo a vergonha, denunciando o agressor, poderia finalmente proteger-se. Ela quebrou o silêncio.

“Porque ficaste? Porque demoraste tanto tempo a denunciar o agressor, e a fugir dele?” É a pergunta que todos fazem à vítima. “Porque não sabia que ele abusava de mim”, responde Leslie Morgan Steiner.

A violência doméstica é em parte uma questão cultural, que as leis só podem resolver depois do crime cometido. Logo é algo que temos de combater agora, em casa, com os nossos filhos e as nossas filhas.

A primeira coisa a dizer-lhes é que não há ciúmes ou outras razões que possam justificar a agressão de alguém.

A outra resposta ao “Porque ficaste?” poderá ser: porque é perigoso sair. Leslie Morgan sabia-o. A minha amiga sabia-o. A mãe do Seixal sabia-o. Sabem-no as mulheres que são vítimas de violência.

Como se terá sentido a mãe do Seixal quando o Ministério Público lhe retirou o tapete, ao passar a acusação que fez contra o companheiro de crime público para semi-público?

Ora, a mim parece-me que o Ministério Público, as autoridades e a polícia não são entidades abstractas. Têm lá dentro pessoas. E a questão que coloco é: poderão essas pessoas dormir descansadas, depois do que aconteceu no Seixal? Depois do que aconteceu às dez mulheres que morreram em Portugal desde o dia 1 de janeiro?

Eu não durmo descansada. Por mim. Por todas as mulheres.

Amanhã, Willie, poderemos estar juntos, para dar força a todas as mulheres. Vamos quebrar o silêncio. Porque o silêncio só protege o agressor.

Carinhosamente,

Winnie

PS- Hoje envio-te uma imagem simbólica da nossa revolução, a de Abril. Porque ainda há muitas revoluções a fazer.

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