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E o Douro ali tão perto

Pelas antigas terras do carvão e pelas aldeias ribeirinhas de xisto, sempre com o Douro à vista e ao volante do novo Toyota RAV 4. Esta é a nova entrada de “Viagens na Nossa Terra”, pelo jornalista Rui Cardoso

O novo RAV4 ainda longe do Douro Vinhateiro mas já entre socalcos

www.sebastienmauroy.com

Ainda me lembro de ter aprendido na escola que Portugal, pobre em recursos minerais, tinha, apesar de tudo, duas grandes minas de carvão. Ficavam perto do Porto, em São Pedro da Cova e no Pejão (respectivamente nas margens direita e esquerda do Douro).

Ambas fecharam em tempos recentes: São Pedro da Cova em 1970 e Pejão em 1994, deixando tradições seculares ligadas aos mineiros e suas famílias. Estes heróis do trabalho ainda hoje são evocados por estátuas junto à N222, perto da aldeia de Areja (margem esquerda). As marcas também ficaram na paisagem, pois quem venha do Porto pela N108 (a marginal que acompanha o Douro pela margem direita a partir do Freixo), uma vez andados uns 18 km, não pode deixar de avistar, recortada contra a silhueta do alto viaduto da A42, a massa da antiga central termoeléctrica da Tapada do Outeiro, cujas caldeiras eram alimentadas pelo carvão das referidas minas. Desactivada em 2004, foi substituída por uma central vizinha menos imponente mas mais eficaz (funciona a gás natural), igualmente visível nas imediações.

Minas do Pejão, onde está o monumento de homenagem aos mineiros

Minas do Pejão, onde está o monumento de homenagem aos mineiros

Luis Cap / Flickr

Arqueologia industrial

Existem projectos para recuperar ambas as minas, não para exploração mas para fins turísticos, dada a sua localização excepcional e a preciosidade que constituem em termos de arqueologia industrial.

O turismo é, justamente, uma das grandes potencialidades desta região, não muito distante do Porto, ainda que mal servida de acessos (já foram piores). Ao já referido património mineiro juntam-se as paisagens ribeirinhas e as aldeias tradicionais, algumas em xisto.

Foi este o cenário escolhido há poucos dias para o lançamento em Portugal da quinta geração do Toyota RAV 4, sigla que significa “Recreational Active Vehicle 4x4”. A tradução é evidente e, de facto, há 25 anos a primeira geração do RAV4 representou um corte com o que então se fazia em matéria de veículos TT (incluindo os do próprio fabricante japonês).

Era o Ovo de Colombo relativamente aos veículos 4x4 da época, prenunciando os Sport Utility Vehicles (SUV): em vez de um chassis em escada onde ancoravam dois eixos rígidos e quatro molas helicoidais, uma carroçaria monobloco (como as dos automóveis ligeiros) com suspensão independente. E, para compensar a falta de uma caixa de transferência com redutoras, um potente (para os padrões de 1994) motor a gasolina de 130 cavalos e tracção permanente às quatro rodas. A relação peso/potência deste primeiro SUV levava-o, não a todo o lado, mas quase.

Cinco gerações

Seguiu-se em 2000 aquela que, na minha opinião, continua a ser a mais bem conseguida de todas as versões. Basta ver a dificuldade que há em encontrá-la em segunda mão. A carroçaria cresceu (continuava a haver versões curtas e longas, de três e cinco portas) e recebeu uma belíssima motorização diesel. Sem prejuízo da menor altura ao solo relativamente aos jipes, este segundo RAV tinha uma tracção notável em qualquer terreno, portava-se bem em estrada e tinha consumos interessantes.

A 3ª geração (2006) representou a evolução para uma utilização mais de asfalto e caminhos rurais que outra coisa, sendo a primeira a ser vendida em versão 4x2. A geração seguinte surgiu entre nós nos anos da crise e da troika (2013) e as suas vendas foram em conformidade com o ambiente que então se vivia.

Com esta quinta geração a Toyota tenta um pouco voltar às origens, fazendo do RAV 4 (agora acrónimo de Robust Accurate Vehicle 4x4) um SUV capaz de andar por (quase) qualquer terreno. E, sinal dos tempos, fá-lo recorrendo à sua já longa experiência em motorizações híbridas.

Haverá duas versões: uma 4x2 (que foi a ensaiada), beneficiando de um eficiente controlo de tracção e de um pouco mais de altura ao solo (relativamente à geração anterior): e outra com tracção integral, associando um motor híbrido (térmico e eléctrico) ao eixo dianteiro e um motor eléctrico ao eixo traseiro. Esta opção só deverá estar à venda a partir de Março.

Embora alvo de alguma racionalização recente, o sistema de portagens continua a ser anacrónico. Até que a pressão dos fabricantes e do público imponha nova actualização de critérios, continuarão a ser penalizadas nas portagens soluções tecnologicamente avançadas e ambientalmente eficientes que tenderão a generalizar-se nos próximos anos: tracção integral proporcionada por motores eléctricos ou híbridos em cada eixo. No caso do RAV 4 a versão 4x2 é Classe 1 e a versão 4x4, Classe 2.

Posto de condução do novo RAV4: as informações sobre o desempenho do sistema híbrido são projectadas nos ecrãs que ficam de frente para o condutor

Posto de condução do novo RAV4: as informações sobre o desempenho do sistema híbrido são projectadas nos ecrãs que ficam de frente para o condutor

Vistas de sonho

Feito este parêntesis, regressemos à região onde decorreu a apresentação do RAV4. O ponto fulcral foi o Hotel Douro 41, nome que advém da distância por estrada ao Porto. Situa-se em Raiva, na margem esquerda, a jusante de Castelo de Paiva. Chegar ao nascer do sol à janela do quarto e ver o Douro lá em baixo, ainda meio encoberto por farrapos de nevoeiro, com a serra da Boneca em frente é um choque sensorial que nos faz imaginar os primeiros acordes de “Women of Ireland” (da banda sonora de Barry Lindon) ou dos “Verdes Anos” do grande Carlos Paredes.

Para montante fica a ponte sobre o Douro, duplicada após a tragédia de 2001 (59 mortos no desabamento de parte do tabuleiro). Alguns camaradas de profissão que fizeram a cobertura deste acontecimento evocaram tempos de angústia, de divisões entre a população, de hostilidade para com os políticos e jornalistas num ambiente de cortar à faca.

Na altura foi prometido que passaria a haver ligações decentes de Castelo de Paiva e Entre-os-Rios ao Porto, o que só em parte foi concretizado. Na margem esquerda a variante à N222 só tem meia dúzia de quilómetros, o que representa uns bons 20 minutos de viagem até ao nó de Canedo da A32 (com ligação ao Porto e à A1). Na margem contrária, a ligação de Entre-os-Rios a Penafiel e à A4 faz-se, não pelo prometido IC35, mas pela sinuosa, congestionada e perigosa N106. A única boa notícia, como costuma sublinhar o meu estimado companheiro de trabalho António Catarino, é que este caminho nos faz passar à porta de dois restaurantes que gozam de justificada fama: o Sapo, em Irivo, e o Ramirinho, em Pieres. Vem a talhe de foice lembrar que Catarino fará a 28 de Fevereiro a milésima emissão do programa TSF À Mesa de que, como muitos outros ouvintes, sou fiel seguidor.

Visto do Douro, perto de Midões

Visto do Douro, perto de Midões

Arjan Veen / Flickr

Presépios de xisto

As voltas que demos para experimentar o novo RAV4 podem ser a base de um belo passeio pela margem esquerda do Douro, com passagem pela bonita aldeia de xisto de Midões, aninhada à beira-rio em anfiteatro, com ruazinhas tão estreitas que até um carrinho de mão passa com dificuldade, quanto mais um SUV com 5 m de comprido…

Noutra aldeia não menos pitoresca, Areja, perto do Pejão, as calçadas íngremes e estreitas, acabadas de molhar por horas de uma chuva persistente, puseram à prova a tracção dos nossos carros. Mesmo em 4x2 a electrónica e um mínimo de habilidade ultrapassaram os obstáculos para frustração dos bate-chapas locais.

Não faltam por aqui panoramas sobre o Douro, alguns à flor da água, como na praia fluvial da Lomba. Nem memórias mineiras, como uma locomotiva a vapor ao lado da estrada, em tempos usada no ramal que levava o carvão até ao cais do Douro.

Histórias de ralis

A conduzir a caravana de uma dúzia de RAV4, um piloto da velha escola, Luís Lisboa, que foi 12 anos navegador do tricampeão nacional de ralis Adruzilo Lopes. Um grande contador de histórias, a melhor das quais é o susto monumental que Adruzilo pregou a um alto responsável da Peugeot quando, interpretando mal as instruções que lhe estavam a ser dadas em francês – língua que à evidência não dominava – entrou completamente a fundo por uma estrada que, afinal, não estava fechada ao trânsito…

Tudo este circuito pela margem esquerda do Douro e muito mais, como sejam as termas de Entre-os-Rios e a vila de Castelo de Paiva, estão a pouco mais de meia hora do Porto, via N222 e nó de Louredo da A32. E os famosos Passadiços do Paiva também não estão assim tão longe (em Arouca, 20 km a sul).

O novo RAV4 com motorização híbrida (cuja base é um motor térmico de 2500 cm3) e caixa automática debita 218 cv em versão 4x2 e 222 em versão 4x4 custando, respectivamente, desde € 38.790 ou desde € 44.590.

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