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Afinal há pássaros em Nova Iorque, mas isso não lhe tira a brutalidade. Mesmo com homens de tanga metalizada no metro

“O hygge, o mindfulness e os primos que me perdoem, mas às vezes era só mesmo deixar sair umas palavras boas e feias.” Maria João de Almeida em “Inventário de Nova Iorque”, às quintas-feiras na Vida Extra

Pela primeira vez ouvi pássaros em Manhattan. Numa varanda acima de uma Deli de esquina. Tão deslocados ali eles estavam. Soube-me bem.

Normalmente o som é diferente. Fecho os olhos e ouço o constante barulho, que nem sei se posso dizer que é de carros; é mais o som desta máquina gigante, omnipresente, uma máquina invisível, que ainda não sei se está localizada debaixo da cidade, nos alicerces, por cima como uma espécie de todo-poderoso drone a pairar, ou nas paredes, nas janela, em cada tijolo que edifica esta cidade. Mas ela existe. E se parar entre avenidas, fechar os olhos e ouvir, ela mostra-se bem imponente.

Já no metro, sinto um toque um quanto violento no ombro, volto-me e uma face sem expressão alguma deixa-me ouvir “you have nice hair”, ao que eu respondi “thank you”, por sentir que, de algum modo, a minha segurança dependia de uma resposta àquele estranho comentário. Os serial killers não se apresentam como serial killers não é? O metro chegou e o homem inexpressivo entra numa das carruagens sem dizer mais nada. Há que adorar Nova Iorque.

Ainda sob o capítulo “histórias do metro de NY”, no outro dia sai um grupo de homens de uma das carruagens a distribuir preservativos, mas com todo um estilo — um tocava guitarra e cantava uma qualquer canção pop sobre o amor, e outros três, exibindo nos seus corpos, nada mais do que tangas metalizadas, iam dançando e distribuindo os preservativos que tiravam de um saco também ele muito cheio de glitter.

Dei por mim a pensar no que teria originado aquele evento. Do género: um grupo de amigos está em casa ao fim do dia, a relaxar, ouvir música e a beber umas cervejas, até que um diz “Pessoal, tenho uma ideia. Aliás, mais do que uma ideia, é algo que pode até mudar o mundo, e nós vamos ser os arautos do progresso.’’ Sinto que gostaria de ter estado nesta reunião revolucionária. Gosto de saber como é que as grandes ideias da História nascem.

Nesta cidade há sem dúvida muitas “grandes ideias”. O jogo consiste em não ser engolido no meio da criação. A minha homónima dinamarquesa diz que não gosta da sensação de ser uma formiga na grande cidade. ‘’Eu não sou uma formiga, sou um leão’’ - diz ela com o seu ar de fada escandinava. Percebo o que ela quer dizer. Se não mantivermos as quatro patas bem firmes no chão e caminharmos nas direções que bem entendermos, podemos ser arrastados pela corrente, ou pisados, tal e qual formigas.

Atravessar a estrada, por exemplo. É todo um duelo de duas frentes. Ambos os lados paralelos à espera que o bonequinho branco apareça no semáforo, para em fúria se lançarem ao betão. Consegue-se ver todo um planeamento a acontecer por detrás daqueles olhos focados. “Ok, portanto vou em frente, depois, passo por aquela mulher do casaco vermelho, e sigo pela direita perto do homem baixinho de óculos, há ali um buraco, ali dou uma corridinha’’. É guerra. “Excuse me, sorry, coming through.” Como se eu magicamente pudesse levitar para estas pessoas passarem. O descaramento. O hygge, o mindfulness e os primos que me perdoem, mas às vezes era só mesmo deixar sair umas palavras boas e feias.

Entretanto a Drama Bookshop fechou. Acho mal. A Meca dos atores já não existe. Onde é que suposto agora ir vaguear nas horas livres, ler peças antigas de 2$ e descobrir livros que mais nenhum sítio neste Planeta Azul tem? Parece que vou ter que me deixar estar no sofá castanho do lobby da escola, a praticar a minha transcrição fonética, a decorar monólogos e sonetos, tudo regado a um longo café americano. E olha que não é nada mau. Tirando o café, claro.

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