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Vida Extra

Bill Esper morreu. “There’s nothing to say, there’s nothing to say.”

O “Inventário de Nova Iorque”, às quintas-feiras na Vida Extra, tem uma nova entrada. Desta vez, a atriz Maria João de Almeida escreve sobre a morte de William Esper. “Este homem, endeusado por muitos, criou a escola onde tenho o privilégio de quase habitar, criou o chão que todos estes sonhadores pisam, permitiu-lhes não desistir.”

“Dear Students, we are saddened to inform you of Bill Esper’s passing on saturday evening.” Estava na fila do supermercado quando abri o e-mail e me deparei com estas palavras demasiado pesadas. Não houve aulas na segunda-feira seguinte, mas a escola esteve aberta para quem quisesse ir, de algum modo, dar uma palavra de alento aos professores e a toda a equipa maravilhosa por detrás da secretaria.

Nunca o cheguei a conhecer, mas estranhamente, um sentido de luto paira à minha volta, luto por uma ideia maior, o fim de uma lenda? Não, o fim de uma lenda não será; há tanto deixado por ele, não pode ser um fim.

Este homem, endeusado por muitos, criou a escola onde tenho o privilégio de quase habitar, criou o chão que todos estes sonhadores pisam, permitiu-lhes não desistir. Um professor chorou numa aula ao falar dele; disse que lhe permitiu que a arte lhe salvasse a vida.

Ensinou-nos o que significa ser ator. Temos, primeiro, que ser humanos. Como é que podemos querer representar as relações humanas, a vida, se não experienciamos sê-lo. Humanos, isto é.

Temos que viver, lembrarmo-nos do que é conectar com outra pessoa. A base. O simples. Despidos de telemóveis, da televisão e de toda a informação, boa ou má, que recebemos de toda a parte. Estar só com uma pessoa e permitir que a interação entre nós vá onde quiser ir.

Foi uma segunda-feira morna, a meio gás. Sem aulas, sem saber bem o que fazer com o dia agora tão desocupado, sempre com a lembrança do que tinha acontecido no pano de fundo do meu pensamento.

As pessoas no metro pareciam-me baças, havia um bocadinho menos de brilho em tudo, como se uma borracha gigante tivesse passado ao de leve por cima do que via; tudo meio esbatido. Menos cor, menos vivacidade. Como se todos soubéssemos este grande segredo terrível. O Bill morreu.

‘’You have to stop and smell the roses’’. Era algo que o Bill dizia aos alunos demasiado obcecados com a perfeição, o trabalho, a dedicação total. Não há nada de errado com todas estas coisas; claro que há muito trabalho envolvido, foco, sacrifício; mas não podemos viver numa bolha só nossa, obstinados com o resultado final de ser o ator perfeito. Temos que viver, experienciar, ser humanos, lá está. Parar e cheirar as rosas. E há tantas aqui neste pequeno cantinho que o estúdio lhe dedicou. Rosas vermelhas de paixão pela arte. So here it goes a rose for you, Bill.

Naquele dia, decidi passar na escola, sem saber bem com que finalidade, que palavras dizer, como me comportar. Viam-se da rua, por detrás da janela de vidro com o nome “William Esper Studio”, ramos de flores, pequenas cartas de mensagens de ex-alunos, colegas, velas, e um boné que costumava usar. Entrei e o forte cheiro floral que se sentia pregou-me logo ao chão. Não era um cheiro a flores alegre, era um cheiro a flores triste. Como se o nosso sentido de olfacto conseguisse fazer a distinção imediata.

Estavam lá dois alunos do segundo ano e todos os membros da secretaria, fatos negros. As Vans tinham ficado em casa naquele dia. Olho de relance lá para fora e vejo quatro pessoas numa mancha de escuro a olhar para a montra de flores - era a minha professora de Acting (mulher do Bill) e os filhos. Ela aproxima-se da montra, apoia as mãos no parapeito e baixa a cabeça lentamente. Que nem um flash, veio-me à cabeça a imagem da Marie Antoinette (Kirsten Dunst no filme de Sofia Coppola) na varanda do seu palácio, na exacta mesma posição. O arquétipo de quem tem o peso do mundo naquele momento.

Entraram todos na escola, a minha professora vê-me, vem na minha direção e abraça-me. Mais do que um abraço, deixa o peso do corpo colapsar em cima do meu com toda a força, com um choro feio de animal ferido, soluços e desespero. Eu só disse “I don’t know what to say”, ao que ela responde com a sua voz doce de sempre “there’s nothing to say, there’s nothing to say…just keep doing good work”. E eu chorei com ela, porque conseguia ver a ferida que tinha e porque a paixão pelo trabalho de uma vida, ao ponto de fazer comentários em relação ao meu desempenho naquele momento, tornou o meu coração pequenino de comoção.

Ver uma mulher destas, uma lenda, uma quase deusa, entidade superior aqui na escola e no mundo da arte a quebrar daquela forma quebrou-me também. Para quem não a conhece, é uma mulher elegantíssima - passa com o seu casaco de pêlo comprido, e uma onda de jazz e um copo de vinho vêm atrás. Mas parece que somos só todos humanos. Só. E é tanto, se o formos mesmo.

Hoje é terça-feira, a escola já voltou ao seu funcionamento normal. As flores continuam aqui, há muitos olhos líquidos e um ar meio pesado. Algo está diferente, sem dúvida. O melhor que podemos fazer para o honrar e celebrar é continuar a trabalhar com a paixão do primeiro momento em que dissemos que era isto que queríamos. E ser bons uns para os outros. É grátis. É humano.

“And if we can’t be human, how can we ever hope to be artists? (…) Live. Take in. Give back. Live some more. This is the job of the actor. I’ll see you next time.” See you next time, Bill.

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