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O negócio dos localizadores de objetos perdidos rende milhões. Milhões de ilusões?

A crónica desta semana do “Futuro Extra”, rubrica do editor de novas tecnologias da SIC, leva-nos a algo pelo qual já todos passámos: os objetos perdidos e nunca encontrados. E o que as tecnologias (não) têm feito por eles

Eles acendem e apitam, mas acabamos por desligar tudo. Quando precisamos, não estão lá

Lourenço Medeiros

Sempre me entusiasmou a ideia de encontrar facilmente as coisas perdidas. Dispenso bem os momentos de angústia em que não sei das chaves, mesmo que saiba que ainda ontem entrei em casa com elas e não podem estar muito longe. Ainda ontem me irritei uma tarde inteira à procura de um mísero cabo de áudio, que não me pertence, que parece ter-se evaporado no ar. Para este segundo nunca inventaram nada, para as chaves e outros objectos há dezenas ou centenas de produtos que nos propõem acabar com o problema - por um preço, claro. E o negócio de encontrar coisas perdidas move milhões, na maior parte dos casos, de mera ilusão no momento da compra e de promessas vãs.

Vamos por partes: há um caso em que funciona e bem e muitos de nós não usamos. A localização de telemóveis e tablets equipados com GPS e GSM, ou seja, com localização e com ligação à rede, funciona, de forma geral, muito bem e conheço dezenas de histórias de objectos recuperados assim. Quer tivessem sido perdidos, ou mesmo roubados, em muitos casos a tecnologia intrínseca à sua utilização permite frequentemente, mas não sempre, uma rápida recuperação.

Depois há as tags com tecnologia Bluetooth. Pequenos quadradinhos ou círculos que prometem que nunca mais vamos perder as chaves / carteiras / malas, o que for que habitualmente nos preocupa. Já testei uma série deles, de marcas portuguesas, estrangeiras, e um dia destes até me enviaram um carteira que já tem a tecnologia incluída. Cenário típico. Todo contente, coloco uma tag no porta chaves ou na carteira. Ligo a respectiva app no telemóvel, faço um teste, fico todo contente e esqueço. Chego à redação, vou tomar café. Apita. Desligo. Volto. Ligo. Vou à recepção. Apita. Desligo. Volto. Já não ligo.

A questão é que nos esquecemos destas coisas porque facilmente as largamos num ou noutro local distraidamente. Não são coisas que estejam connosco, fisicamente ligadas a nós o dia todo, são coisas que estão perto, mas das quais nos afastamos constantemente. Afastamos o suficiente para disparar todos os alarmes, várias vezes por dia. Gastamos o dinheiro e ao fim de dois dias estamos desiludidos com o sistema. Não devolvemos porque funciona, mas não usamos mais. É assim que se vão vendendo milhões de quadradinhos de “tags” para encontrar objectos.

A maior parte destes gadgets funciona apenas com Bluetooth, o que quer dizer que conseguem determinar se estão, ou não, num determinado raio em relação ao telemóvel com o qual estão emparelhados. Poucas dezenas de metros, no máximo, com esta tecnologia, e nem queremos que a distância seja muita. Se nos roubarem a carteira e só formos avisados quando o carteirista está a 30 metros, bem lhe podemos dizer adeus. É, aliás, o que acontece.

Alguns funcionam com redes. Ou seja, se der o seu como perdido, tem supostamente toda a comunidade de utilizadores da mesma aplicação a ajudar. Se um deles passar suficientemente perto do seu objecto perdido, pode receber um aviso. Demasiado vago, a verdade é que não há utilizadores suficientes, é uma espécie de totoloto.

Depois há aparelhos muito mais caros que deviam funcionar com GSM, com rede de telemóvel. Estes deveriam ser capazes de enviar a localização onde quer que estivessem. Esta tecnologia talvez mereça outro artigo. Só tive uma experiência e foi de tal foma nula que só não a descrevo aqui, porque acabei por não falar com o fabricante sobre o assunto.

Agora algumas empresas ameaçam fazer tags muito mais inteligentes. Pequenos aparelhos capazes de “agir” quando se afastam de nós. Por exemplo, fazer com que uma máquina fotográfica ou uma bicicleta só possa funcionar ao pé do dono. Se avançarem, estaremos a falar noutros termos, mas até agora ainda não vi nenhum produto que me convencesse que a indústria dos “tags” electrónicos para o consumidor final anda a vender uns milhões. Sim, são milhões todos os anos, em mera ilusão de segurança.

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