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Homens com roupa feminina e o fim de um tabu

Vestidos desenhados para eles, roupa de homem ajustada a mulheres e elas a desfilarem coleções masculinas. É ver para crer na moda sem género da PFW Men’s. Na crónica desta semana, a jornalista Catarina Nunes foi ver o designer Hugo Costa a mostrar em Paris que a igualdade passa pelo fim de barreiras também no vestuário

Há muito que a fronteira entre roupa feminina e masculina se esbateu. Mas o atual protagonismo dos movimentos pela igualdade e as novas gerações, mais fluidas nas definições de homem e mulher, estão a impulsionar o aumento das coleções de moda sem género. Na última edição da Paris Fashion Week dedicada aos homens, o estilista Hugo Costa mostrou que o fim da identidade de género no vestuário também se desenha em português.

Os primeiros designers de luxo a transcender esta barreira foram os históricos Rei Kawakubo, Issey Miyake e Yohji Yamamoto, há mais de 40 anos. Mas a ver pelas propostas de moda masculina para o próximo outono e inverno, apresentadas na PFW Men’s 2019/20, é cada vez mais comum ver roupa de homem com cortes femininos, mulheres que desfilam coleções masculinas e vestidos desenhados para eles. Ludovic de Saint Sernin, Mathew Williams (marca Alyx) e Thomas Browne, por exemplo, são três dos estilistas mais recentes que desafiam a conceção binária, na forma como veem os homens vestidos na próxima estação fria.

As propostas de Hugo Costa têm por base o que está padronizado como vestuário masculino, mas não são desenhadas a pensar em homens nem em mulheres

As propostas de Hugo Costa têm por base o que está padronizado como vestuário masculino, mas não são desenhadas a pensar em homens nem em mulheres

Ugo Camera

O português de São João da Madeira Hugo Costa não olha para este caminho como uma afirmação social e política nem como a apologia do fim dos géneros. É antes o reflexo da sua sensibilidade que deseja a igualdade entre pessoas, independentemente do género ou orientação sexual. Criada desde o início com propostas sem género, a marca que leva o nome do designer, porém, tem por base o que está padronizado como vestuário masculino (e por isso a apresentação na PFW Men’s), mas já se deu a conhecer em desfiles para mulheres.

Integrado no calendário oficial da Semana da Moda de Paris, Hugo Costa trouxe à capital francesa peças que desafiam homens e mulheres, associadas a uma preocupação social: as barreiras que se constroem no mundo e entre as pessoas. Em vez de um tradicional desfile, o estilista recriou numa galeria de arte, na rua Notre Dame de Nazareth, o Muro de Berlim e o seu significado. Num ambiente de instalação performativa, as paredes foram pintadas com frases inscritas no muro derrubado em 1989, num espaço onde os modelos circularam entre tijolos de cimento. Calças, camisolas, blazers e sobretudos em tecidos em fibras naturais compõem a coleção de Hugo Costa, que veio a Paris pela sexta vez com o apoio do Portugal Fashion.

As frases inscritas no Muro de Berlim revividas numa camisola da coleção outono/inverno 2019/20 de Hugo Costa

As frases inscritas no Muro de Berlim revividas numa camisola da coleção outono/inverno 2019/20 de Hugo Costa

Ugo Camera

Apesar de ter em Paris o showroom de comercialização para lojas, é na Ásia onde está a maioria dos pontos de venda, em países onde a moda sem género é mais popular, fazendo com que metade dos clientes de Hugo Costa sejam mulheres. Chegar a um maior número de consumidores é um dos aspetos que está a influenciar a expansão do negócio da moda para homens no universo feminino. É a possibilidade de aumentar as vendas junto de um grupo que consome mais moda do que os homens: as mulheres. Nesta estratégia, coleções para eles são vendidas em showrooms femininos e algumas lojas introduzem secções sem género, como o Bon Marché em Paris com o Le Vestiaire Volé aux Hommes ou o Selfridges em Londres com o Agender, por exemplo.

Integrada no calendário oficial da Semana da Moda de Paris, a apresentação de Hugo Costa trouxe à capital francesa peças que desafiam ambos os géneros

Integrada no calendário oficial da Semana da Moda de Paris, a apresentação de Hugo Costa trouxe à capital francesa peças que desafiam ambos os géneros

Ugo Camera

O crescimento e sofisticação da moda de rua e as gerações millennial e Z, que já cresceram num contexto com os géneros fluídos, ditam a explosão da adoção de códigos femininos em marcas de luxo. O que começou como irreverência nos anos 70 com a estética de David Bowie, seguido por Jean Paul Gualtier nos anos 80 e as propostas de homens com saias kilt, é no próximo inverno, e também já neste verão, a tendência. A Maison Margiela, comandada por John Galliano, quer pôr homens e mulheres a vestirem as mesmas roupas na próxima estação quente, numa coleção que intitulou ‘Co-ed’ (mista). Hedi Slimane, com a marca Celine, declarou que todo o guarda-roupa que propõe para os homens está disponível também para mulheres, com os devidos ajustes às formas femininas.

O atual contexto, em que é cada vez mais aceitável que homens se vistam com toques femininos, não traz nada de propriamente novo. É antes o resgatar daquilo que no passado já foi, ciclicamente, a referência masculina. Com homens com saias no Antigo Egito e no Império Romano, ou os samurais e os escoceses. O que significa que, ao longo da história, a saia passou de afirmação de masculinidade e poder para uma peça ultra-feminina. O fim das fronteiras foi legitimado pelo universo da moda de luxo em 2013, com a apresentação da primeira coleção unissexo na semana de alta-costura parisiense.

Rad Hourani é o responsável por este marco, afirmando a neutralidade como um traço humano e a modernidade sem limites de género, idade, religião nem condicionamentos. Não é por acaso que o estilista canadiano de origem jordana é a estrela da exposição ‘Gender Bending’, no Museu de Boston de 20 de março a 25 de agosto. A avaliar pelo perfil dos finalistas em 2018 do reputado prémio LVMH Prize para jovens estilistas, os futuros croquis de quem desenha para homens vão refletir a nova ordem. É que metade dos finalistas deste prémio tem uma abordagem assumidamente sem género. O vencedor deste galardão, Masayuki Ino, projeta com a sua marca Doublet a dissolução do olhar binário dos géneros. Sendo os consumidores quem define os códigos de moda e não o contrário, é ver para crer se os homens irão ultrapassar o último dos tabus.

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