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Expedição ao xisto

Um passeio 4x4 pela serra da Lousã, entre paisagens de montanha, aldeias que parecem presépios e gargantas profundas, testemunhas da luta milenar entre a água e a pedra.” A crónica “Viagens na nossa terra”, pelo jornalista Rui Cardoso

A Toyota Hi-Lux, nossa companheira de viagem à serra da Lousã

Ana Marques

Há um bom par de anos, no final da década de 80, quando a moda dos veículos 4x4 estava no ponto alto, um slogan ficou famoso: Lousã, capital portuguesa do todo-o-tereno. De facto, tinha tudo para o ser, pois a paisagem não podia ser mais variada, misturando as várzeas do rio Ceira e da ribeira de Alge com picos que se elevam acima dos mil metros de altitude, caso do Trevim ou de Santo António da Neve.

Durante séculos a única forma de subsistir nestas encostas serranas era rasgar terraços na rocha e usar estes anfiteatros laboriosamente construídos para fazer uma agricultura de subsistência e edificar as casas, sempre com um denominador comum, o xisto, único material de construção disponível.

Neste terceiro fim-de-semana de Janeiro voltei à Lousã para matar saudades, aproveitando a boleia de um passeio organizado pela empresa ribatejana Trilhos e Aventuras com a presença de gente amiga nestas lides do TT. Chovia como tudo, o que, se limitava o campo de visão nos pontos altos, tornava o piso mais macio e, obviamente menos poeirento.

Um passeio guiado pelo GPS entre pingos de chuva

Um passeio guiado pelo GPS entre pingos de chuva

Guadalupe Gomes

De pick-up serra acima

Como companhia, a versão comemorativa dos 50 anos da pick-up Hi Lux da Toyota, a Challenge, dotada, entre outras coisas, de um belo jogo de pneus próprios para terra, muito úteis no xisto molhado. Uma “camioneta” que, como adiante referirei, esteve verdadeiramente no ambiente para o qual foi feita, fosse a amarinhar pelos corta-fogos, fosse a desenvencilhar-se no emaranhado de estreitos caminhos florestais. Aliás, diga-se em abono da verdade que esta nova versão da “camioneta” da Toyota se revela mais confortável na terra que no asfalto, onde a taragem da suspensão traseira (pensada para o transporte de cargas) pode provocar sacudidelas desagradáveis.

Como o tom de branco de que estava pintada nos parecia algo triste resolvemos acrescentar algumas manchas pretas, de forma a que se encontrássemos vaquinhas leiteiras pelo caminho, elas não estranhassem…

O itinerário partia de Avelar, perto de Ansião, onde dormimos nuns curiosos bungalows de madeira na Quinta do Casal Ruivo que demonstraram ser à prova do frio glacial que nos rodeava. O percurso seguia mais ou menos para norte, transpondo os primeiros contrafortes da Serra da Lousã. O mesmo faz mas em sentido inverso a ribeira de Alge, afluente do Zêzere, que fomos encontrar num ponto extraordinário, as Fragas de São Simão.

Fraga de São Simão

Fraga de São Simão

Rui Pedroso

Como sucede em toda a região, sempre que os rios têm de cortar através de maciços de quartzitos escavam gargantas fundas através das quais a água jorra com fragor, até se acalmar quando o terreno se torna menos duro e as curvas do leito mais suaves. Aqui foram construídos um açude e uma praia fluvial, muito frequentados de Verão. Na aldeia vizinha, Casal de São Simão, um restaurante a considerar seriamente, seja pela ementa, seja pela vista, as Varandas do Casal.

Uma ou outra casa reconstruída em xisto à beira da estrada ia-nos preparando para o encontro, que não tardaria, com as aldeias tradicionais. Até lá chegarmos a constatação de que entre Casal de São Simão e Ferraria de São João se observa uma densidade fora do vulgar de Renaults 4 e Fords Anglia (os famosos “ora-bolas” com o vidro traseiro inclinado). À atenção dos coleccionadores…

Revolução eólica

Há 20 anos os únicos caminhos possíveis para subir a serra da Lousã eram, para além dos íngremes corta-fogos, nem sempre praticáveis, os estradões dos Serviços Florestais e estradas nacionais sempre estreitas e sinuosas. Nos últimos anos surgiu uma outra opção: as vias de acesso aos parques eólicos que num abrir e fechar de olhos nos põem nas cumeadas.

É uma revolução nos acessos a sítios recônditos, tanto para os profissionais (sapadores florestais, bombeiros, GNR, etc), como para os amantes da natureza, desloquem-se estes a pé, de bicicleta ou em veículos motorizados. Uma revolução pelo menos tão grande como a energética: durante o primeiro semestre do ano passado houve 26 dias em que toda a electricidade consumida em Portugal foi de origem renovável, designadamente eólica ou hídrica.

Chegados às primeiras zonas de bosque, mesmo envoltas em nevoeiro, o espectáculo de caminhos que parecem saídos de um conto de fadas, cheios de ramadas frondosas, fetos e musgo. E foi no meio do nevoeiro que encontrámos Gondramaz, a primeira aldeia de xisto onde parámos. Esta tem, entre muitas outras curiosidades, a presença de numerosas esculturas representando animais domésticos ou selvagens, prudentemente acorrentadas às paredes, não vá algum visitante entusiasmar-se… Cheia de casinhas de xisto com vários andares (o espaço disponível era pouco), por vezes ligadas por passadiços e arcos, fica no concelho de Miranda do Corvo.

Bichos acorrentados em Gondramaz

Bichos acorrentados em Gondramaz

Guadalupe Gomes

E lá veio o primeiro corta-fogo digno desse nome onde Hi-Lux se portou como uma cantora de ópera a quem pedissem para cantar uma canção de Jacques Brel, ou seja a 20% do seu potencial. Apesar da chuvada e das rajadas de vento o almoço fez-se (com dificuldade) no parque de merendas do Terreiro das Bruxas.

Se o leitor pensa que estávamos sozinhos, engana-se completamente: havia uma prova de BTT e aqueles heróis do pedal para ali andavam ensopados até aos ossos mas, à evidência, felizes. Espreitei para um folheto deles e fiquei cheio de vontade de os imitar, mais que não fosse pela originalidade dos nomes das pistas: DH2, Interminável, Lugar do Morto…

Uma serra encantada

Já no coração da Serra da Lousã, ficou patente que, apesar das desgraças dos últimos anos, os esforços locais de defesa da floresta contra os incêndios estivais têm sido coroados de um razoável êxito. Sucedem-se os carvalhais, os soutos e as manchas de cedros. Eucaliptos não os há, e onde os havia, na parte baixa do concelho, a caminho de Serpins, a devastação foi total como adiante se verá.

E foi pelo meio de uma mata gloriosa que entrámos no estradão (parcialmente asfaltado) que, pela mesma curva de nível, une as famosas aldeias serranas da Lousã: Casal Novo, Talasnal, Vaqueirinho, etc. É verdade que num certo sentido são aldeias artificiais por terem poucos ou nenhuns habitantes permanentes, estarem quase totalmente dependentes do turismo ou das pessoas que aqui adquiriram segunda residência. Mas representam um esforço notável de dinamização de uma zona deprimida que doutra forma estaria votada ao abandono, algo a que até o prestigiado “The New York Times” já dedicou páginas elogiosas.

Aldeia do Talsanal

Aldeia do Talsanal

Ana Marques

O Talasnal é a maior e mais visitada destas aldeias, cheia de lojas e de casinhas para alugar. Há varandas sobre a encosta convidando à contemplação ou a pôr as leituras em dia, becos e escadinhas, arcos entre casas ou janelas floridas. E uma vista sobre as vertentes verdejantes que, mesmo parcialmente encoberta pelos farrapos de nevoeiro, ninguém se cansa de admirar.

Os 150 cavalos debitados pelo infatigável motor de 2400 cm3 chegaram e sobraram para as encomendas. Mesmo algumas habilidades a subir trilhos muito escalavrados e inclinados foram feitas sem recorrer à arma secreta que esta pick-up traz de série: o bloqueio do diferencial traseiro. Esta série especial começa nos € 35 mil (cabina alongada) e vai até aos € 44 mil (cabina dupla e quatro portas).

Túnel inacabado do Ceira

Túnel inacabado do Ceira

Ana Marques

Um comboio fantasma

Descida a serra, a directriz passou a ser o vale do Ceira. E aí, apesar da visão deprimente de muitos hectares de eucaliptal incinerados, o primeiro dia do passeio terminou num local mágico, com muitos pontos de contacto com o do início: o Cabril do Ceira. Neste local, o rio escavou entre rochas verticais uma profunda e estreita garganta. Mas não foi só a água a escavar. O homem também o fez. Na margem direita ainda se pode percorrer um túnel começado a abrir em final da década de 20, quando se pensou prolongar o Ramal da Lousã de Serpins até Arganil. A ideia foi abandonada na década seguinte.

Cabril do Ceira

Cabril do Ceira

Ana Marques

O próprio Ramal da Lousã que proporcionava uma ligação cómoda e eficaz para as deslocações diárias a Coimbra viria a ser vítima dos ardis do progresso. Ignorando o velho aforismo de que o óptimo é inimigo do bom, pretendeu-se substituir o comboio pelo transporte na moda de final dos anos 90: o metro de superfície. Para tal foram arrancados os carris e suspenso o serviço na linha em 2010. Vieram a crise e a troika e, nem comboio, nem metro. Vai para nove anos que o transporte se passou a fazer de autocarro. Tão edificante e tão português…

Vacas há muitas: de peluche ou de metal…

Vacas há muitas: de peluche ou de metal…

Ana Marques

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