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Todas as notícias sobre as mortes infantis são manifestamente exageradas

Os dados são provisórios e ainda não estão totalmente validados, insiste a Direção-Geral da Saúde, mas são já várias as partes a tirar conclusões, assim sendo precipitadas, sobre o aumento da mortalidade infantil. A confirmar-se, o diagnóstico é mau, na aparência. Na essência, pode revelar um efeito secundário do progresso e da moderna forma de vida

Luma Pimentel / Unsplash

No início de cada ano, é habitual publicarem-se resultados do ano terminado e foi assim esta semana com os dados sobre a mortalidade infantil. A Direção-Geral da Saúde avançou números provisórios, ainda sem a devida validação do Instituto Nacional de Estatística, que mostram um aumento de 26% nas mortes durante o primeiro ano de vida. Os 229 óbitos em 2017 chegaram aos 289 no ano passado e isto é preocupante, pois trata-se de um dos indicadores mais expressivos sobre o desenvolvimento de um país. E pior ainda porque Portugal tinha, aparentemente até 2018, dos melhores resultados no mundo.

Soaram os alarmes. A diretora-geral da Saúde insistiu que os dados não estão tratados e que sendo “pequenos números” esta é “uma variação sem grande significado”, no entanto, reconhecendo que é preocupante e carece de análise. Ouvido isto, o PSD aproveitou para fazer oposição política e chamar Graça Freitas ao Parlamento para explicar o aumento, que a própria já disse ainda não ser possível; a Ordem dos Médicos exigiu um “apuramento rápido das causas” e o Presidente da República manifestou-se preocupado já que em causa está uma das “conquistas de abril”. Só não se ouviu alguém dizer que mais mortes no primeiro ano de vida podem também ser um sinal de progresso. Disse-o Graça Freitas ao explicar que, mesmo assim, Portugal mantém os excelentes resultados entre a maioria dos países europeus – alguns com sistemas de saúde tidos como mais eficazes do que o SNS – , mas parece que já ninguém ouviu esta parte.

A própria Ordem dos Médicos, no comunicado enviado aos jornalistas, reconhece: “Sabemos que o aumento da idade média da maternidade e o maior recurso a tratamentos de fertilidade podem ter algum impacto negativo na mortalidade infantil.” Há ainda outras variáveis como o próprio aumento da natalidade, dos partos prematuros ou dos bebés com baixo peso, leia-se menos de 2,5 quilos.

A Ordem dos Médicos afirmou também que “este aumento merece uma rápida análise por parte do Ministério da Saúde para evitar um clima de desconfiança dos utentes em relação ao sistema de saúde”, mas em ciência é preciso algum tempo para tirar conclusões. E também gera desconfiança alarmar em vez de alertar.

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