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A BMW faz carros? Não, faz obras de arte

A fase pós-petróleo dos automóveis de luxo passa pelas artes. Na crónica “Sem Preço” desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre marcas de carros que circulam no universo artístico

Diz o clichê que os ricos falam de arte e os artistas falam sobre dinheiro. Ou, melhor, falam sobre a falta de dinheiro. Não é, provavelmente, a pensar neste velho paradigma que as principais marcas de automóveis de luxo estreitam a aproximação aos artistas. Mas a verdade é que a arte integra o contexto dos clientes de luxo, onde se encontram os maiores colecionadores de arte. Ao circular neste universo, modelos de carros já por si aspiracionais ganham o estatuto de obras de arte.

O BMW 3.0 LSL foi o primeiro a ser pintado por um artista. Alexander Calder foi o autor, em 1975

O BMW 3.0 LSL foi o primeiro a ser pintado por um artista. Alexander Calder foi o autor, em 1975

A BMW foi uma das pioneiras a fazer este caminho, em 1975, sem ter logo uma intenção clara, quando teve o primeiro carro pintado por um artista. O desafio foi lançado pelo leiloeiro e piloto de carros francês Hervé Poulain, que convidou Alexander Calder a olhar para o seu BMW 3.0 LSL como uma tela. O artista norte-americano utilizou as cores fortes que caracterizam as suas esculturas móveis e o resultado foi mostrado ao mundo no mesmo ano, conduzido por Hervé de Poulain no circuito das 24 Horas de Le Mans.

Uma grelha de quadrados brancos contornados a preto foi a ideia de Frank Stella para BMW 3.0 CSL, em 1976

Uma grelha de quadrados brancos contornados a preto foi a ideia de Frank Stella para BMW 3.0 CSL, em 1976

O que começou como uma ideia pontual, como forma de destacar um automóvel numa corrida, acabou por ganhar a forma de um projeto consequente. Em 1976, Frank Stella pinta uma grelha de quadrados brancos contornados a preto sobre um BMW 3.0 CSL e, um ano depois, é a vez de Roy Lichtenstein deixar num BMW 320i a marca do seu estilo de pintura de banda desenhada. Com um ano de intervalo, em 1979, o podium das artes é ocupado por Andy Warhol com um M1, que se destacou dos antecessores por ter sido totalmente pintado pelo autor, em 28 minutos, sem maquete nem intervenção de assistentes. Factos que atribuem a este BMW M1 uma avaliação de €80 milhões como base de licitação, caso vá a leilão, hipótese que a BMW até agora pôs de parte.

O estilo banda desenhada de Roy Lichtenstein ficou marcado no BMW 320i, em 1977

O estilo banda desenhada de Roy Lichtenstein ficou marcado no BMW 320i, em 1977

Os ‘quatro grandes’ integram a coleção BMW Art Car, que totaliza 19 obras, e estão expostos até fevereiro no Museu BMW em Munique, num complexo onde se encontra também a sede da marca. O mesmo espaço acolhe ainda as duas mais recentes entradas no espólio: um BMW M6 GT3 de 2017, com uma intervenção com realidade aumentada da chinesa Cao Fei, e um BMW M6 GTLM de 2016, pintado por John Baldessari. Além dos quatro primeiros e dos dois últimos carros artísticos, o museu da marca apresenta um BMW M3 GT2 de 2010 que foi sujeito à criatividade de Jeff Koons, que se baseou em imagens de carros em andamento, velocidade e explosões.

Em 28 minutos, Andy Warhol pintou um BMW M1 de 1979, com os contornos mal definidos como se as tintas tivessem borrado com a deslocação do carro a alta velocidade

Em 28 minutos, Andy Warhol pintou um BMW M1 de 1979, com os contornos mal definidos como se as tintas tivessem borrado com a deslocação do carro a alta velocidade

Este artista norte-americano (tão ou mais conhecido pela sua obra como pelo casamento com a ex-atriz pornográfica Cicciolina) confirma o clichê do início desta crónica, falando sobre dinheiro. Foi o único artista da BMW Art Car que foi pago, com dois automóveis BMW que converteu em dinheiro para financiar a sua fundação. Talvez porque ele próprio manifestou à BMW a vontade de integrar este projeto. Não foi o único. Keith Haring e Maurizio Catellan são dois de vários artistas não-oficiais que colocaram a sua arte em carros BMW, mas cujas obras não integram a colecção BMW Art Car. O ‘Spaghetti Car’ de Catellan acabou por ser vendido a um colecionador suíço por €100 mil, durante um leilão da Fundação Leonardo DiCaprio.

Em 28 minutos, Andy Warhol pintou um BMW M1 de 1979, com os contornos mal definidos como se as tintas tivessem borrado com a deslocação do carro a alta velocidade

Em 28 minutos, Andy Warhol pintou um BMW M1 de 1979, com os contornos mal definidos como se as tintas tivessem borrado com a deslocação do carro a alta velocidade

Enes Kucevic

Thomas Girst, responsável pelo envolvimento cultural do Grupo BMW desde 2004, é o anfitrião no espaço onde a marca automóvel apresenta uma parte da coleção de carros artísticos, bem como alguns modelos históricos e protótipos. Depois de anos de estudo, ensino e trabalho na área artística e cultural veio parar ao mundo automóvel sem saber muito bem como. É que, como revela (destruindo estereótipos de género), em criança gostava mais de brincar com bonecas. Quinze anos passados ao serviço da BMW chegaram para lhe cativar o gosto pelas quatro rodas e deixar o cunho da sua visão do que pode ser uma parceria entre os automóveis e a arte.

Não criou uma coleção de arte para a BMW, como é comum no mundo corporativo, porque considera que isso seria fazer o mesmo que muitos já fazem há mais tempo. Thomas Girst prefere canalizar o orçamento para projetos que envolvam talentos emergentes, como o BMW Art Journey, que põe artistas a percorrer o mundo, ou o Garage/BMW:Art/Tech Grant,que junta em Moscovo arte e tecnologia. Os patrocínios aos museus Tate, em Londres, e às feiras de arte Frieze, também em Londres, e à Art Basel (na Suiça), bem como várias residências artísticas, são outras das atividades às quais associa a marca BMW, que incluem também a presença com stands e o transporte de convidados VIP nestes eventos.

Fora da marca BMW, mas dentro do Grupo BMW, o conta-quilómetros continua a girar no terreno das artes. Com a Rolls-Royce, num patamar acima da BMV em termos de ultra-luxo, as intervenções artísticas ainda não chegam aos automóveis. Ficam-se por projetos que envolvem o símbolo que a Rolls-Royce ostenta no capô, o ‘Spirit of Ectasy’, revelando a estatueta de uma mulher a levantar voo no interior de um ovo Fabergé contemporâneo. A ‘Phantom Gallery’ (batizada com o nome do modelo mais icónico da Rolls-Royce), a parceria com a Serpentine Gallery, em Londres, e a associação com o artista Tomás Saraceno para a criação de uma exposição imersiva no Palais de Tokyo, em Paris, são outras das parcerias.

A sedução dos clientes de automóveis de luxo é extensível a áreas vizinhas da arte e com outras marcas, como a Jaguar (arquitectura), a Porsche (moda e mobilidade inteligente), a Lexus (arte e design) e a McLaren (desenvolvimento de relógios e vestuário). Thomas Girst, responsável pelo envolvimento cultural do Grupo BMW, defende que é essencial trabalhar com arte em termos da visibilidade e reputação da marca. Parece que o futuro dos carros de luxo na era pós-petróleo não é eléctrico. É artístico.

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