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Vida Extra

“Se há uma coisa que nem eu nem Einstein percebemos é o que uma mulher vê num homem”

Há mais uma crónica de Diário de um Pai Solteiro para conhecer. Desta vez, o Pai Panda mostra como é complicado voltar ao mundo dos encontros quando a filha é o seu mundo

Wiktor Karkocha

Viver sozinho com uma Panda desde que ela tem um ano de idade deixou marcas no meu relacionamento com o sexo oposto e tornou-me algo desadaptado a contextos como dating. Percebo isso quando, por instinto, agarro o pulso de um date ao atravessar a estrada na passadeira e lhe levanto o braço a puxar, ou quando, assim que a comida vem para a mesa no restaurante, eu vou de faca e garfo e corto em bocadinhos tudo o que ela tem no prato. Uso desbloqueadores de conversa pouco adaptados a uma adulta como “qual foi o momento preferido do teu dia?”, “dormiste a sesta” ou “comeste o quê ao almoço?” Enquanto falam, posso limpar-lhes a boca com o meu próprio guardanapo e observar se comem ou se estão distraídas a falar.

Estou sempre em esforço a tentar processar uma conversa qualquer absurda que estão a desenvolver enquanto na verdade estou focado a ver se estão a comer o prato todo ou não. Para lhes dar atenção e fazê-las sentirem-se bem e valorizadas, e que aquela lenga-lenga sentimental me interessa imenso, vou dizendo “a sério? uau!”, “hmm hm”, “conta-me mais”, “isso é fantástico, parabéns”. Os diálogos tendem a não ser os mais adequados.

— Foi muito duro. Tive uma depressão. E ele nunca quis divorciar-se da mulher. Mas tenho a certeza que connosco iria resultar se ele me tivesse dado uma oportunidade. Não percebo como é que ele não viu isso. Talvez a culpa tenha sido minha. Quando ele acabou comigo fiquei em tão mau estado que fui parar ao hospital com um ataque de ansiedade… pensei que ia morrer. E ele só se preocupava em não causar um escândalo…

— A sério? Uau!

— Sim. Mesmo. É passado, não interessa. Temos de viver para o futuro. Hoje dedico-me mais a mim. Sinto-me melhor comigo mesma. E sei melhor o que não quero. No fundo é essa a diferença.

— Conta-me mais.

— Não há muito a contar, cada um seguiu o seu caminho. No outro dia vi-o na rua. Ia com os dois filhos. Ele viu-me, mas fingiu que não me tinha visto. Atrás vinha a mulher, com os sacos de compra, aquele estafermo… Ela nunca soube de nada. Tive tanta vontade de ir lá e contar tudo, sabes? Só para ver a cara dele.

— Isso é fantástico, parabéns!

Também não é raro interromper uma tirada longa com um “pára de falar um bocadinho e come!” Falam sempre muito sobre temas pessoais como estes desgostos, uma relação conflituosa com um irmão, um caso grave de assédio no trabalho, um divórcio litigioso, etc. e quando se cansam um pouco, fica aquele momento de silêncio, só entrecortado por talheres num prato e música jazz suave ou conversas nas mesas do lado.

Nesses momentos, perguntar algo como “sabes porque é que os dinossauros desapareceram todos?” nem sempre desenvolve bem uma conversa. Tentam lembrar-se e dão explicações confusas e eu corrijo. Um tema com que parecem embirrar em especial é a força da gravidade e como é que as coisas ficam em órbita de um corpo celeste. Ficam sempre emperradas com aquela comparação do íman, mas não tem absolutamente nada a ver uma força magnética com a gravidade!

Então lá vou pelo Einstein e quando dou por mim estou a desenvolver a teoria da relatividade restrita a caneta num guardanapo com esquemas do espaço tempo deformado e a dar exemplos, mas a certo altura desisto, tenho de ter calma: a capacidade de abstração a esse nível é algo que exige maturidade e é preferível voltar a falar sobre depressões e dinossauros.

No fim do jantar, se ela acende um cigarro, sou pessoa para lhe tirar o cigarro da boca, dar uma tapa na mão e dizer “NÃO! FEIA!”. E ainda vou à malinha tirar-lhe o maço e levanto-o no ar para fora do alcance: “Acabou-se! Vou guardar isto!”

O pior é quando chega à parte de eventualmente irem para minha casa ou vice-versa. Sim, porque apesar de tudo, às vezes pode dar-se o caso, não me perguntem porquê. Se há uma coisa que nem eu nem Einstein percebemos é exactamente o que uma mulher vê num homem (em qualquer homem) e o que faz pensar certas coisas de uns e outras coisas de outros e achar que somos diferentes, uns melhores e outros piores e que precisamente o que ela escolheu é melhor.

Eu assumo que deve ser pelo mesmo motivo pelo qual nós preferimos Sagres ou SuperBock. Dizia eu, o pior é quando se gera aquele momento de entrar no Uber. Assim que percebo que querem entrar no mesmo Uber que eu começo “A sério?! Logo na primeira noite!? Conheces-me de algum lado!? És muito irresponsável!”

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