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Viúva Lamego renasce dos cacos como obra de arte

O que é que Joana Astolfi faz com a Viúva Lamego? ‘Parte a loiça toda’ e posiciona os azulejos portugueses como luxo. A jornalista Catarina Nunes conta o que se passa com a marca de cerâmica que comemora 170 anos, em mais uma crónica “Sem Preço”

Carlos Valadas

Enquanto a indústria do luxo anda a dar voltas à cabeça para encontrar fórmulas que aproximem os seus produtos às técnicas artesanais e à arte, a Viúva Lamego já tem isso de forma intrínseca, com azulejos pintados à mão por artistas e escolhidos por arquitetos de renome, como Manuel Cargaleiro e Álvaro Siza Vieira.

Como se isto não bastasse, a marca criada em 1849 arranca o ano da celebração dos 170 anos com um renascer simbólico, depois do processo conturbado que culminou em 2016, nas mãos do Grupo Aleluia Cerâmicas, com dívidas de €15 milhões e o recurso ao Processo Especial de Revitalização (PER). A empresa acabou por ser comprada em março de 2017por Gonçalo Conceição, ex-fundador do Banco Primus, que assumiu a Viúva Lamego como uma marca a internacionalizar, partindo da sua essência: o trabalho artesanal e a associação a artistas.

A arquiteta e artista Joana Astolfi criou nas montras o ‘antes e depois’ da Viúva Lamego, numa celebração da reconstrução da marca adquirida por Gonçalo Conceição

A arquiteta e artista Joana Astolfi criou nas montras o ‘antes e depois’ da Viúva Lamego, numa celebração da reconstrução da marca adquirida por Gonçalo Conceição

Carlos Valadas

Depois de Joana Vasconcelos e Bela Silva, por exemplo, a Viúva Lamego decide agora ‘partir a loiça toda’, literalmente, convidando a arquiteta Joana Astolfi para conceber as montras da loja onde nasceu a primeira fábrica da marca, no Largo do Intendente, em Lisboa. As intervenções nas duas montras são o ‘antes e depois’ da Viúva Lamego. Uma delas ostenta uma instalação feita a partir de peças esquecidas no armazém, partidas em cacos por um martelo. A outra montra apresenta, numa luxuosa caixa de madeira, um martelo revestido com alguns dos cacos das peças da montra anterior, unidos com juntas douradas.

Com este projeto com a responsável pelas montras das lojas Hèrmes e das instalações dos restaurantes de José Avillez, a Viúva Lamego firma os dois pés no território do luxo e contemporaneidade que faltavam aos 170 anos de história. Nesta celebração, a marca viúva de António da Costa Lamego (assumiu a denominação Viúva Lamego depois da morte do fundador e a entrega da liderança à sua mulher) não esquece e honra as origens no largo com antiga má fama em Lisboa. Junta-se à associação cultural LARGO, com a qual partilha o quarteirão, e vai pôr artistas a criarem instalações nas estações de metro da zona. Um reforço da presença no seu habitat mais visível, tendo em conta que os seus azulejos já revestem as paredes das estações mais icónicas do Metro de Lisboa.

Um martelo revestido com cacos de peças esquecidas no armazém, unidos com juntas douradas, simboliza a nova vida da Viúva Lamego

Um martelo revestido com cacos de peças esquecidas no armazém, unidos com juntas douradas, simboliza a nova vida da Viúva Lamego

Carlos Valadas

Os projetos de arte pública, aliás, representam cerca de 85% do negócio e não se ficam por Portugal. A estação do metro de Paris Champs Élysées-Clemenceau, concebido por Manuel Cargaleiro, é o mais recente ponto no mapa internacional com azulejos Viúva Lamego. Os painéis de Hérve di Rosa no La Piscine, museu instalado numa antiga piscina pública em Roubaix (norte de França), as intervenções em fachadas de prédios nos subúrbios de Lille e um coração em cerâmica pendurado em Paris são alguns dos projetos internacionais que vêm facilmente à cabeça de Gonçalo Conceição. Suiça, Japão, Bélgica, Estados Unidos, Brasil e Islândia são outras das localizações com fachadas de edifícios e intervenções artísticas nascidas na fábrica, que desde 1991 está instalada na Abrunheira (Sintra).

É aqui que Manuel Cargaleiro e Hèrve di Rosa têm atelier há vários anos e onde, mais recentemente, a ceramista Maria Ana Vasco Costa projeta fachadas explorando o potencial dos azulejos tridimensionais. Gonçalo Conceição acredita na arquitetura ao serviço da arte, sendo esta a identidade da empresa que resgatou em 2017, o que encara mais como sendo um fiel depositário desse legado, do que proprietário. Apaixonado pela marca, não revela quanto pagou por isso, nem os números do negócio, mas garante que conseguiu duplicar a faturação, alavancada com as exportações.

Se a saúde de uma empresa se mede também pela satisfação dos funcionários, a Viúva Lamego está em superavit . O excesso não é de rendimentos em relação às despesas, mas de boa disposição entre os 52 colaboradores presentes no almoço de Natal e na inauguração das novas montras. Falam com entusiamo sobre o trabalho que deixaram parado na fábrica para se sentarem à mesa e dizem que o novo patrão lhes deu esperança e confiança. O que, no final das contas, faz a economia funcionar.

Loja Viúva Lamego

Largo do Intendente, 25, 1100-285 Lisboa

Segunda a sexta-feira 10h-13h, 14h-18h30

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