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É uma das imagens de marca do yoga, mas será que conhece o significado do mantra OM?

Cristina Diniz revela um pouco mais do mundo do yoga. Nesta semana, centra-se no mantra OM

Uma das imagens de marca do yoga é o símbolo do OM. O grafismo aparece em roupas, tapeçarias, quadros, nos automóveis, em colares com pendentes, entre outros; é entoado muitas das vezes no início ou no final das práticas de yoga. Mas será que é importante conhecer o seu significado? As pessoas sentem o quê quando o entoam? Sabem que conotação trás consigo, o que significa? Aqui fica uma explicação para quem possa ter interesse.

OM é, em traços gerais, o símbolo do hinduísmo e do Yoga, é o mais poderoso e importante dos mantras, é a representação sonora que simboliza a vibração primordial do Universo, o movimento que engendrou os primeiros ritmos no cosmo, é o som do infinito.

Na Índia, o mantra OM está em toda a parte. Hindus de todas as etnias, castas e idades conhecem perfeitamente o seu significado. Sabem que OM é a vibração primordial, o  som do qual emana o Universo, creem que é o gérmen, a raiz de todos os sons da natureza. Ele ecoa em todos os templos e comunidades ao longo do subcontinente indiano.

Mas a sua explicação vai bem mais longe.

É formado pelo ditongo das vogais “a” e “u” e a nasalização é representada pela letra “m”, daí por vezes aparecer escrito AUM. As suas 3 letras (a, u, m) correspondem aos 3 estados de consciência: vigília, sono e sonho.

A Mandukya Upanishad é a mais curta das Upanishads - as escrituras hinduístas que fundamentam o Vedanta. As Upanishads são 123 livros e não se sabe ao certo a data em que foram escritos, as estimativas vão dos séculos XVI a VII a.C. Vedanta debruça-se sobre o homem como tema de conhecimento e defende que a sua felicidade reside numa total liberdade sem limitações, obtida através da maturidade emocional e do autoconhecimento, através do questionamento e compreensão das questões. Escrita em prosa, consiste em doze parágrafos explicando a palavra sagrada AUM (OM), os três estados de consciência (vigília, sonho e o sono profundo) e o quarto estado transcendente de iluminação, denominado turiya ou caturtha, em sânscrito.

Este trecho pretende ser uma síntese o mais simples possível sobre essa descrição associada ao conceito de OM (AUM).

O tema central da Mandukya Upanishad é a tentativa de esclarecer a natureza de Atman (o Eu mais profundo) e de Brahman (a realidade absoluta), e para isso ela aborda dois tópicos: o mantra OM e os estados de consciência: (1) O estado desperto, (2) o estado de sono com sonhos, (3) o estado de sono sem sonhos ... e o quarto estado.

Brahman é a realidade absoluta, algo externo a nós, superior a tudo o que existe. Atman é a essência interna da pessoa, o Eu mais profundo, que se diferencia do corpo, das forças vitais, dos órgãos de ação e dos sentidos, da mente, de tudo o que se vivencia e daquilo que nos lembramos, algo permanente, inalterável.

Um dos mais profundos ensinamentos das Upanishads é que o Atman é Brahman, ou seja, que cada um de nós é, essencialmente, a realidade absoluta – e que isso pode ser vivenciado.

Então é explicado que são quatro as condições de Atman; três que se assemelham e uma quarta que se diferencia, e este quarto aspeto é considerado como superior aos outros três.

Os três primeiros estados são:

1. O estado de desperto. Neste estado a pessoa está voltada para o exterior, capta o mundo externo comum a todos os homens.

2. O estado de sonho. A pessoa está voltada para o interior, voltada para dentro, não está em contato com os objetos materiais, mas sim com os subtis.

3. O estado de sono profundo. Estado de dormir, onde não se deseja nada nem se vê nenhum sonho. É sono sem sonhos. É um estado vazio, de inconsciência e está acompanhado pela experiência da beatitude (Ananda). Consiste em felicidade profunda.
O conceito de Ananda é fundamental nas Upanishads, sendo um dos atributos de Brahman. Ananda é uma felicidade plena, na qual não existe mais desejo porque se atingiu um estado de completa realização, no qual nada mais falta.

4. O quarto estado mental é diferente dos três anteriores: não é nem estado desperto, nem o de sonho, nem o de sono sem sonhos. Aqui é possível ter uma experiência direta do Atman, do Eu mais profundo, que é idêntico a Brahman.

O quarto estado de consciência não está associado a nenhuma das partes da sílaba OM, e sim ao OM como um todo.

O estado desperto e o de sonhos são semelhantes: em ambos ocorrem sensações e ações. No estado desperto as pessoas interagem com o mundo externo. No sonho estão a interagir com o seu mundo interno individual, subjetivo; parece tão real como o estado de vigília, mas durante o sonho as pessoas não estão cientes de que estão a sonhar.

Nos estados usuais de consciência a mente está repleta de conteúdos provenientes das sensações, das lembranças, dos pensamentos, que produzem desejos, temores, sofrimentos e prazeres.

De acordo com o pensamento das Upanishads, o Eu (Atman) é algo independente desses conteúdos mentais, é a testemunha, a consciência, o observador que está ciente desses processos. Mesmo quando esses processos cessam, permanece uma consciência pura, que pode estar ciente de si própria, sem que isso envolva um processo de pensamento.

Este Eu mais interno é o próprio Brahman, o Absoluto, que pode ser caracterizado como realidade-consciência-beatitude (sat-cit-ananda). A palavra Ananda, normalmente traduzida como beatitude, representa um estado de realização perfeita, uma felicidade completa, na qual nada falta.

Há uma cessação de toda a dualidade, por isso é impossível tanto ter sensações como até mesmo ter pensamentos.

Para a maioria de nós, no período do sono profundo sem sonhos não existe consciência de nada e parece apenas um intervalo de tempo totalmente vazio, após o qual acordamos felizes e a dizer que não tivemos consciência de nada. Porém, um aspeto essencial da análise dos estados de consciência das Upanishads é a possibilidade de estar consciente durante o estado de sono sem sonhos.

Existem técnicas de Yoga que permitem atravessar as mudanças de estado sem quebra de consciência, é o que torna possível ao praticante ter vivência a respeito do estado de sono sem sonhos, que não é uma mera ausência de consciência, ou vazio e sim uma vivência extremamente elevada de Brahman-Atman, embora passageira. As vivências que podem ser obtidas nesse estado de sono profundo consciente são um tipo de samadhi (iluminação).

No quarto estado o yogi consegue continuar a perceber o seu Eu, enquanto mantém uma consciência da sua verdadeira natureza, a sua atenção fixa-se na beatitude. E como atrás referido, este estado está associado ao OM como um todo.

Feita a explicação, resta desejar que tenha sido percetível e traga uma nova ou renovada consciência ao entoarmos o mantra OM, denominado de aksara – imutável, por ser eterno, imperecível, inalterável, representando assim a realidade que está além dos fenómenos mutáveis, que é Brahman.

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