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Os Sopranos — Vintage TV

“Os Sopranos estrearam há 20 anos. Nós podemos estar mais velhos, mas a esta série de televisão só se tornou melhor com o tempo.” Em “Séries com História”, Pedro Boucherie Mendes escreve sobre este pedaço de Vintage TV

No 10 de janeiro de 1999, há vinte anos menos dois dias, a televisão, o cinema e o espectador viveram um acontecimento que os mudaria para sempre. A estreia de Os Sopranos – e naturalmente os 85 episódios seguintes em seis tempora­­das (até 10 de junho de 2007) - foram a materialização de algo que já se antevia como possível e provável noutras produções, mas que só em definitivo seria conseguido agora: a televisão podia ser tão boa como o melhor cinema. Só faltou a série ter estreado em cima de uma azinheira para a apoteose ser maior.

Exibida em Portugal na RTP e em canais de Cabo, falando por mim e por muita gente, Os Sopranos é sem qualquer dúvida uma das melhores produções de sempre ficção ­­da televisão e uma das melhores obras de cultura popular dos últimos, largos, anos e incluam o que quiserem, de discos de Miles Davis a filmes de Scorsese ou romances de David Lodge. Pensada, escrita e dirigida por um homem que ainda hoje detesta televisão, foi um rasgo e radicalmente inovadora em alguns aspetos, conta com atores magníficos, é filmada com uma mestria e uma sensibilidade ímpares, possuiu uma direção de fotografia superior e faz um uso narrativo da música, da luz e da sombra que nos deixa as costas feitas num oito, tamanhas são as vénias a fazer. Não há nenhum exagero nesta frase, nunca a televisão parecera igualzinha ao cinema. É olhar para o que eram as séries pré-Sopranos para se compreender o seu alcance que ainda ressoa. Todas as produções com um mínimo interesse produzidas a seguir a Os Sopranos (The Wire, Mad Men, Breaking Bad, The Leftovers, Boardwalk Empire, Deadwood, Game Of Thrones, The Americans, Westworld, etc) beneficiaram da proeza única e revolucionária de ter conseguido ultrapassar a onda que se julgava intransponível, que impedia que a “qualidade” fosse o eixo dominante na narrativa em televisão ou até uma palavra que se pudesse proferir. Pois bem, se é, e milhões acreditam nisso todos os dias, deve-se a este paradigma que se concretizou em Os Sopranos.

Um mafioso no divã

No princípio, um patrão do crime organizado de New Jersey vai ao psiquiatra. É um tipo gordo, desconfortável, com nome italiano. Da consulta em diante, conhecemos um homem de família, a sua família (mulher, filha e filho), o tio, a mãe, os seus associados, algumas das suas práticas e negociatas e a sua psiquiatra. Tony Soprano (o desconhecido James Gandolfini) pode ser gordo, mas não é desinteressante como homem, é carismático e afirmativo, inesperadamente ágil, mas anda com ar aborrecido e perdido, incapaz de digerir sonhos que não compreende, irritadiço, violento, infantil, caprichoso como todos os tiranos. O seu problema? Ataques de pânico. O motivo? Provavelmente a relação com a mãe.

Não era provável que Os Sopranos viessem a fazer história. Afinal de contas, a máfia não seria um tema muito original, tinha muitos lugares comuns por metro quadrado e como bater filmes superiores sobre o tema – Godfather, Godfellas, Once Upon a Time In America ou até Casino? Conceber qualquer coisa mais divertida, com piadas sobre almôndegas e afins, também já fora feito.

Os Sopranos começou por ser a ideia de David Chase para um filme. Chase era um argumentista de televisão que detestava o meio, não era muito feliz a escrever cliffhangers para intervalos e ainda menos apreciava certos dogmas, como ter um personagem central gostável, que tornavam a ficção televisiva um modo menor de contar histórias com imagens. A exemplo de centenas de outros homens e mulheres em Los Angeles, o que Chase queria fazer na vida era cinema, porque nos filmes a liberdade para contar histórias é maior, mais ampla a latitude e a espessura dos personagens e mais autoral a marca.

Da cabeça de Chase para as reuniões com os estúdios, Os Sopranos tornou-se num projeto para a Fox, mas acabou não haver acordo. Por estes tempos a HBO, um canal de Cabo por assinatura, estreia Oz e a chamada comunidade artística, sempre com as gavetas cheias de projetos não concretizáveis na monótona e conservadora Hollywood, toma nota. De reunião em reunião, o projeto aterra na HBO que o recebe, acolhe e promete pagar a concretização. Era o que Chase queria, dinheiro para fazer o episódio piloto de Os Sopranos. Com sorte (para ele) a série não iria avante e poderia tentar angariar o resto do dinheiro e fazer um filme de duas horas. Mas Chase teve azar e Os Sopranos receberam luz verde para avançar, mesmo se em plena pré-produção se conhecessem notícias que Robert de Niro e Billy Crystal teriam um filme em que um mafioso consulta um psiquiatra. Como Os Sopranos estreou primeiro, a coincidência não a afetou.

Para a HBO pouco importava se Os Sopranos seriam um êxito e essa indiferença foi preciosa porque Chase se recusava a estabelecer pontes e fazer concessões. Uma das óbvias passava por envolver fisicamente Tony Soprano com a sua psiquiatra, numa inevitabilidade narrativa de que até um aluno de primeiro ano poderia suspeitar. A Fox já perguntara pelo romance, e na HBO o tema voltou, mas Chase disse que não, nunca se haveriam de envolver (e nunca se envolveram). No canal encolheram os ombros, a HBO havia estreado Oz (julho 1997) e Sex And The City (junho 1998), estava a construir um portefólio e uma maneira de encarar a ficção televisiva como um repositório de qualidade que haveria de perdurar além da espuma das audiências do dia seguinte. Tinham paciência para a criatividade e para a teimosia de David Chase. E cá estamos nós, vinte anos depois, ainda a babar elogios, recomendações e encómios a Os Sopranos, e com mais séries de qualidade do que aquelas que conseguiremos ver.

Os códigos morais

Uma das desvantagens de se estar a começar esta era da grande televisão passava pela impossibilidade concreta de atrair atores conhecidos para os papéis. Para quem queria ser respeitado como ator, a televisão era de evitar a todo o custo. Só que este contexto seria uma enorme vantagem, porque permitiu que os argumentistas – e Chase em particular - não se auto censurassem, atemorizados que a grande estrela A ou a grande estrela B se recusassem a esta ou aquela cena, receando repercussões de carreira. Com um enorme leque de extraordinários atores secundários (alguns de cinema), Os Sopranos beneficiaram desta circunstância de poder ter semidesconhecidos nos papéis principais.

E eis que a revelação sobre o que eram afinal Os Sopranos surge ao quinto episódio. Tony Soprano, pai preocupado e carinhoso, mafioso com problemas de ansiedade, com má relação com a mãe e com o tio, embarca com a sua filha Meadow numa viagem de carro. Vão visitar universidades e dormitórios, porque é tempo de Meadow crescer e ir para a estudar longe de casa. Os espectadores assistem a tudo, ao ritmo de filme, os planos, a maneira nada televisiva como os atores conduzem a ação, que se hoje nos parece algo trivial, há vinte anos era único. Os dois param para meter gasolina e por mero acaso Tony repara num mafioso arrependido, um bufo desaparecido há muito ao abrigo do programa de proteção de testemunhas. Naquele ambiente doce e pacato de pai e filha, e enquanto a excitada Meadow procura a melhor escola, Tony persegue e mata o bufo, restabelecendo a ordem no mundo mafioso. Esta violência inesperada e sem gatilho, assente num incompreensível e mortal código mafioso e num contexto de passeio familiar, definiria o mote da televisão que ainda vivemos. A violência irracional em A Guerra dos Tronos é devedora deste quinto episódio de Os Sopranos, uma série que a pouco e pouco se ia transformando num autêntico e inesperado êxito de audiências - e fonte de novos subscritores e receitas para a HBO. Às tantas, sendo uma produção de Cabo, competia de igual para igual com oferta de “network” (canais generalistas), conseguindo ser nomeada e vencer os principais prémios da indústria ao longo de todas as seis temporadas. No seu auge, e lembrando que o canal era fechado, chegou aos dez milhões de espectadores que adoravam Os Sopranos e aquela saga.

Inesperadamente, eis uma série que misturava o primitivo e o visceral com aquilo as emoções e aquilo que na vida que nos interpela e faz pensar. De um lado, Os Sopranos era uma série de porrada, violência, de mafiosos a fazerem coisas de mafiosos, com assassínios brutais, strippers, traições e demais traços da vida do crime tal como a imaginamos, o que agradava de sobremaneira ao público masculino, até porque era decorado com alguns momentos e personagens divertidos e larger-than-life. Do outro, era uma pequena (e por vezes maior) odisseia pessoal de um homem consigo mesmo, a sua família, aqueles que lhe eram próximos e a sua dinâmica na terapia, a tensão emocional com a sua terapeuta, a sua relação dúplice com a mulher, as suas amantes, as negociatas, a sua afirmação como capo. O que fascinava o público feminino.

Muitas destas reflexões e conclusões chegaram anos depois, porque a crítica, a exegese e a hermenêutica própria da arte e do cinema costumavam parar à porta da televisão e faziam meia volta. As primeiras impressões a ecoar sobre Os Sopranos eram sobretudo acerca do palavreado demasiado colorido, os estereótipos italo-americanos ou a péssima imagem que davam de New Jersey e menos sobre o facto de haver pontas soltas nas histórias ou até finais não satisfatórios e nada habituais na convenção televisiva. A dada altura, para dar um exemplo, a psiquiatra de Tony é violada e, ao contrário do que poderíamos supor e até desejar, o culpado não é devidamente morto por Tony, com todos os requintes que mereceria (saciando o nosso desejo de vingança).

Com um conjunto de atores extraordinários no elenco (com o meu destaque para a gigante Edie Falco a fazer de mulher de Tony), em Os Sopranos, quase toda aquela gente fica razoavelmente na mesma, nenhum se aproveita, nenhum nos apresenta esperança num mundo melhor, nenhum se dá ao trabalho de fazer escolhas difíceis nas suas vidas, talvez com exceção da psiquiatra. Moral? Esperança? O melhor é mudar de canal.

Ao longo das temporadas - onde o entretenimento é sempre garantido - vamos percebendo que os personagens não têm propriamente grandes transformações ou grandes ideias daquilo que querem da vida ou para o seu futuro. Como muitos de nós ou das pessoas que conhecemos. Só que ao contrário da vida, que pode demorar a passar, normalmente nas séries de televisão longas os argumentistas casam os personagens, estabilizam-nos, encontram-lhes caras metade, novas carreiras, mudam-nos, forçam-nos a confrontarem-se com as suas escolhas (enquanto salvam o mundo, perseguem os maus, etc), dando-lhes uma espécie de recompensa no final da sua viagem. Em Os Sopranos há pouco ou nada disso. O núcleo central mantém-se casado, os miúdos vão crescendo, há mafiosos que vão morrendo, outros que vão aparecendo, mas a série caminha inexoravelmente para um final não conclusivo, que se revelaria polémico, na altura o mais polémico da história da televisão.

O melhor fica para o fim

Os Sopranos tiveram o seu último episódio emitido a 10 de Junho de 2007 e quem teve a fortuna de a acompanhar, lembrar-se-á que o final de “Made In America” foi no mínimo ambíguo. Tony, a mulher e dois filhos, estão num pequeno restaurante convencional, aprestam-se para jantar e o episódio termina. Só isto, sem tirar nem pôr.

Pela nossa conta, e passado o refluxo de ter vivido aquele final na altura, podemos imaginar que ou bem que vão comer qualquer coisa e a sua vida segue ou bem que entrará alguém que matará Tony e talvez os outros, porque é sempre esse o risco quando se faz carreira no crime organizado. Não sabemos, nunca saberemos. Na transmissão do episódio em direto, nesse 10 de junho, o ecrã fica negro durante vários segundos, suficientes para muita gente ter pensado que houve avaria e desatar a telefonar para a HBO, mas depois ouvimos os Journey a cantar “Don’t Stop Believing” e aceitamos que acabou mesmo. No plano original, David Chase nem sequer queria os créditos e até hoje nunca explicou, defendeu ou justificou o final. Milhões de pessoas ficaram furiosas, ofendidas até, porque se sentiram gozadas na adesão e fidelidade à narrativa. Nas semanas seguintes não se falava de outra coisa e a raiva dos espectadores e dos fãs era imensa, “por terem sido enganados”.

Quanto mais tempo passa, mais aquele final de uma obra que mudou por completo a história, a forma e o negócio da (ficção em) televisão, me parece o melhor de sempre. Para se perceber, só posso aconselhar a série (em DVD, porque está indisponível em Portugal), mas aquele final é o que mais sentido faz na vida de Tony e Carmela, as duas grandes âncoras de Os Sopranos. Não saberemos nunca que diabo foi aquilo, nem há risco de a história continuar porque James Gandolfini infelizmente já morreu, mas a verdade é que também eles – mesmo sendo ficcionais – têm o direito à sua privacidade, intimidade e à sua neurose. Aliás, será rigoroso afirmar que Os Sopranos acaba à facada, abruptamente, num limbo, sem closure? Talvez não. Como diz a música dos Journey, convém não parar de acreditar e hold on to the feelin'

P.S.: O criador da série, David Chase, que realizou apenas o primeiro e o último episódio, ainda não voltou a trabalhar em televisão desde o final de Os Sopranos.