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O amor que vai de Viseu a Nova Iorque tem paragem em Lisboa

O “Inventário de Nova Iorque” leva-nos esta quinta-feira, excecionalmente, a novas geografias. A atriz Maria João de Almeida fala-nos de amor, de um inverno quase tropical e dos capítulos da vida. Não necessariamente por esta ordem

Lisboa

Maria João Almeida

Neste comboio onde estou agora, com cortinas verde terrível-psicadélico, encontrei uma perfeita analogia (ou ela encontrou-me a mim): ele segue a alta velocidade e vai parando nas várias estações que temos à disposição, tal como a nossa existência vive rápido, por entre as escolhas que fazemos, para onde queremos ir e quem queremos ser. Tenho pensado um bom bocado neste conceito da vida enquanto um conjunto de capítulos diversos - “não sinto que tenha vivido apenas uma vida”. Existe o capítulo em que vivi em Viseu, aquele em que vivi em Lisboa, e agora o capítulo em que vivo em Nova Iorque. E têm todos o seu lugar especial no meu livro, que se folheia tão rápido.

Ainda há uns dias na noite da Festa de Natal da escola, nevava do outro lado do vidro com as letras douradas “William Esper Studio”, e eu era parte do shot de um filme (na minha cabeça que desenha de mais), para poucos dias depois ter que desligar o meu automático “excuse me”, quando estou a tentar passar entre as pessoas na rua, e voltar a ligar o “desculpe”. Passear pela cidade onde nasci é como visitar uma vida passada escrita em páginas atrás, é como se eu andasse a saltar de página em página de um livro que eventualmente serei eu. E as histórias descritas nessas folhas parecem todas tão longe agora.

É estranho. Há sem dúvida um decréscimo no ritmo, quase como se estivéssemos em águas paradas. Não consigo deixar de sentir que devia estar a fazer mil coisas, a ser super produtiva e eficaz. Como assim não há nada a ser feito? O tempo é matéria mais pesada e densa aqui, parece-me, e o silêncio é demasiado alto para o meu ouvido desabituado. Os meus amigos dizem que está um frio inaceitável, tão queridos que eles são. Já eu, sinto pela primeira vez quase um clima tropical neste inverno de Viseu. Acrescento ainda que as ruas não cheiram a kebabs com xixi e queijo suíço forte fora do prazo, e bebi quantos cafés pude, sem ter que verter lágrimas de culpa por auto-desfalque financeiro na minha carteira. Maravilha. Estranhamente, creio eu, sinto falta das grandes luzes constantes dos outdoors, dos néons e dos pontinhos de luz infinitos que ganham vida nos vários prédios quando o dia chega ao fim. Em Nova Iorque há sempre luz. Aqui sinto tudo mais escuro, o que é um contra-senso, visto que Portugal, Lisboa mais especificamente, e acredito que até Viseu, têm muito mais luz solar do que a grande cidade do Uncle Sam. Das terras por último mencionadas trouxe bolachas e chocolates de sabores estapafúrdios como “bolo de aniversário”. A sério, qual é o sabor de um bolo de aniversário? Na minha ignorância, eu pensei haver infinitos sabores de bolo de aniversário. Afinal não. Há um único, e eu não sei qual é. Nem concebo a minha vida daqui em diante sem concluir esta busca pela verdade.

Viseu

Viseu

Maria João Almeida

Fiz também Gløgg para a minha família no Natal, e pondo de lado a modéstia, acho que a minha dinamarquesa ia ficar muito orgulhosa desta sua pupila. Sim, eu venho dos Estados Unidos e não faço um Eggnog ou um Long Island Iced Tea , mas uma bebida dinamarquesa. Sou a favor da diversidade.

Depois vem Lisboa. No caminho até lá passam-me imagens de vários lugares especiais para mim, assim em fast-motion. Só o pensamento de caminhar pelas ruas desta cidade me aquece por dentro, tipo sensação de bolo caseiro acabado de fazer. Não sei se isto faz sentido para alguém que não esteja dentro da minha cabeça, mas temo não conseguir explicar melhor. Fui jantar uma vez a casa de uma amiga em Campolide e, enquanto andava à procura de estacionamento com outro amigo, só pensava “fantástico, nunca antes estive tão feliz por andar de carro em Campolide”. Comemos piadinas a acompanhar um filme da Netflix sobre o destino e sinais, que nos dizia a nós espectadores, que tudo o que acontece faz parte de uma qualquer cadeia maior que está em ação, tudo tem uma razão e vai eventualmente culminar no grande resultado final. Neste caso, o resultado sendo o rapaz ficar com a rapariga certa, e não a amiga dela por quem ele achava que estava apaixonado, apenas porque não prestou atenção aos sinais. Homens, o que fazer.

Elétrico em Lisboa

Elétrico em Lisboa

Maria João de Almeida

Também já não sabia o que era subir e descer estas colinas. Ou qualquer colina, na realidade. Nova Iorque é direito direitinho. Já esta nossa capital é senhora de dar trabalho a quem a quer ver. Acho bem. Há um cheiro no ar que me faz tão feliz. Tranquilamente feliz. O meu coração tem casa em Lisboa, sem dúvida. Adoro esta cidade. Os meus sonhos vivem em Nova Iorque; o meu coração, o meu espírito, o que lhe quiserem chamar, o que em mim há que não seja corpóreo, pertence aqui, a estas pedras, a esta História. Estas ruas, os restaurantes, os bares escondidos, o encanto do meu velho amigo Cais do Sodré, a paragem onde apanhei tantas vezes o 727 para ir ensaiar, o meu antigo quarto agora tão branco, tão vazio, tão despido de tanta vida que ali se passou. Aqui tens Lisboa, a minha declaração de amor. Foi quase uma década a acordar contigo, deixas marca, claro. Sento-me à beira-rio na Ribeira das Naus ou no Cais das Colunas e é para mim pura paz. Como se o rio ganhasse corpo, mãos e me fizesse festas no cabelo. Recarrega-me, sossega-me, ocasionalmente angustia-me. Tudo ao mesmo tempo. Ao fundo ouve-se um homem a tocar guitarra, e eu tento absorver o sol que posso, entre os confettis e ticas de cigarro com batom da noite anterior que alguém deixou nas ruas. Incontáveis desejos pedidos aqui certamente, dispersos entre cervejas viradas e garrafas partidas. E o som das gaivotas. Perfeição. Vejo amor em todo o lado. Casais, pais e crianças.

Espaço noturno no Cais do Sodré, Lisboa

Espaço noturno no Cais do Sodré, Lisboa

Maria João de Almeida

Na noite de passagem de ano vi um casal dos seus 70 anos à beira-rio, enamorado como há anos atrás, decerto. O senhor puxava carinhosamente a senhora para si pela gola do casaco dela, num gesto meio desajeitado, dado pela idade talvez, e dava-lhe um beijo pequenino, simples e terno. Foi delicioso. Um de trezentos e sessenta e cinco, pareces-me bem. Na madrugada do primeiro dia deste ano via vídeos dos meus colegas internacionais em Nova Iorque a festejar e quis estar lá; como se, inconscientemente, tivesse medo de perder qualquer coisa, qualquer momento desta experiência incrível que estou a viver. É estranho. Não quero perder um segundo. Posso dizer que encontrei o meu clã, a minha tribo; que me alimenta a vontade, o sonho, o querer. Tenho fome de me sentir rodeada de um grupo de pessoas que vêem o mundo mais parecido com o mundo que eu vejo. É adubo para o pensamento. Mas adubo não cria nada sem sementes, e aí tenho muita gratidão aos que me rodeiam, ainda que agora não fisicamente, no pequeno país do outro lado das águas. Sei onde estão as minhas raízes. De outra maneira não poderia crescer sem quebrar. Sinto às vezes, estupidamente, que deixei algo precioso que ficou imaculado debaixo de uma cúpula, como se em stand-by. Quando cá chego percebo, obviamente, que os dias continuam a passar. E as pessoas casam-se, ficam grávidas, compram casa. Fiquei a saber, por exemplo, que mais um amigo se vai casar; o meu primeiro amor, na realidade. Mas nada temam, não vou invadir a igreja dramaticamente, com o rímel esborratado do choro desgostoso, numa tentativa de impedir a união. Foi o meu primeiro amor na pré-primária. A vida continua, lá está.

Rio Tejo, Lisboa

Rio Tejo, Lisboa

Maria João de Almeida

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