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O brioche de Maria Antonieta, os ‘coletes amarelos’ em Paris e a fragilidade das marcas de luxo

Os prejuízos das marcas de luxo com os tumultos em Paris são o tema da coluna “Sem Preço” desta semana. Todos os sábados, crónicas assinadas pela jornalista Catarina Nunes

Desde a época da monarquia que as elites francesas são conhecidas pela falta de empatia com a miséria do povo. Ficou para a história a frase atribuída à rainha Maria Antonieta que, num período de fome e falta de pão em França, sugeriu que o povo comesse brioche, a versão sofisticada com manteiga e ovos, que chegava aos palácios em abundância. Este episódio não teve mais ecos além de expor a alienação da realeza e suscitar debates sobre a autoria da frase, que o escritor Jean-Jacques Rousseau escreveu na sua autobiografia como tendo saído da boca de uma ‘grande princesa’, sem referir o seu nome.

Polémicas aristocráticas à parte, e viajando do século XVIII para o XXI, a elite francesa vê agora abalados os seus símbolos de estilo de vida. As recentes manifestações dos ‘coletes amarelos’ começaram como protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis e não tinham como objetivo inicial atacar as marcas de luxo. Mas foi precisamente isso que aconteceu, no que pode ser visto quase como uma justiça popular póstuma ao episódio do brioche. É que durante os tumultos em Paris, várias lojas de luxo foram destruídas e pilhadas. Uma catástrofe para o comércio e para a economia, já veio dizer o ministro francês da Economia e Finanças, Bruno Le Maire.

Charles Platiau / Reuters

A razão não é para menos. A Federation du Commerce et de La Distribuiton, onde estão representados os principais retalhistas franceses e algumas marcas de luxo, já fez contas à vida e estima que com os tumultos, que começaram há mais de um mês, o sector teve prejuízos de mil milhões de euros. Os vídeos partilhados nas redes sociais provam que as imagens dizem mais do que as palavras de um ministro: grupos de ‘coletes amarelos’ a partirem montras, entrando de seguida nas lojas e roubando tudo o que estava ao alcance. Não há registos que houvesse brioches entre o espólio, mas antes os ícones contemporâneos das desigualdades sociais.

As manifestações têm como alvo os fins-de semana e, às sextas-feiras, tornou-se comum ver montras e portas de lojas a serem barricadas com madeiras, preparando o encerramento. As Galerias Lafayette, Printemps e Citadium foram das primeiras a tomar esta medida, mas um pouco por todas as artérias com marcas de luxo, como os Campos Elísios, a avenida Montaigne e a rua de Saint Honoré, a prática também é seguida. Gucci, Balenciaga, Lanvin, Longchamp e Chanel são algumas das que declararam publicamente a opção pelo encerramento em dias de manifestações, por segurança dos funcionários.

A decisão não é tomada de ânimo leve, tendo em conta que o negócio na época natalícia representa o dobro do habitual. Mas se fecharem não vendem e se abrirem são roubadas. Num mês de tumultos em Paris calcula-se uma quebra de 35% nas vendas, em relação ao mesmo período no ano passado. As principais empresas de pesquisa de mercado, como o banco Sociéte Générale, estão em polvorosa e prevêem um abrandamento no mercado de luxo em França devido ao prejuízo com os ‘coletes amarelos’. Os grandes grupos de luxo como Louis Vuitton e Kering mantêm o silêncio em relação às perdas, deixando esse balanço para as próximas semanas. A Dior é das poucas a avançar números: só no sábado de 24 de novembro, a loja dos Campos Elísios teve um roubo de 1 milhão de euros em artigos.

Gonzalo Fuentes

Não só as lojas são pilhadas ou estão fechadas, como nas ruas de Paris esta não é a melhor época para exibir sinais exteriores de riqueza e de poder de compra. Por arrasto, o turismo cede ao medo que a cidade entre numa crise semelhante à que sucedeu aos ataques terroristas, em 2015. Os hotéis registam quebras de 25% nas reservas para o Natal e o fim do ano, enquanto os restaurantes estão a vender entre 20% e 50% menos. O que começou por ser uma manifestação contra o aumento do preço dos combustíveis acabou por se transformar num grito coletivo contra tudo, atingindo o centro do símbolo máximo das desigualdades sociais e as maiores exportações francesas: as marcas e o turismo de luxo.

A reação de pânico das marcas de luxo em relação aos prejuízos nas lojas físicas significa também que o crescimento acelerado das vendas online não é a base do negócio. Têm um crescimento anual de 22% em relação em 2017 e uma quota de mercado que ainda não chega aos 50%, segundo dados da empresa de pesquisa Bain&Company, mas o negócio das marcas de luxo vive ainda da experiência da ida às lojas, em particular em Paris na altura do Natal, com as montras transformadas em obras de arte que funcionam como uma afirmação de opulência e chamariz de coletes de peles ou de caxemira.

À hora de fecho desta crónica ainda não era conhecido o desfecho das paralisações marcadas para ontem, sexta-feira, pelos ‘coletes amarelos’ portugueses, que se previam ser pouco expressivas. Mas o que se passa em França prova que acabou o tempo de, quando falta dinheiro para pagar a subida do custo de vida, mandar a população ir comer brioche. Ou isso pode ser seguido à letra, com os meios disponíveis, e num instante desestabilizar o topo intocável da pirâmide.

Benoit Tessier / Reuters

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