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Ritz, Dolce & Gabbana e a China loucamente rica

Em “Sem Preço”, com novas entradas todos os sábados, a jornalista Catarina Nunes escreve esta semana sobre os chineses e as marcas de luxo (a propósito da visita do presidente da China)

Lisboa teve esta semana uma aproximação às extravagâncias chinesas. Já tínhamos ouvido falar nos vistos gold a dominar o país, mas a visita a Lisboa do presidente da República Popular da China, Xi Jinping, tornou clara a forma como os chineses marcam a sua presença. Com o hotel Ritz fechado dois dias por €2 milhões, as ruas das redondezas cortadas, limusines blindadas trazidas da China e outras tantas maneiras de mostrar que manda quem tem mais dinheiro.

Pode-se questionar a origem do dinheiro do Estado chinês, o regime repressivo, os ‘campos de reeducação’, os casos de corrupção ao mais alto nível e as práticas empresariais. Nesta matéria, houve mais um escândalo, a 1 de dezembro, com a detenção no Canadá da herdeira da Huawei, por alegado envolvimento na exportação para o Irão de tecnologia norte-americana. O tipo de ocorrências que envolve a visita de Xi Jinping não costuma dar direito a encher tribunais, mas são uma pequena amostra do poder chinês, em particular fora da China.

O filme ‘Crazy Rich Asians’, que tem por base o livro com o mesmo nome, já tinha revelado o estilo de vida contemporâneo dos chineses bilionários que vivem em Singapura, o estado mais rico da Ásia em ativos financeiros per capita. A trama gira em torno da clássica história de amor entre um jovem chinês rico que esconde a sua fortuna à apaixonada de origens humildes. O ‘Crazy Rich Asians’ é aqui chamado porque numa cena inicial do filme (um flashback aos anos 80), o protagonista vê um empregado de um hotel em Londres a recusar a entrada da sua mãe, que, não conformada com a situação, telefona ao marido que nesse instante compra o dito hotel.

Em Lisboa, a realidade inverte a ficção do filme, com o soberano chinês a ditar à partida as regras no Ritz, talvez porque, desde os anos 80 até à atualidade, os papéis de poder entre o ocidente e o oriente foram invertidos. A China prepara-se para ultrapassar os Estados Unidos como maior economia mundial e multiplica o número de bilionários. As empresas europeias que detêm marcas de luxo (incluindo hotéis, como o filme retrata) são adquiridas por companhias com origem na China. Os turistas chineses desbravam as capitais da moda, em busca de produtos que conferem estatuto e que chegam à China a preços exorbitantes, devido às taxas de importação.

Nós por cá, mais habituados a vê-los atrás de balcões de lojas com produtos de baixa qualidade ‘made in China’, não lhes demos importância e começámos por estranhar as excursões de chineses na avenida da Liberdade. Nada que chame a atenção dos parisienses que há décadas os vêem na avenida dos Campos Elísios a formar fila à porta da Louis Vuitton, onde a marca estabeleceu um número máximo de peças que cada chinesa pode comprar. A ideia é evitar que uma ou duas clientes não acabem com o stock do dia. Na nossa avenida de luxo, as lojas contratam vendedores que falem mandarim e adequam a oferta de produtos às preferências dos clientes da China, sem limitações.

A procura por Portugal não parece querer abrandar e a visita do presidente Xi Jinping põe ainda mais o país no radar dos chineses em viagem. Outros acontecimentos esta semana podem contribuir para que rumem em força para o Ritz e para as lojas da avenida da Liberdade. As tarifas impostas às importações chinesas dos Estados Unidos podem manter-se e arrastar mais países europeus, subindo os preços dos produtos de marcas estrangeiras.

Xangai já é a cidade mais cara da Ásia para o consumo de bens de luxo, tendo ultrapassado Hong Kong, segundo o Wealth Report Asia, relatório do Banco Julius Baer&Co divulgado esta semana. Isto significa que mais vale viajar para onde possam comprar roupa, acessórios, relógios e joias sem o custo agravado e, de preferência, sem a ameaça terrorista como em Paris ou Londres ou as dificuldades na obtenção de visto, como nos Estados Unidos.

As relações China/Ocidente estão tensas, não só por causa das tarifas comerciais, das reações ao aparato do presidente Xi Jinping, como devido à sensibilidade dos chineses à forma como são vistos e retratados pelo ocidente. A Dolce & Gabanna ainda está a recuperar da argolada que cometeu no final de novembro em Xangai, ao querer chegar ao coração dos chineses, que representam cerca de um terço do mercado mundial de consumo de luxo, avaliado em €327 mil milhões, segundo o Wealth Report Asia.

Com receitas globais anuais minúsculas (1,3 mil milhões de dólares/€1,1 mil milhões) face ao potencial chinês, a dupla italiana decidiu criar os hashtags #DGLovesChina e #DGTheGreatShow, para promover um desfile de moda com roupas desenhadas especificamente para as clientes chinesas. Para mostrar a aproximação entre as duas culturas, achou por bem fazer uma campanha publicitária em jeito de paródia, que mostra uma modelo asiática a tentar comer com pauzinhos uma pizza e uma pasta.

O resultado foi uma onda de indignação nas redes sociais a acusar a D&G de recorrer a estereótipos racistas, o cancelamento do desfile de 500 propostas de roupas (por recusa das modelos asiáticas) e a exclusão dos seus produtos nas principais plataformas chinesas online. Até a gigante mundial Net-a-Porter, de origem inglesa e integrada no grupo suíço Richemont, suspendeu a venda da marca no seu site chinês.

Mais: celebridades chinesas encheram a Internet com posts a apelar ao boicote e algumas queimaram em direto peças D&G que tinham em casa. Pelo meio, ainda houve tempo para Stefano Gabbana publicar no Instagram insultos racistas contra os chineses, que foram desmentidos pelo próprio, pedindo desculpa por a sua conta ter sido roubada por um hacker.

Este episódio, a maior crise que a D&G já atravessou, serve de reflexão à forma como as marcas de luxo ocidentais têm de repensar a presença na China e a integração de referências culturais diferentes. Até porque, os consumidores estão mais participativos do que nunca e têm mais poder sobre as marcas do que as marcas têm sobre eles. Mas a moral desta crónica é mais simples e óbvia: a China importa, e muito. O dinheiro não fala mais alto. É música para os ouvidos das marcas de luxo, que continuará a ser tocada por este país, até aparecer outra geografia que o supere.

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