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Era uma vez em Fronteira

Um concelho alentejano onde os castelhanos sofreram uma derrota histórica, as termas são geridas pela Junta de Freguesia e que nos últimos 20 anos se transformou na capital do TT. “Viagens na nossa terra”, a crónica do jornalista Rui Cardoso no Vida Extra

Festejo no parque fechado

Paulo Maria / ACP Motor Sport

Exagerando um pouco podemos dizer que ao longo de 800 anos de História dois acontecimentos puseram a vila alentejana de Fronteira, distrito de Portalegre, no mapa: a batalha dos Atoleiros e as 24 Horas de Todo-o-Terreno. Acabam por estar relacionados, uma vez que nos anos de muita chuva a corrida de resistência se transforma numa luta nos atoleiros…

Não foi o caso deste ano, já que a chuva se limitou ao dia de quinta-feira, 28 de Novembro, deixando o terreno macio mas sem atascar e possibilitando aos 70 mil espectadores que aqui acorrem anualmente no último fim de semana de Novembro boas condições para ver a corrida.

Leu bem, estimado leitor: 70 mil espectadores, tanto quanto um Estádio da Luz ou equivalente completamente cheio. É obra, sobretudo se pensarmos que a população residente em todo o concelho não excederá as 3500 pessoas. Daí a importância da prova, criada pelo falecido José Megre em 1997, para a economia local.

Fronteira

Fronteira

Entre frio e nevoeiro

É uma prova que me faz voltar recorrentemente a Fronteira ano após ano e, tal como eu, oito ou nove dezenas de equipas, algumas vindas de pontos tão distantes como a Letónia. E cuja organização, a cargo do ACP Motorsport, mobiliza quase três centenas de pessoas, sem contar com GNR, bombeiros e seguranças. É uma corrida de resistência e não um sprint, pelo que pressupõe um espírito muito especial. Andar aos saltos no jipe às quatro da manhã no meio de um frio infernal e de um nevoeiro de cortar à faca não é para todos.

A corrida disputa-se ao longo de um traçado de 16 km que forma uma elipse irregular cujo eixo maior se desenvolve no sentido oeste-leste, respectivamente entre a zona industrial de Fronteira e as margens do Rio Grande quando este passa sob a estrada para Monforte (N243). Consoante as condições atmosféricas, o percurso inclui tudo o que faz as emoções do TT: passagem de linhas de água a vau, condução em pisos muito escorregadios, eventual transposição de lamaçais e longas horas de condução nocturna sob um clima infernal. Só faltam os corta-fogos da Serra da Lousã…

Muito publico ao longo dos 16 km da pista

Muito publico ao longo dos 16 km da pista

Paulo Maria / ACP Motor Sport

Como os lanceiros de Nun’Álvares

Este ano, ao lutarmos pela vitória na categoria Promoção A (aquela onde os jipes são mais parecidos com os de série), sentimo-nos como os peões e os lanceiros de Nuno Álvares Pereira se devem ter sentido a 6 de Abril de 1384: o inimigo era mais forte, tinha melhor material e tudo parecia jogar a seu favor. Contudo, sabendo tirar partido do terreno e do cansaço dos adversários à medida que o tempo corria, acabaram por levar a melhor e asseguraram uma improvável vitória.

Como dizia o grande Juan Manuel Fangio, quem ganha não é forçosamente quem anda mais depressa ou sai da primeira posição mas sim aquele que está na linha de meta quando a bandeira de xadrez desce…

Ganhe-se ou perca-se, a corrida é a festa dos gloriosos malucos das máquinas rolantes. Que passa pela camaradagem nas boxes, oferecendo imperiais e febras a quem passa, partilhando peças e ferramenta, ajudando o carro do vizinho do lado a pegar de empurrão quando o motor se apaga e fazendo a festa quando a bandeira de xadrez finalmente desce. É a alegria de quem, depois do frio, da fome e do cansaço, sabe que sobreviveu para poder contar a história.

Festejo no pódio após vitória na categoria

Festejo no pódio após vitória na categoria

Paulo Maria / ACP Motor Sport

Recriação de uma batalha

Mas além de corridas (o que, insisto, não é pouco) que mais há em Fronteira que justifique uma passagem por lá? Desde logo o Centro de Interpretação da Batalha de Atoleiros onde, com recurso a tecnologias multimédia, se reconstitui o choque das duas forças em 1384. Se mostra como uma hábil escolha do terreno (uma encosta lamacenta a subir, antecedida por uma linha de água) foi decisiva e como, num eco do que se iria passar em França durante a Guerra dos Cem Anos, a cavalaria pesada medieval deixara de ser a rainha do campo de batalha perante uma infantaria bem protegida por estacas e lanças longas e bem abastecida de projécteis, desde pedras a virotes das bestas e setas dos arcos longos. A coordenação científica é de Gouveia Monteiro, um dos melhores historiadores militares do período medieval luso.

Termas originais

Chega? Para quem tenha outros interesses há as termas de Cabeço de Vide (10 km a leste da sede do concelho) que têm duas curiosidades: são as únicas de Portugal a serem geridas por uma Junta de Freguesia e as suas águas, sulfurosas mas com um pH muito alto, isto é muito alcalinas, têm relativamente pouco cheiro, apenas encontrando paralelo numa estância termal da Baviera.

Atraem muita gente (há registos que referem as virtudes terapêuticas destas águas há 4000 anos, ou seja antes dos romanos), sobretudo pessoas sofrendo de problemas de pele ou reumatismo, sem esquecer as asmas e bronquites.

Estações recuperadas

O chamado Ramal de Portalegre unia esta cidade a Estremoz, aqui derivando para Évora ou Vila Viçosa. Com cerca de 60 km passava em Cabeço de Vide, Fronteira e Sousel, tendo ficado concluído em 1949. Não resistiu ao “comboiocídio” dos anos do cavaquismo, tendo sido encerrado em 1990. Fotografias do arquivo da Junta de Freguesia de Cabeço de Vide mostram-nos uma estação muito movimentada pois aqui funcionavam (e funcionam) as maiores termas do Alentejo.

Desactivada a linha, as estações foram-se degradando. As de Fronteira e Cabeço de Vide eram decoradas por belos painéis de azulejos, da autoria de Leopoldo Battistini. A Câmara de Fronteira instalou um centro de estágio e alojamento na estação da vila e recuperou os edifícios. Já em Cabeço de Vide, após alguma depredação e roubo de azulejos, a estação foi adaptada a estalagem com o nome da Rainha D. Leonor. Mesmo sem comboios a vida pode voltar às antigas estações.

Estação de Cabeço de Vide nos anos 60

Estação de Cabeço de Vide nos anos 60

JF Cabeço de Vide

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