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A lágrima de Saramago, os chocolates de Lobo Antunes e a morfina de Bulgákov

A jornalista Cristina Margato, na pele de Winnie que Beckett criou, escreve uma carta a Willie, e introduz-nos no maravilhoso universo das proteínas e de como estas nos podem revelar os segredos dos escritores

seacat

Querido Willie,

Começo por te perguntar: Quererias tu saber que medicamentos tomou o nosso querido Samuel Beckett quando nos criou? O que comeu? Ou qual era o estado da sua saúde quando escreveu “Dias Felizes”? Acharias interessante ou demasiado intrusivo?

Esta semana, surpreendi-me ao descobrir que é possível fazê-lo, desde que ainda exista o manuscrito de “Dias Felizes” ou outro qualquer manuscrito literário ou documento histórico. Num fascinante artigo da revista norte-americana "The New Yorker", intitulado “Do Proteins Hold the Key to the Past?”, encontrei uma nova forma de estudar os processos literários e uma outra hipótese de abordagem historiográfica.

Num processo, que contou com o entusiasmo de pelo menos três cientistas, concluiu-se que é possível aceder aos segredos mais bem guardados dos escritores.

A história começou em 2010, por causa de uma pequena Bíblia que um padre jesuíta do século XVII ofereceu à família Medici, na presunção de que Marco Polo a teria levado para a China em 1275. Sujeita a uma análise que estuda a interação das proteínas, nunca antes aplicada a manuscritos, nem ao passado, descobriu-se que a Bíblia tinha mais a contar do que aquilo que nela estava escrito. Na Bíblia havia vida. Ou proteínas “que podem sobreviver milhões de anos”. Vestígios de uma longa viagem pela China, e do seu regresso à Europa.

Os três homens de diferentes formações, Alberto Meloni, Giorgio Righetti e Gleb Zilberstein, entusiasmados com o feito decidiram aplicar a nova fórmula a outros documentos, nomeadamente aos manuscritos de Bulgákov. 75 anos depois da morte do escritor russo, autor de “Margarita e o Mestre”, o processo revelaria a doença renal de Bulgákov, responsável pela sua morte, em 1940, e também o seu vício em morfina. Ou seja, não deixava dúvidas sobre as inúmeras possibilidades de estudo que tal processo pode significar na abordagem aos arquivos.

Ao ler este fascinante artigo, que recomendo, lembrei-me de uma coisa que o editor Zeferino Coelho contou recentemente sobre José Saramago. Dizia Zeferino que Saramago um dia lhe confessou lamentar a passagem da máquina de escrever para o computador de uma forma totalmente inaudita: “As lágrimas já não caem no papel.” Saber o que Saramago sentia, comia, ou que doenças tinha será uma hipótese para os seus primeiros livros. Não para os últimos.

Já Lobo Antunes, tudo indica que oferecerá um manancial de informação até ao último livro, tendo em conta que nunca usou um computador para escrever. Através dos seus manuscritos, cuja propriedade a Universidade de Harvard disputa, e dos minúsculos vestígios que deixará neles além da sua hiper-mínuscula caligrafia, será possível saber de que tipo eram os chocolates que comeu, os cigarros que fumou, ou quais os medicamentos que tomou (e logo as doenças que teve de enfrentar). A questão é se isso é só interessante ou só intrusivo?

Willie deixo-te duas músicas em jeito de versão sonora de “Descubra as diferenças” – velha rubrica dos jornais em papel.

'Burial Service: March, Z. 860A' de Henry Purcell aqui, e 'Iron', de Woodkid aqui.

Envio-te ainda uma imagem das primeiras orquídeas que floriram lá em casa, e uma sugestão de leitura, na qual poderás pensar se gostarias ou não de saber que coisas Jonathan Littell comeu, bebeu ou fumou para escrever este livro: "Uma História Antiga".

Carinhosamente despeço-me de ti Willie,

desejando que não te encandeies com as luzes de Natal,

A tua Winnie

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