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Natal em NYC: as montras da Macy's, um parque especial, o Met, a Broadway e a homofobia

“Às vezes as coisas mais simples são as mais difíceis de aceitar e compreender. Como o amor. É só amor pessoas. É SÓ amor”, recorda Maria João de Almeida. Esta quinta-feira há nova entrada do “Inventário de Nova Iorque” para ler

Natal em Nova Iorque. Não resisto a aninhar-me junto à janela do meu quarto, rodeada de velas (com contenção, porque eu não sou de entrar em rituais malucos) e o saxofone do Louis Armstrong enquanto escrevo. Admito que a criança em mim queria muito ter encontrado a senhora das pombas do ‘’Sozinho em Casa’’, nos meus passeios pela cidade, mas sem sucesso.

As montras da Macy’s ganharam vida mecanizada com lobos amigáveis e bonecos de neve futuristas; aglomerados de pessoas formam-se ali para assistir ao espetáculo, causando um não tão agradável bloqueio do trânsito pedonal. Tentamos concentrar-nos no facto de ser Natal, respiramos fundo, e evitamos a chacina festiva na Herald Square. Estas alturas podem ser muito stressantes.

Tal como a Black Friday. A mim não me apanharam nessa brincadeira de barbárie sanguinária. Ai não, não. Nessa bela sexta-feira, bem cedo pela fresca, decidi ir explorar o Fort Tryon Park, que o meu amor por uma boa pechincha não é assim tão grande. Fica no cantinho lá em cima no mapa de Manhattan, onde ficam os Cloisters do ‘’Met’’.

E que bem que me soube aquela manhã no quase silêncio, com a linha dos arranha-céus do outro lado do Hudson. Estava um frio de formar estalactites nas rochas; cascatas de gelo brotavam por todo o parque, e pequenos molhos de folhas congeladas cobriam o chão. Toda uma Winter Wonderland. A dada altura quase que ouvi aqueles acordes tão icónicos de Angelo Badalamenti - pan…pan pan… pan pan… pan pan… Achei que ia ouvir de repente nos meus headphones ‘’the log lady’’ a dizer que o ‘’log’’ tinha uma mensagem para mim. Mas nada disso aconteceu (previsível).

Sentei-me num dos bancos a aquecer a minha cara gelada. Adoro como os bancos dos jardins e parques aqui têm normalmente sempre uma mensagem que alguém dedica a alguém ou uma citação de um poeta, um músico. Dá vida aos lugares, e faz-me sentir que estou a fazer parte de alguma coisa, e que há uma continuidade e talvez até alguma lógica na vida - ‘’nasces, vives, morres’’. Este tipo de subtilezas leva-me a acreditar que estamos todos ligados de alguma maneira, pelo menos eu gosto dessa ideia, e faz-me feliz pensar assim. O meu banco dizia ‘’The kissing bench / “It is only with the heart that one can see rightly; what is essential is invisible to the eye. - Antoine de Saint Exupéry” Nereida & Freddie were here’’.

E assim eu, a juntar a mais não sei quantas pessoas que se sentaram naquele pedaço de madeira, fiz parte da história da Nereida e do Freddie.

Acredito mesmo que os lugares, as coisas, os materiais, guardam histórias. No outro dia fui finalmente ao Met. É um mundo, onde tenho que definitivamente voltar, para poder ver com calma cada ala, e dedicar um dia a absorver cada período. Arquitectonicamente é estonteante, a luz a incidir nas estátuas, os quadros a contrastar com a cor da tinta da parede, diferente em cada sala - é tudo pensado ao pormenor. E tudo extremamente bem conservado.

Houve este quarto de um hotel veneziano do séc. XVIII que tinha uma energia própria, quase que uma presença diferente, que me fez estar ali a olhar para ele durante mais do que seria expectável. Era como se aquela cama olhasse directamente para mim, e me quisesse contar histórias - quantas pessoas passaram por aqueles lençóis, dormiram ali noites terríveis, ou foram imensamente felizes. Tanta vida, tanto passado ali concentrado naquele pequeno espaço. Foi quase demasiado pesado em mim, de uma forma que me continuava a puxar e puxar. Era capaz de ter passado ali mais uma hora. Mas havia todo um museu para descobrir, portanto tive que me despedir.

Outra estreia para mim foi ir ver um musical na Broadway. Tive que ir ver a Anastasia por duas razões distintas: a minha parte criança adora a princesa Anastasia da Disney (tinha inclusivamente a Barbie com o vestido de gala azul brilhante) e adorava toda a banda sonora do filme, e a minha parte menos criança tem uma grande pancada (como eu costumo dizer) com os Romanov e toda a história à volta da família imperial. E portanto lá fui eu sozinha num domingo à tarde ver a Anastasia, e foi maravilhoso. Em segundos era outra vez a menina a ver a cassete na sala, no sofá agarrada à almofada. É de facto um nível de produção majestosa a que não estou habituada a ver, as mudanças de cenário tão ágeis, as coreografias tão organicamente sincronizadas, a beleza de todo o ambiente, tudo tão perfeito, e simultaneamente com uma aparência de fácil execução. Brilhante, é tudo o que tenho a dizer.

Quando estava a regressar a casa do musical, as minhas colegas de casa contaram-me mais um episódio caricato passado no metro. Iam as duas a descer as escadas da estação da Penn Station e deparam-se com um homem com as calças ao fundo dos tornozelos, sem roupa-interior, a pintar as paredes com fezes. Elas processam a imagem durante um nano-segundo e voltam a subir as escadas; um homem vem a descer, elas tentam avisá-lo do cenário dantesco que ele iria encontrar, mas ele faz uma cara como quem diz ‘’e?’’. Apenas mais uma pessoa que vive há demasiado tempo em Nova Iorque. É o que se costuma dizer quando não há grande reação a este tipo de situações estranhas. É uma cidade de peculiaridades, não vou mentir.

Por exemplo, a Maria no outro dia também sofreu uma peculiaridade. Quer dizer, chamar-lhe-ia mais uma agressão. Ela estava em Brooklyn, num bairro que seria predominantemente habitado por uma população negra, e ao passar a cancela na plataforma da estação vem um rapaz da idade dela a gritar ‘’What are you doing here? Get the fuck out you piece of white trash! Get the fuck out!’’. Ela disse que ficou tão perplexa que nem sabia bem se aquilo era a sério ou não, mas ele não parava de gritar para ela ir embora, e começou a ficar cada vez mais agressivo e aí ela saiu a correr da estação de metro, e apanhou três autocarros diferentes para chegar a casa porque alguém achou que ela não tinha o direito de estar ali. Tanto ódio por nada.

O ódio é uma coisa terrível. Normalmente nasce da nossa incapacidade de compreendermos alguma coisa. Se não compreendemos, a culpa não é nossa, vamos virar as cartas e odiar o outro lado. É na realidade bastante infantil. Na semana passada fui ao cinema ver ‘’Boy Erased’’ (alerta spoiler, não ler mais se ainda não viu o filme. Quer dizer não é grande spoiler, mas depois não diga que não avisei), e à minha frente estava um casal de dois rapazes. Para quem não sabe o filme é sobre um rapaz adolescente que é sujeito, pelos pais, a terapia de conversão pelas suas ‘’tendências homossexuais’’.

Durante todo o filme, este casal ia rindo e abanando a cabeça quase como que dizendo ‘’enfim, perdoa-lhes que eles (estas pessoas que nos magoaram tanto), não percebem nada do que estão a dizer’’, tinham quase uma atitude de superioridade de quem já não podia ser atingido por nada. No final do filme, quando estavam a passar os créditos, voltei a olhar para eles, e um chorava copiosamente, choro feio com soluços.

Terapia de conversão. Passaram uma mensagem final a dizer que nos EUA ainda há 36 estados que a praticam. Eu achei que era uma coisa obsoleta, estava enganada. É muito triste, e fez-me pensar em todos os meus amigos que podiam ser sujeitos a esta monstruosidade e em como mais uma vez sou tão privilegiada e nada me atinge. Às vezes as coisas mais simples são as mais difíceis de aceitar e compreender. Como o amor. É só amor pessoas. É SÓ amor.

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