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Um telemóvel que é como um canivete chinês

Mais uma crónica “Futuro Extra”, servida pelo editor de novas tecnologias da SIC. Desta vez, Lourenço Medeiros mostra-nos como um telemóvel não precisa de ser brilhante em tudo para nos ajudar a fazer vários brilharetes

Dificilmente encontrava expressão mais adequada. Já escrevi sobre o lançamento do Mate 20 Pro e mencionei repetidas vezes que ainda não o conhecia. Fiquei portanto com uma certa obrigação de dizer mais quando tivesse passado pela experiência de o usar umas semanas.

A sensação que tenho é a de estar a usar um canivete suíço, daqueles com muitas funções. Juntaram quase tudo o que se pode querer, até tem impressão digital no próprio ecrã e é mais eficiente do que se poderia esperar. Concordo com muitos críticos que dizem que não tem a mesma eficácia dos botões biométricos a que nos habituámos, mas é perfeitamente utilizável. O mesmo com a leitura facial, que foi melhorada, e o sistema de calibração, igual ao da Apple, nem por sombras tão eficaz, mas mais uma vez utilizável. Não espere que o reconheça às 4h da manhã sem acender a luz do quarto, mas safa-se. Não tem a segurança suficiente para ser usado por aplicações bancárias e outras de elevado grau de segurança - esse atributo continua a ser exclusivo da Apple.

As 3 câmaras e o flash formam a assinatura visual do Mate 20 Pro

As 3 câmaras e o flash formam a assinatura visual do Mate 20 Pro

Tem um belo ecrã, sem dúvida, mas todas as pessoas que o viram na minha mão e começaram por esse lado perguntaram imediatamente se era um Samsung. A ligeira curvatura dos lados a dar ar de ecrã infinito quase se tornou uma assinatura dos coreanos e a Huawei não se faz rogada: se o consumidor quer, faz também. No lado oposto é que a Huawei criou uma assinatura própria para este modelo, que o torna inconfundível: as 3 câmaras e o flash a formar um quadrado, que fazem com que o Mate 20 Pro possa ser identificado mesmo a grande distância.

Nas câmaras é que posso considerar que deu o passo lógico, e talvez tenha sido a primeira a dar. De todas as combinações de câmaras eu destacaria a qualidade de retrato do iPhone e do Pixel, e a grande angular da LG. A Huawei fez a parceria que lhe permite ter a marca Leica associada às suas câmaras dos telemóveis, e andou a fazer experiências para agradar aos amantes de fotografia, como o uso do sensor monocromático do P20 Pro. Neste Mate 20 Pro conseguiu recriar o que sempre me ensinaram que deve ser o kit básico do fotógrafo. Uma pequena teleobjectiva (8 Mp), para retrato, uma dita normal (40 Mp!), que sempre me pareceu pouco útil, e uma grande angular (20 Mp) para grupos ou quando é necessário um ângulo muito aberto. E tem de facto tudo isto. Continuo a gostar mais da grande angular da LG, mas na maior parte das situações a deste Mate 20 cumpre muito bem. Como é de esperar nestas lentes ligadas a um computador de bolso, que é o que estas máquinas são, o Huawei consegue combinar os vários sensores, e temos assim o equivalente a um zoom 16-270, uma brutalidade que custaria uma pequena fortuna numa câmera profissional até há muito pouco tempo.

Os modos normais de zoom do Huawei Mate 20 Pro

Os modos normais de zoom do Huawei Mate 20 Pro

E tem o modo noite. Com as condições certas, o Mate 20 Pro consegue fazer fotos noturnas absolutamente espantosas. Convém estar muito fixo. A câmara indica que está a “filmar” e pode levar uns bons segundos a completar a exposição. Se tiver o telemóvel na mão, ou objetos em movimento, vai arruinar a imagem. Se estiver mesmo quietinho e com uma bela paisagem com alguma, pouca, iluminação vai fazer um brilharete.

Com e sem modo noite

Com e sem modo noite

É uma grande câmara com um grande defeito, onde fico mesmo desiludido: os retratos com pouca luz. Penso que tem a ver sobretudo com a dita inteligência artificial que lê a imagem e adapta à exposição. Já me aconteceu noutros aparelhos da mesma marca e tinha a esperança que tivessem melhorado. Num restaurante, com luz normal para a hora de jantar, fiz algumas imagens da minha mulher e da minha irmã que só não mostro aqui por respeito para com elas. Alisou de tal forma a pele, como um mau utilizador de Photoshop, e carregou de tal forma nas cores que algumas imagens eram dignas da família Adams e não da minha. Acho que está dito, mas tenho que admitir que na mesma noite, na rua, fiz algumas imagens de que gosto mesmo muito.

E é uma das poucas, se é que não é a última marca a insistir no que há uns dois ou três anos parecia uma tendência. O regresso dos infra-vermelhos. Tempos houve em que o método chegou a ser usado para transmitir dados entre telemóveis a velocidades assustadoramente lentas, hoje serve para transformar os telefones também em comandos universais. Com o pequeno acrescento, que imagino que seja até barato, do emissor de infravermelhos, temos na mão um comando quase mágico. Funciona com qualquer televisão, é especialmente útil em sítios como a redação da SIC, que tem aparelhos de várias marcas. Muito bom para tirar o som ou mudar o canal numa qualquer sala de espera antes de uma consulta. Uso também nos ares condicionados lá de casa, acho o interface da aplicação que uso muito mais intuitivo até do que dos comandos que vêm de origem. Enfim, desde que tenha infravermelhos qualquer aparelho pode ser comandado por um telemóvel assim.

Com todas estas características, e só estou a destacar aquelas que uso mais, é um telemóvel que tem tudo o que se possa querer. Pode não ser o primeiro a ter, pode não ser o absolutamente melhor em cada uma destas características, mas regra geral faz muitas coisas, muito bem. E dura, dura muito, graças à gigantesca bateria.

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