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Ir mais longe, ir mais fundo (a dádiva de Ferrante)

A jornalista Cristina Margato, “em modo” de “Dias Felizes”, e na pele de Winnie, escreve mais uma carta a Willie. Desta vez fala sobre Elena Ferrante, agora que estreou um documentário sobre a autora da tetralogia “A Amiga Genial”, e deixa como sugestão algumas propostas para o fim de semana

SEACAT

Querido Willie,

Confesso que, como muitos, não escapei a Elena Ferrante.

Não sei, no entanto, se lhe chamaria febre, como acontece agora no documentário “A Febre Ferrante” , que explorando o seu mistério e os seus livros, adapta “Escombros” (“La Frantumaglia”), o livro que reúne as poucas entrevistas escritas que a autora da tetralogia “A Amiga Genial” foi concedendo, sem revelar a identidade, e as cartas que foi escrevendo aos que insistiram em adaptar ao cinema as suas obras.

Febre não é uma palavra adequada, porque a obra de Ferrante não é uma doença, um delírio. É uma dádiva.

Li Elena Ferrante obsessivamente. Não sei se febrilmente. Gostei tanto do que li, como detestei, e isso não me parece mal. Interessam-me as áreas cinzentas, as ambivalências dos seres humanos, em particular a dos escritores; a mim e provavelmente aos muitos leitores que Ferrante conquistou nos 48 países onde os seus livros estão traduzidos.

O sucesso de Ferrante, uma escritora desconhecida, que segundo o escritor norte-americano Jonathan Franzen “escreve sobre aquilo que nunca ninguém escreveu em 150 anos de literatura, a amizade entre duas mulheres”, não foi algo imediato. No documentário “A Febre Ferrante”, o editor nova-iorquino da escritora italiana sublinha o trabalho que foi feito nas relações entre editor e escritora e entre editora e livrarias independentes.

Em Portugal, por exemplo, a D. Quixote chegou a publicar dois dos seus livros, e estes passaram completamente despercebidos. Os mesmos, a que mais tarde se juntou um terceiro numa edição que a Relógio d’Água fez e a que chamou: “Crónicas do Mal de Amor”.

Encontrar uma causa para o fenómeno Ferrante tem levado muitos a acharem que grande parte deste sucesso se deve ao mistério que se criou à volta da escritora.

Ora, a mim, Willie, parece-me que se isso fosse verdade seriam apresentadas, todos os dias, e por esse mundo fora, obras de escritores de identidade desconhecida.

Por outro lado, não percebo por que razão tantos leitores, de diferentes nacionalidades, géneros, culturas, se dariam ao trabalho de ler de enfiada quatro romances (como é comum acontecer com a tetralogia napolitana “A Amiga Genial”), quando normalmente levariam meses, ou até anos, a fazer o mesmo, caso não encontrassem nesses textos razões para os ler.

Elena Ferrante toca numa corda especial. Em algo profundamente humano. Mais inominável que tangível. Vai mais fundo e mais longe. Diz o que nós não conseguimos pensar de nós próprios, usando, como ela própria já disse, todos os artifícios que conhece para proporcionar o prazer da leitura, sem ter medo que esses mesmos artifícios estejam fora de moda. Mas esses artifícios não são artifícios, na medida em que não são falsos. São passagens num longo caminho que nos confronta com alguns dos nossos maiores medos. E se esse não é um papel da literatura, ou da arte, então qual será?

Numa palavra de quase impossível tradução “frantumaglia”, e que quer dizer ao mesmo tempo estilhaçar/dissolver/quebrar, ou seja o processo, e o resultado, estilhaçado, dissolvido, quebrado, Ferrante confronta-nos com um eu à procura de uma identidade, na relação íntima com quem amamos, não só através da relação amorosa, mas sobretudo da amizade (e não será esse um amor tão ou mais importante?), e com um mundo igualmente tão indefinido quanto nós mesmos.

Ferrante é por isso antiga e moderna, antiga na linha de Shakespeare, e moderna, no sentido de Zigmunt Bauman, de um mundo líquido, um amor líquido. Angústia antiga. Angústia moderna, que faz de nós eternos abandonados.

Ferrante é perfeita na imperfeição dela, e na nossa. Escreve à partir de dentro. Com a maturidade de quem tem quilómetros de sofrimento percorrido. E não escreve só para nós. Escreve sobre nós.

Willie, podia ficar aqui a falar de Ferrante mas, como já vai extensa a carta, despeço-me.

Não sem antes te enviar uma fotografia de Lisboa, que tirei num sítio do qual nunca me canso, o Cais das Colunas, e um poema, de Miguel Torga, que vem bem a propósito, e que tive oportunidade de ler na exposição de Cláudio Garrudo, na Galeria das Salgadeiras. “Trinus” entre o mar e o céu, porque, como disse Pessoa, foi no mar que Deus espelhou o céu.

“Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar...

(Só nos é concedida

Esta Vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

Prestes, larguei a vela

E disse Adeus ao Cais, à paz tolhida

Desmedida

A revolta imensidão

Transforma o dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar. Em qualquer aventura

O que importa é partir, não é chegar."

E a propósito de Miguel Torga, foi reeditada recentemente Fotobiografia, da autoria de Clara Rocha, sua filha.

Carinhosamente,

Winnie

PS- Em “Quarto Minguante”, espectáculo que te sugiro que vejas, também encontrarás gente estilhaçada num mundo em dissolução

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