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Vida Extra

Thanksgiving, neve, racismo e outras histórias

O “Inventário de Nova Iorque”, às quintas-feiras na Vida Extra, tem uma nova entrada. A atriz Maria João de Almeida fala-nos dos tempos que correm (e de como é vivê-los do lado de lá do Atlântico)

Brooke Lark

Na semana passada tive o meu primeiro Thanksgiving. Não comi peru e não vi a icónica Macy’s Parade, porque tive toda a manhã a fazer bolos e pies para os meus colegas internacionais que, tal como eu, nunca tinham celebrado tal dia. Preparar sobremesas faz-me sentir em casa, por alguma razão, por isso é algo que gosto genuinamente de fazer. Jantámos todos juntos cá em casa - uma pequena mesa do IKEA com vários pratos feitos por cada um de nós, com amor e vontade de partilhar. EUA, Austrália, Bolívia, México, Alemanha, Malásia e Portugal. Sete nacionalidades ali, unidas por uma vontade maior. A nossa professora de Neutral American Speech diz-nos várias vezes - “you’re each others families here, take care of each other” [“vocês são as famílias uns dos outros aqui, tomem conta uns dos outros”]. E naquela noite senti exatamente isso. Uma família a preparar um grande jantar. Quando fui lá abaixo pôr o saco do lixo na berma do passeio para a recolha, o ar estava gelado, de fazer doer a pele, crocante quase. Não sei se se pode descrever o ar como sendo crocante, mas foi o que senti. Ouvi um silêncio incomum, e pareceu-me que o bairro tinha entrado num freeze, e só eu vivia. O azul do céu começava a escurecer e do outro lado da rua vinha o resquício de um som passageiro: o espanta-espíritos no alpendre de uma casa recheada de uma família à volta de um peru gordo talvez. Uau. Isto é mágico. Estar aqui neste momento é tão surreal, só este pedacinho que acabou de acontecer. Nunca pensei há um ano estar a decidir com uma australiana e uma dinamarquesa se púnhamos mais limão ou não no húmus que tínhamos feito na cozinha do nosso apartamento em Queens. Ele há coisas…

E estou muito grata por poder viver esse momento quotidiano. Viver com duas atrizes torna a vida mais simples e fluída. Falamos os mesmos códigos e por isso não há nada de anormal em acordar de manhã, passar pela sala e estar um corpo esparramado no chão a ter aparentes convulsões e a fazer sons do fundo da cova - é só alguém a fazer trabalho de voz. Vindo do quarto do fundo consigo ouvir a gravação com a voz da nossa professora de Neutral American Speech e a Maria a repetir. Outra manhã no nosso querido apartamento.

Maria João Almeida

Atores. “I didn’t eat anything today. I'm gonna let my art feed me” [“não comi nada hoje. Vou deixar que a minha arte me alimente”] - ouvido nos corredores da minha escola. Dramático, no mínimo. Atores a jogar “charades” também é uma experiência a dissecar: o meu colega indiano ganha definitivamente a taça para jogador mais original ao apontar para o seu bícep, apertando-o freneticamente, e fazendo depois a forma de uma bola. E nós: “baseball? dor? músculo?”. Quando o tempo acabou, ele respondeu muito frustrado, como se fosse óbvio - “meatball!”. No final de contas, tudo o que ele queria era uma almôndega. “Meat” - aponta para o braço, “ball” - faz a forma da bola. “Get it??” (quase zangado). Fascinante como os nossos cérebros funcionam de maneiras tão variadas e criativas.

Outra coisa que também cai na categoria do fascínio são as diferentes formas de cumprimentar alguém de acordo com as culturas. Segundo os meus cálculos não exatos, já não dou os “dois beijinhos” (tão portugueses) a alguém há uns dois meses. Estou a converter-me lentamente a esta forma de vida. É interessante ver como os meus colegas, na sua maioria, acham que esta nossa forma de cumprimentar é um bocado estranha e desconfortável. Aqui, aparentemente, quando se conhece alguém, dá-se um abraço meio descomprometido, ou então levas com um aperto de mão. Isso sim, para mim é estranho. Para mim, abraços são uma coisa bastante pessoal, e apertos de mão são distantes e mais desconectos. Engraçado como somos todos da mesma espécie e variamos tanto em pequenos rituais quotidianos.

Uma noite de neve em Nova Iorque

Uma noite de neve em Nova Iorque

Maria João Almeida

Sem dúvida que estas pequenas diferenças culturais são das coisas mais interessantes que alimentam os meus dias aqui. No outro dia, entre aulas, fui buscar um café (já sabem que é aquela água pobre desenxabida), e quando me apercebo que pequenas partículas brancas estão a cair do céu, apresso-me a correr para a escola, entro no lobby e digo “It’s starting to snow!”. Os meus dois colegas da Bolívia e do México, que estavam mais do que enterrados no sofá, saltam que nem molas, vão a correr lá para fora sem casacos, com o entusiasmo de duas crianças na manhã de Natal. “Nieve! Nieve!” E todos os estudantes internacionais de países sem neve vão lá para fora em encantamento total (eu incluída, obviamente) com os telemóveis em riste para o céu. O Instagram a incendiar na 37th street. Do lado de dentro do vidro do edifício, os nossos colegas americanos olhavam para nós perplexos, como quem diz “coitadinhos, perdoa-lhes que eles não sabem o que aí vem”, e quando entrámos, dizem-nos com alguma condescendência e sabedoria nova iorquina: “esperem só até daqui a umas semanas. Já não vão achar tão lindo e maravilhoso”.

Duvido que eu não vá achar tão lindo e maravilhoso. Acho que vou precisar de mais tempo até o efeito “uau” ser gasto. Passei noutro dia pelo Bryant Park e quase chorei. Eu sei, ando muito sensível. Tinha um ringue de patinagem no gelo montado, um mercado de natal, música jazz/ blues assim meia natalícia. O meu lugar feliz. Estive ali um bom bocado só a ver as pessoas a patinar. Era por volta da hora de almoço, e pareceu-me que algumas patinavam em pares a conversar, como quem vai beber um café na hora de almoço no dia de trabalho. Super casual. Naquele momento, senti-me verdadeiramente feliz por estar a viver aqui.

Algumas pessoas que cruzavam o olhar comigo, perguntavam com as sobrancelhas arqueadas porque é que os meus olhos se começavam a encher de água, do género “menina, tenha calma, estamos só a patinar, isto é só um mercado de Natal, é tudo muito 'holly jolly'. Não há nada de dramático aqui”. E eu respondia de volta com o meu olhar de “sshh, continue a patinar e deixe-me estar aqui na minha bolha”. Estou feliz. É só felicidade que o meu corpo não consegue conter.

É possível chorar de felicidade. Pelo menos para mim. Também é possível chorar de tanto rir. Esse é um clássico meu. Quando fui ao Comedy Cellar, quase causei uma inundação. O Comedy Cellar é tipo Meca dos comediantes. Todos os grandes nomes da comédia dos nossos dias passaram por lá, e toda a gente almeja atuar lá, ou assistir a um espectáculo pelo menos. O espaço é intimista e meio underground - uma cave na verdadeira assunção do nome, onde eu me ri durante três horas seguidas, já a precisar de oxigénio para não entrar em colapso. Ponho grande parte da culpa nos 40 minutos que o Ray Romano foi o detentor do microfone. Sentado ao meu lado estava um casal amoroso nos seus 70, que se riam de tudo, mas digo tudo, incluindo piadas de “aproveitem enquanto podem, que o sexo quando envelhecem já não é a mesma coisa! Estou só a dizer, as coisas mudam!”, e eles olhavam um para o outro em máxima cumplicidade, e riam-se do género “ahahah então não sei’!”, e eu achei isso delicioso. A mão da senhora repousou na mão do marido, meias entrelaçadas em cima da mesa durante o espectáculo todo. Assim vale a pena.

Um colega meu comediante atua frequentemente neste espaço. Ele é das pessoa mais bondosas e doces que conheci nesta cidade. Na nossa aula de Acting ele está a fazer uma cena em que é casado, a mulher trai-o, ele sabe e vai confrontá-la. Está a ter alguns problemas em deixar a raiva e zanga transparecer. A nossa professora disse que dentro das circunstâncias da cena é mais do que justificado ele ter o direito de se zangar e expressar isso. E ele diz quase imperceptível “it’s hard for a black man” [“é difícil para um homem negro”]. E eu primeiro não percebi o que ele queria dizer com aquilo. Porque sou privilegiada. Depois percebi, e o meu coração rachou um bocadinho. Ele explicou que não está habituado a deixar que as pessoas vejam que está zangado e tem algum medo de o fazer por causa de situações que já viveu. Disse que se demonstra algum tipo de agressividade em público, chamam a polícia. “I’ve had policemen pointing guns at me several times ‘cause I was the black man there'” [“Tive polícias a apontarem-me armas várias vezes porque eu era o homem negro ali”]. Realidade cruel. Agora tem dificuldade em deixar a raiva sair. Nunca me tinha passado isto pela cabeça. E dói-me ouvir isto.

Isto está tudo errado. Sinceramente, o meu cérebro não faz a ligação de como é que na era em que explorámos o Espaço, e procurámos outras formas de vida, ainda achamos que alguém com pele de cor diferente é diferente. E que tal respeitar a vida aqui? Sim, é diferente. Tal como eu sou diferente porque tenho sardas ou porque tenho um nariz grande. Tal com aquela pessoa é diferente porque tem uma franja e pele morena. Somos todos diferentes. E ainda bem. O quão aborrecido seria se fôssemos todos iguais. Somos tão inteligentes e “cutting edge” para umas coisas e tão básicos para outras.

Vivemos mesmo numa era de dicotomias drásticas. Quanto mais avançados estamos em algumas coisas, mais pequeninos nos mostramos noutras. Como os nossos centros emocionais. As nossas ligações humanas. O que de mais precioso temos, é o que mais frequentemente fica para trás. Uma rapariga na turma de Acting da Maria perdeu tudo nos incêndios da Califórnia. A casa dela ardeu com tudo lá dentro. Imagino o que ela e a família devem estar a sentir com a resposta sem coração do Presidente a toda esta situação. Numa altura em que se pede humanidade, lemos palavras de ataque, ameaça, e dinheiro, dinheiro, dinheiro. Estou a ouvir Bach agora, e na minha cabeça formou-se esta ideia de que no meio das chamas são todos umas pequenas marionetas distantes, e a grande entidade envia tweets de um sítio superior algures, mal-informado, desconectado e apenas com o objectivo de acertar no alvo. Alguém tem que ter a culpa. Mas são pessoas ali, não são bonecos de madeira. Os dois ardem, no entanto. Algo tem que ser feito. Desça até ao palco, por favor.

A casa em Nova Iorque

A casa em Nova Iorque

Maria João Almeida

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