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Uma linha para a eternidade: este é um dos mais bonitos traçados ferroviários da Europa

Ir do Porto à Régua ou ao Pinhão de comboio não é uma mera viagem do ponto A para o ponto B. Trata-se de um dos mais bonitos traçados ferroviários da Europa entre fragas, vinhedos e barragens. De que está à espera para a fazer? Saiba aqui, na crónica de “Viagens na nossa terra” — às quintas-feiras no Vida Extra e com assinatura do jornalista Rui Cardoso

António Pedro Ferreira

Poucos países se podem gabar de ter a mesma região duplamente classificada como Património da Humanidade: o Douro Vinhateiro e as gravuras rupestres de Foz Côa. Era servida por uma preciosa rede ferroviária que, se nem sempre permitia velocidades dignas de um TGV, em contrapartida permitia uma fruição da paisagem sem igual.

Que fizeram os governantes e administradores da ferrovia das últimas décadas? Procuraram tirar partido deste património ferroviário com um potencial turístico excepcional, investindo e adaptando-o aos novos tempos? Nada disso. Começaram por transigir com a decisão espanhola de encerrar a ligação internacional por Barca d’Alva e abandonaram o traçado daí até ao Pocinho. E fizeram mais: estando o novo Museu de Foz Côa situado na prumada do apeadeiro homónimo e a pedir uma ligação vertical por ascensor ou escada rolante, nunca repuseram o serviço ferroviário do Pocinho ao Côa, uns míseros 3 km de carril. Invocando a necessidade de obras, foram fechados os troços ainda em serviço da via estreita do Douro: de Livração para Amarante, da Régua para Vila Real e de Foz Tua para Mirandela. Quase sempre com a total indiferença dos autarcas e dos notáveis locais, em especial na Linha do Tua.

Que sobrou desta hecatombe? Em exploração continua o traçado de via larga entre Porto e Pocinho. Verificou-se a transformação em ecopista de troços desactivados de parte da antiga via estreita do Douro: Amarante-Arco de Baúlhe (Linha do Tâmega), Vila Pouca de Aguiar-Pedras Salgadas-Vidago (Linha do Corgo) e Moncorvo-Carviçais (Linha do Sabor).

Resta-nos pois fazer o contrário dos pipos de vinho do Porto, ou seja ir da Invicta até ao Pinhão. São à volta de 120 km sobre carris que, tanto podemos fazer num dia, como enquadrar num fim-de-semana ou numas miniférias. Demoram-se duas horas no Inter Regional até à Régua, o que não é muito mais do que a viagem equivalente de automóvel

Os azulejos da histórica estação ferroviária de São Bento, no Porto, recordam a tomada de Ceuta pelos portugueses

Os azulejos da histórica estação ferroviária de São Bento, no Porto, recordam a tomada de Ceuta pelos portugueses

Rui Duarte Silva

Azulejos esplendorosos

O comboio parte da Estação de São Bento, o que permite ver ou rever os magníficos azulejos do átrio. Obra-prima de Jorge Colaço, produzida em 1916 na Fábrica de Loiça de Sacavém, representa diversos episódios da História de Portugal: Batalha de São Mamede, Ida de Egas Moniz ao rei de Leão, Tomada de Ceuta, etc. A gare, com o seu extenso alpendre metálico, é um belo exemplo da arquitectura oitocentista do ferro.

A viagem até Campanhã inicia-se com a travessia do túnel das Fontainhas (750 m), a que se seguem os da China e do Seminário, mais curtos. Os primeiros 70 km da viagem não são entusiasmantes do ponto de vista da paisagem, já que o comboio segue para norte e depois de divergir da Linha do Minho inicia um longo desvio para contornar as serranias de Valongo, passando depois em Paredes e Penafiel. Ponha, portanto, as leituras em dia e prepare-se para o que o espera.

De passagem atente em mais uma incongruência: a linha só está electrificada até Caíde. Está em curso a electrificação até Marco de Canavezes desde 2014 e foi agora lançado o concurso para o troço Marco-Régua. Os engenheiros ferroviários do século XIX eram mais lestos: bastaram-lhes quatro anos para construir de raiz o traçado do Porto à Régua. Isto significa que o Inter Regional ainda se faz de automotora a gasóleo e que a viagem de Caíde para Marco de Canavezes, assimilada a um traçado suburbano, implica transbordo. Começa a perceber-se que a tão falada falta de comboios, para além de problemas de manutenção e desorçamentação tem outras vertentes.

Descida até ao Douro

Caíde é o ponto mais a norte da linha do Douro. Daí em diante começa a descida na direcção do Douro, lenta até Vila Meã, vertiginosa após o túnel do Juncal. Antes de Marco de Canavezes passamos em Livração donde partia a Linha do Tâmega para Amarante. Após o Marco, sente-se à direita da carruagem, caso ainda não o tenha feito. Vem aí aquilo a que Carlos Santos chamou um “choque estético” pois os socalcos do Douro Vinhateiro preparam-se para tomar conta da janela e de lá não sairão.

“A linha do Douro é bela, principalmente a partir do Juncal. Até ali nada de extraordinário (…) A revelação dá-se depois do apeadeiro de Pala. Quem não estiver prevenido e for artista, viajando à direita da marcha, tem uma surpresa violenta, a que poderíamos chamar talvez um choque estético. Aos horizontes curtos, de mediano contraste, sucede a largueza de vistas, com planos bem marcados: primeiro, precipícios e ravinas; ao fundo a torrente

do Ovil, a estrada em curvas, aldeias e casitas dispersas que o comboio atropela muito do alto, sobre os viadutos, um de pedra, outro de ferro, ligando entre si as trincheiras cavadas na rocha, e precipitando-nos de encontro ao Douro, que se espreguiça lá em baixo em torcicolos de cobra; depois os povoados de Cinfães e Porto Antigo, sentando-se à beira-rio com donaires de príncipes; finalmente, como pano de fundo deste cenário de mágica, levantam-se imponentes os cimos de Gralheira, que vêm quebrar-se na fractura ciclópica da margem. A linha começa agora a ser um poema épico, de simples novela pastoril que era até aqui.”

Rui Duarte Silva

A lendária Tormes

Concluída a alucinante descida por alturas de Mosteirô o comboio passa a deslizar quase à flor da água. Uma reminiscência queirosiana nunca fica mal e por isso fique a saber que a celebrada estação de Tormes de “A Cidade e as Serras” corresponde, na verdade, à de Caldas de Aregos. Por estes lados fica a Quinta da Vila Nova onde decorre parte da acção do romance e a Fundação Eça de Queirós promove aqui numerosas actividades.

Chegado a Peso da Régua não será pior interromper a jornada. Repare, à direita da linha, no antigo armazém ferroviário, todo em madeira e descrevendo uma longa curva, em boa hora recuperado e salvo da ameaça de uma liminar demolição que se perfilava em nome do “progresso”. Tem a marginal e os cais ribeirinhos para ver, tal como o Museu do Douro. Para retemperar forças, recomendo vivamente o “Cacho d’Oiro”, na zona central, a oeste da estação e perto do mercado municipal. Não se intimide por ficar na Travessa dos Aflitos…

Se quiser conhecer uma famosa exploração vinhateira tem, na direcção da foz do Corgo, a 3 km, a Quinta do Vallado cuja nova adega é um belo exemplo de arquitectura moderna, habilmente utilizadora do espaço envolvente e dos materiais tradicionais.

No coração do Douro

Este percurso pode e deve ter uma segunda parte. Embarque no Regional para o Pinhão que está a uns meros 23 km por ferrovia. Pouco mais de 1 km depois da estação da Régua, verá à esquerda, mal termina o viaduto sobre o Rio Corgo, o arranque da antiga ligação de via estreita até Vila Real. Uma viagem inesquecível que lembrava o lisboeta Eléctrico 28 a fazer curvas no meio das vinhas e que ninguém, salvo porventura alguns iluminados, percebe por que razão foi abandonado.

Sempre à flor da água e sem pressas chegamos ao Pinhão a que João Araújo Correia chamou “o miocárdio do Douro”. Assim é de facto, pois entre lojas, armazéns e cais dedicados ao mundialmente famoso vinho nada falta por aqui. Logo na estação, uma das mais extraordinárias de Portugal, os famosos painéis de azulejos de J. Oliveira, datados de 1937. Têm o interesse suplementar de imortalizar paisagens e quadros já parcialmente desaparecidos, ou por terem sido submersos devido à construção das barragens, caso do Cachão da Valeira e da antiga ponte da Ferradosa, ou por as técnicas de vindima, os trajes e os usos e costumes terem mudado.

Miradouro de Casal de Loivos, Pinhão

Miradouro de Casal de Loivos, Pinhão

Lucília Monteiro

Há antigos armazéns vinícolas adaptados a hotéis, como o Vintage House e uma simpática zona de esplanadas e praia fluvial na orla oeste da vila, onde podemos estar sentados a apreciar um vintage e a ver na ponte metálica, quase por cima das nossas cabeças, passar o comboio. Se puder, não saia daqui do Pinhão sem trepar ao miradouro de Casal de Loivos, sobranceiro à povoação (convém arranjar um táxi, a menos que o prezado leitor seja atleta olímpico) donde poderá contemplar portentoso panorama.

E assim a ver passar os comboios, literalmente falando, termina este passeio ao Douro Património da Humanidade, ainda que a linha prossiga até ao Pocinho, assunto ao qual um destes dias prometo voltar.

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