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Pai Panda sente que a filha está a crescer demasiado rápido. Antes de ficar milionário à custa dela

O “Diário de um Pai Solteiro”, às segundas-feiras na Vida Extra, fala-nos esta semana sobre o crescimento da filha

Estou um pouco angustiado. A Panda está a crescer e com isso está a perder qualidades dramáticas e cómicas essenciais para o sucesso das minhas crónicas. Logo agora que o sucesso material nos bateu à porta e eu contava enriquecer à custa dela como aqueles pais de crianças prodígio que depois torram tudo e as deixam na miséria.

Antes bastava-me descrevê-la a andar na rua no inverno à chuva para ter interesse. A pequena barriga redonda, as pernas saltitantes, os bracinhos arqueados pelo casaco quente, as baforadas de condensação de respiração de passarinho, o chapéu de chuva laranja com imagens de cães, a fugir-lhe da mão a cada rajada de vento, as galochas a semear círculos nas poças que a atraíam, o súbito salto a pés juntos dentro de um lago improvisado numa sarjeta entupida, as galochas a encherem-se de água. A Panda a chorar com o frio da água lamacenta dentro das galochas, o pai a encharcar os sapatos e os pés até aos tornozelos para a tirar da poça, as galochas a sair dos pés da Panda e a ficar dentro da poça com o peso da água, o pai com a Panda ao colo por cima do ombro a tentar segurar no chapéu de chuva dele e da Panda debaixo da tormenta e a baixar-se para apanhar as galochas, pessoas a passar a perguntar se preciso de ajuda e o pai a responder muito orgulhoso “não, está tudo bem, obrigado”

Sim, era fácil. Se fizesse um filme era só filmá-la e dizer “Action!” e deixá-la improvisar, seguir as deixas dela. Soltá-la. Podia preparar cenas. Panda a tentar vestir umas calças. Panda a escolher sozinha a quantidade de espuma de banho adequada. Panda a explicar que o Sol dorme no mar no meio dos peixes.

Sinto que a Panda está a dar lugar à menina. Esticou, tem elegância. Tem bom senso. Agora sou eu que digo coisas palermas a tentar puxar por ela. E ela que se ri de mim: “o meu pai é maluco”, “o meu pai é tontinho”, “isso que estás a dizer é um disparate!”… Está a ganhar noção do ridículo, da dignidade. Tem vergonha quando faz algo mal. Não acha graça a que me ria dela. Quando a filmo a fazer um disparate pede para desligar. Está consciente da imagem.

Suponho que não me devia queixar por ser mais difícil explorar as suas peripécias para ganhar rios de dinheiro. Está a fazer-me cada vez mais companhia e é cada vez mais parecida com uma pessoa que é única e se vai revelando como uma fotografia submergida no químico. Continuo com um sentimento que tem tanto de felicidade como perplexidade.

O que me preocupa deve ser outra coisa, para além do dinheiro que se calhar não vou ganhar com os direitos para a série no Cartoon Network ou Netflix. Talvez seja a melancolia de ficar sozinho aqui na infância da Panda e ela seguir em frente. Como se tivesse ficado numa estação de comboio com brinquedos velhos, a brincar sozinho. Podia arranjar um cachorro bebé. Mas esses também crescem. O tempo a passar, será isto?

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