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Vida Extra

Somos nós e não eles quem precisa de dar sentido à vida

Na quinta crónica para a Vida Extra, sempre às sextas-feiras, a jornalista Cristina Margato na pele de Winnie inquieta-se com o aquecimento global e escreve sobre o próximo livro de Jonathan Franzen, com lançamento mundial marcado para o próximo dia 12: "O Fim do Fim do Mundo".

Querido Willie,

Esta semana lembrei-me de uma imagem que é bem exemplo do que nos está a acontecer. Um grupo de homens, carecas, sem olhos nem feições bem definidas, está dentro de um tanque de água, do qual apenas emergem as suas cabeças e um pouco do torso. Os homens, vestidos pelo que parece ser um fato acinzentado sempre igual, refletido numa água igualmente baça, parecem convergir calmamente para um ponto, à volta do qual se reúnem. No meio, nada. Um ou outro homem fica um pouco mais distante.

A imagem é de uma instalação criada pelo artista plástico Isaac Cordal, em Berlim, e chama-se “Políticos discutem o aquecimento global”. Em breve esta instalação terá dez anos, e desde então a água continua a subir. E os políticos já nem discutem, parece-me.

Vem bem a propósito de um livro que chegará às livrarias na próxima semana (dia 12) e que já ando a ler: “O Fim do Fim da Terra”, de Jonathan Franzen, o escritor norte-americano de “Correcções”, “Liberdade” e “Purity”.

Desta vez, Franzen não escreve ficção. O livro reúne um conjunto de ensaios que ele foi publicando nos últimos tempos, alguns deles sobre a sua extrema preocupação face às alterações climáticas e ao consequente desaparecimento de várias espécies, nomeadamente de pássaros, animal que ele acompanha de perto enquanto ornitólogo listador (aquele que lista os pássaros que vê).

Logo ao abrir o livro – cuja imagem de capa será mundialmente a mesma, as calotas de gelo — que sabemos estarem a derreter, Franzen fala da sua profunda fúria, causada pela atitude de políticos e ativistas face às alterações climáticas.

Há três anos, dizia Franzen, chateava-o o facto do Partido Republicano norte-americano continuar “a mentir a propósito da ausência de consenso científico sobre o clima” ou incomodavam-no pessoas como a ativista Naomi Klein (de quem já te falei numa destas últimas cartas) continuarem a mostrar otimismo, uma atitude que para o escritor também era uma espécie de negacionismo.

“Dar prioridade aos problemas humanos era politicamente menos arriscado – menos elitista – do que falar da natureza”, diz Franzen. Pois é exatamente neste ponto, Willie, neste exato ponto que ainda estamos. Ou melhor, estamos nesse ponto com mais convicção face ao renascimento das extremas-direitas, a última das quais garantida pela vitória no Brasil de Bolsonaro.

Só assim se percebe, de resto, que continuemos a falar mais nas pessoas e menos na natureza e na terra, como se ela fosse uma parte que nos é alheia. Só assim se percebe que uma área política que tem por tradição combater o capitalismo, com o intuito de salvar as pessoas, não se vire contra esse mesmo capitalismo, chamando a si e com convicção a luta contra as alterações climáticas de uma forma realmente empenhada; e, se for preciso, até gritante (para que possa ser efetiva).

Será que os partidos, nomeadamente os de esquerda, também já chegaram à conclusão de que será melhor ficar sem planeta do que sem capitalismo? Estarão todos à espera que Ellon Musk – apesar da sua empresa, a Tesla, já não ser o que foi (desde que decidiu fumar marijuana num programa de rádio e fez um tuíte arriscado que lhe custou o afastamento da administração) – descubra o caminho para Marte?

Ao menos podíamos pensar como Franzen pensa: “Talvez os animais não saibam agradecer-nos por lhes permitirmos viver, e certamente não fariam o mesmo por nós se as posições se invertessem. Mas somos nós e não eles, quem precisa dar sentido à vida.” Os elementos da natureza não o vão fazer, já o sabemos quando enfrentamos uma tempestade, ou quando um vento superior a cem quilómetros por hora faz de nós uma leve, leve folha de papel, como me aconteceu há pouco mais de uma semana bem no centro de Lisboa.

Somos nós e não eles quem precisa de dar sentido à vida.

Somos nós e não eles (leia-se a natureza) que podemos perder o direito à vida, também. A terra já sobreviveu a mais do que uma extinção. Só mudaram os seus habitantes.

E é por isso que te envio esta semana, Willie, a imagem da capa de um livro maravilhoso. Feito por dois ornitólogos que acrescentam sentidos à vida fotografando aves em Portugal, algumas muito raras de se ver como aquela que está na capa: “As Nossas Aves”, de Luísa Viana e Henrique Oliveira Pires. Espero que gostes.

Carinhosamente,

Winnie

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