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O apelo à paz da Web Summit e o que mais me impressionou

Está quase tudo dito sobre a Web Summit deste ano, deixo obviamente a parte noticiosa para o Expresso neste caso. Estive lá pela terceira vez e agora mais a comentar do que a fazer notícias. Por isso, para além da notícia e do hype das startups, deixo aqui aquilo que verdadeiramente me fica na memória

A vista do plateau da SIC na Web Summit

Posso começar já pelo que queria esquecer, e não vai ser fácil. A abertura com Tim Berners-Lee. A muito esperada intervenção do pai da World Wide Web, o homem espontaneamente aplaudido de pé mal entrou no palco. Sem ele não estaríamos aqui. Deu ao mundo a forma fácil de usar a Internet num gesto de extrema generosidade. Foi uma ideia prática, genial, que nos mudou a vida e até a sociedade.

Só que a Web ganhou todos os vícios humanos. Os ódios, os tribalismos, a mentira, a ganância, a fraude, não vou inventariar os males desta sociedade mas eles estão todos lá. E este grande homem, que supostamente está a trabalhar em soluções tecnológicas para voltar a descentralizar a web e devolver os dados aos cidadãos, vem aqui com uma pura utopia.

Quer um acordo de princípio, um contrato para a Web unindo todos os países, todas as empresas e todos os cidadãos para tornar o espaço virtual um espaço de verdade e respeito. Num mundo em que nem nos conseguimos entender quanto aos Direitos Humanos, ver um homem com todo este peso histórico gastar-se com uma ideia bela, é certo, mas absolutamente inatingível, foi um pouco triste. Mudou a nossa vida com uma ideia simples e prática, não precisa de se transformar num profeta utópico. Também ninguém lhe tira o que fez.

A noite de abertura foi salva pela intervenção de António Guterres, mostrou a sua estatura, a forma como soube acompanhar o mundo e crescer com ele desde que foi primeiro ministro em Portugal. De todos os desafios de que falou, e foram noticiados, o momento alto foi o apelo a que a Inteligência Artificial seja usada para a paz e não para a guerra, e sublinhou que já está a servir os conflitos entre estados.

Apelou muito veementemente a que a comunidade internacional vote uma lei que impeça a produção de máquinas capazes de tomar, por si sós, a decisão de matar humanos. Mesmo que alguém construa tais máquinas, e alguém o fará, esta é uma luta que tem que ser travada, como o foi com as armas biológicas.

A Guerra e a Paz como caminhos que temos que escolher na revolução tecnológica atravessaram várias intervenções incluindo a do ex primeiro ministro britânico Tony Blair (muito aplaudido por querer reverter o Brexit) e até a intervenção, a fechar a Web Summit, de Marcelo Rebelo de Sousa.

O que mais me impressionou

Vou provavelmente ser injusto, mas o que mais me impressionou em termos de tecnologia foi a apresentação de Eugene Chung da Penrose Studios. A empresa faz filmes em Realidade Virtual, histórias imersivas e interativas. Falou de ópera e de cinema como formas de contar histórias (detesto a adoção exagerada do storytelling no português) para depois mostrar o que acredita ser o futuro. Uma forma de expressão verdadeiramente interativa.

A demo de Arden’s Wake no YouTube da Web Summit pode ser vista acima. O que conto começa no 7’11 mas vale a pena ver o vídeo todo

O forte da apresentação foi uma pequena demo de Arden’s Wake, em que Arden é uma menina que nos surge numa cabana no meio do mar, com a qual vamos interagir. A boneca, em animação, conversou com ele no ecrã do palco, com um discurso extremamente fluido, a descrever a sua própria personagem em resposta às perguntas de Eugene. Podíamos pensar logo num script bem ensaiado, mas foram mais longe. Instalaram um microfone no meio da sala grande do pavilhão Altice e alguns espectadores colocaram questões.

O Bot Arden, se assim lhe podemos chamar, até soube evitar perguntas a que não podia responder. Quando um participante lhe pediu para mostrar o exterior da cabana disse simpaticamente que isso não interessa, que não havia nada para ver, era apenas água em volta. A pergunta seguinte era quase óbvia, pediram para mostrar melhor a cabana em que estava, ao que Arden retorquiu que não tinha tido tempo para limpar e preferia não mostrar a desarrumação, muito bom! A única falha notória só aumenta a credibilidade do projecto.

Eugene faz uma óbvia citação de uma frase, já não me lembro qual, e o bot pergunta de quem é. Ao saber que era de George Bernard Shaw, pergunta se é hoje que o vai conhecer. Quase a seguir Eugene Chung diz que lhe vai apresentar “Lisbon” e o bot todo contente pergunta se ele, “Lisbon”, é simpático. É um erro que delicia quem perceba o que ali se passa.

Eugene safou-se bem ao dizer que são todos simpáticos em Lisboa e depois seguiu outro curso para a narrativa. Muitas milhas à frente da tão falada Sophia, um modelito que por interessante que possa ser “vive” muito para além das suas próprias capacidades. Pode ser bom para fazer publicidade, mas na Web Summit deixou muito a desejar.

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