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Vida Extra

Um solário para plantas, uma comédia num bar nos céus e as eleições intercalares nos EUA

O “Inventário de Nova Iorque”, às quintas-feiras na Vida Extra, tem uma nova entrada. A atriz Maria João de Almeida fala-nos dos tempos que correm (e de como é vivê-los do lado de lá do Atlântico)

‘’I just want to go to a museum, sit in front of a painting and cry.’’

‘’Could you say anything more european?’’

É uma coisa recorrente entre mim e a Zoe, ela está sempre a dizer que eu sou tão europeia, porque bebo o meu espresso sem açúcar, gosto de cerveja preta e digo que estou a morrer por uma água com gás, e ela acha isso muito chique e europeu. Eu sinto só falta de uma boa água das pedras, não há grande chiqueza nisso.

Em relação ao meu desejo de querer ir para um museu olhar para um quadro e chorar não há muito a dizer. Esta cidade é incrível, mas também te dá pancada. Consegue-se literalmente sentir nos músculos. E eu só queria sentar-me ali e ‘’aqui estou eu, deixa-me absorver-te, entrar em ti, leva-me contigo a viajar, largo todos os pesos agora, neste banco de museu por duas horas’’. Não sei se consigo passar a minha ideia, mas era mais ou menos isto. Com a voz do Miles Davis no meu ouvido.

Entretanto, enquanto escrevo isto, as minhas colegas de casa trouxeram as plantas todas para a sala para apanharem sol. Tem estado um tempo sisudo, então quando vêem um bocadinho de sol ficam malucas. Está portanto a acontecer um playdate herbáceo. Elas gozam comigo porque acham que eu não gosto de plantas. Não é bem isso. Simplesmente quando andávamos a mobilar a casa e elas andavam loucas a arranjar plantas, para mim isso seria uma coisa que eu talvez me lembrasse dali a três meses: ‘’olha se calhar ficava bem ali uma planta’’, enquanto que para elas é essencial.

Então, eu sou uma espécie de coração gelado que não entende a natureza aos olhos delas. E aqui estão as plantinhas delas em cima da mesa da sala, sob a supervisão da Queen Margaret. A Donna e o Jacob. Não sei o nome da outra mais nova. Eu tenho a minha tacinha de poutporri, também conta não? É natureza morta, para me manter na linha da femme cool e europeia que bebe café sem açúcar. Não posso desiludir a Zoe, agora que ela me acha tão europeia.

Esta europeia foi no outro dia ao seu primeiro rooftop em NY. Fui ver uma peça encenada por uma professora, assim num estilo muito casual, comédia num bar nos céus. Uma experiência que nunca tinha tido — ali estava eu no meio de pessoas que falam a minha língua (e não estou a falar de português), no bar de um hotel em Midtown, com o dia a cair atrás de mim. Naquela varanda, com o vento no cabelo, a ver o laranja a recortar os arranha-céus, blocos negros com mil quadradinhos de luz de todas as vida naquele paralelepípedo, deixei de pensar nas minhas bochechas geladas.

E os táxis amarelos lá em baixo eram pequenos, e as cores viajavam rápido que nem borrões de pintor eletrizado pela noite. E pensei ‘’uau, ainda no outro dia estava a subir a Rua da Misericórida.’’ É engraçado como os nossos dias podem mudar tanto, tão rapidamente. Já não piso a calçada portuguesa. Isto é uma das coisas interessantes de estar longe de casa. Lembramo-nos de coisas que não pensámos que fossem ser a prioridade na nossa lista de saudades. Como pedras.

O que me ajuda a sentir em casa é fazer bolos ou bolachas — fazer docinhos, como eu gosto de lhes chamar. A Maria Tinker fez anos, e sendo ela vegan, eu decidi aventurar-me a fazer um cheesecake que correspondesse às suas exigências alimentares. Nós chamamo-la Tinker porque ela é esta criatura amorosa e inocente que parece uma fadinha como a tinkerbell do Peter Pan. Relativamente ao cheesecake, eu achei que estava no borderline do intragável; já ela amou, por isso o propósito foi cumprido. Tanto amou, que andou a alimentar-se o resto da semana à base de cheesecake.

‘’Maria o que é que comeste ao pequeno-almoço?’’, ’’Cheesecake’’, ‘’’o que é que vais comer ao jantar?’’, ‘Cheesecake, ‘’o que é que vais levar amanhã para o almoço? Esquece, não precisas de responder’’. Uma pessoa até fica com o ego culinário massajado. O facto de ela não ser muito dada aos tachos e panelas talvez tenha tido algum peso nesta adoração desmedida pelo cheesecake desenxabido, não sei. Vou optar pela opção que me favorece mais porque a pessoa tem que praticar o self-love, o que às vezes não é nada fácil quando olhas para o talão das compras do supermercado aqui do bairro. E só ias comprar fruta. Love yourself Maria, love yourself.

Um clima de amor não era definitivamente o que se sentia na passada terça-feira. Tive mais um bocadinho de realidade que me era tão distante quando a via num ecrã de televisão em Portugal - o dia das eleições intercalares nos Estados Unidos da América, que agora mais do que nunca têm mesmo que ser unidos. Conseguia sentir no ar, na forma como as pessoas caminhavam e me olhavam nos olhos, um certo peso, uma tensão, como se estivessem todas debaixo da mesma nuvem gigante. Nesse dia tive uma aula privada de Neutral American Speech, e a minha professora, que é uma pessoa que erradia energia e boa-disposição, a um nível de quem caiu num pote de açúcar em criança, estava quase baça.

Acho que foi a primeira vez que mal lhe vi os dentes. Pediu-me desculpa por estar menos bem-disposta, mas estava aterrorizada com o possível resultado das eleições. E eu conseguia ver o azul dos olhos dela a ser coberto de água, por detrás dos óculos.

‘’The year Trump was elected I had a syrian girl and an iranian girl in my class. They were terrified. They didn’t know if they would be kicked out of the country. Can you imagine?’’ Não sei se consigo. Parece quase algo saído de um filme de ficção qualquer. E é irónico ao mesmo tempo como uma das grandes nações do planeta está a dois passos de cometer exatamente o mesmo crime (sim, crime) de há 70 anos atrás.

Culpar um grupo específico de pessoas pelos problemas existentes, recorrendo a propaganda de ódio com a finalidade de os eliminar da sociedade; agarrar o desespero das camadas mais pobres, instigando-as a embarcar na ‘’limpeza da nação’’ para a tornar ‘’great again’’; a rejeição de um mundo globalizado em detrimento de um patriotismo fervoroso. Onde é que eu já vi isto? Sempre gostei muito de História.

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