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Vida Extra

À descoberta das Linhas de Torres

Estradas militares, fortes de todos os tamanhos, sistemas de comunicações… Conheça a rede de colinas a norte de Lisboa onde Napoleão foi derrotado em 1810

Forte de São Vicente, que fazia parte das "Linhas de Torres", em Torres Vedras

Rui Ochôa

Há quem vá à Normandia por causa das praias do desembarque de 6 de Junho de 1944 ou percorra a Flandres à procura das trincheiras da I Guerra Mundial. São locais extraordinários onde se decidiu o curso da História e onde não faltam museus, exposições e recriações, por vezes recorrendo às mais modernas tecnologias.

A dois passos de Lisboa situa-se um património que não fica muito aquém em riqueza, diversidade e significado. Contudo, quantos de nós se podem gabar, se não de conhecer ao pormenor, ao menos de já ter visitado as Linhas de Torres Vedras?

Construídas a partir de finais de 1809, as Linhas são uma obra-prima da engenharia militar. Tiveram um papel decisivo na derrota da III Invasão Francesa no Outono de 1810, pondo em xeque um dos mais competentes generais de Napoleão e desta forma contribuindo para o quadro político-militar que haveria de levar à derrota do imperador francês em 1815.

A surpresa de Masséna

No Verão de 1810 a III Invasão Francesa chefiada pelo marechal Masséna parecia destinada ao sucesso. Tomada a praça-forte de Almeida em finais de Agosto, os franceses avançam sobre Coimbra ao longo do vale do Mondego seguindo aproximadamente a directriz da actual A25 até Viseu e do IP3 até Penacova.

Embora sofrendo perdas no Buçaco em finais de Setembro, contornam as posições anglo-lusas nas cumeadas daquela serra e retomam a marcha sobre Lisboa. Contudo, chegados a 11 de Outubro às portas de Vila Franca, descobrem que as colinas à sua frente estão densamente fortificadas.

Os reconhecimentos armados em diversas direcções saldam-se por fracassos. Não há por onde contornar o dispositivo aliado, tanto mais que no Tejo há lanchas canhoneiras e no Atlântico a frota britânica tudo vigia e controla. O marechal Soult que comandara a II Invasão Francesa um ano antes dá sinais de querer fazer, a partir de Badajoz, um avanço pelo Alentejo na direcção de Abrantes ou Setúbal mas por aí se fica. Mal abastecidos, com linhas de comunicações alongadas e sujeitas a ataques da guerrilha, os invasores acabam por retirar para Santarém a 14 de Novembro e para a fronteira em Março do ano seguinte.

Duas linhas paralelas

Que fortificações eram estas? Resultavam de um plano de defesa da capital definido um ano antes pelo marechal Wellington, comandante anglo-luso, que se baseava no aproveitamento do terreno acidentado que se estendia entre Lisboa e Torres Vedras. A partir de finais de 1809 começou por se fortificar uma linha de 39 km que ia dos mouchões de Alverca a Cabeço de Montachique e Mafra, terminando a oeste na praia de São Lourenço de Ribamar.

Como a esperada invasão francesa tardava, começaram a construir-se obras avançadas de defesa em Alhandra, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras que não demoraram a tornar-se numa nova linha fortificada contínua com 46 km de extensão, desde a beira Tejo até à actual Praia Azul, perto de Santa Cruz. Depois, ainda se recheou o espaço entre as duas linhas com fortificações complementares, como por exemplo no vale da Calhandriz, perto de Bucelas.

Havia todo o tipo de obras defensivas: posições de artilharia e atiradores em todos os pontos altos; grandes fortes poligonais guarnecidos por muitas centenas de homens como na Aguieira (Alverca), Alqueidão (Sobral) ou São Vicente (Torres Vedras), construídos no eixo dos mais prováveis ataques inimigos; obstrução das estradas, pontes e caminhos com todo o tipo de obstáculos e armadilhas; escarpamento artificial das encostas para dificultar a sua escalada.

Tudo isto funcionava em conjunto, com cada peça de artilharia a bater uma zona pré-determinada e forças de reserva à retaguarda para contra-atacar, tirando partido de uma rede de estradas militares calcetadas. Mastros de comunicações instalados nos cumes permitiam retransmitir ordens cifradas através do telégrafo óptico.

Resumindo, 150 fortes de diversos tipos, trinta mil homens de guarnição e 600 peças de artilharia de diversos calibres. Uma intransponível combinação de geografia e fortificação que inverteu uma situação julgada perdida. E que desde o bicentenário da sua finalização (2010) tem sido alvo de um extenso trabalho de recuperação, envolvendo, tanto a administração central e os militares, como os diversas municípios: Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço e Vila Franca de Xira.

Chegado a este ponto, perguntará o leitor cujo apetite tenha sido despertado por este arremedo de descrição histórica, como se parte à procura deste património.

Forte de São Vicente, em Torres Vedras

Forte de São Vicente, em Torres Vedras

Rui Ochôa

Um livro fundamental

Se quer saber mais sobre o que foram as Linhas de Torres e o que ainda hoje pode ser visto no terreno, recomendo a leitura do mais completo e definitivo livro sobre o assunto: “A Defesa de Lisboa, 1809-1814” (Tribuna da História, 2015, 350 páginas). É a obra da vida do coronel Sousa Lobo, engenheiro militar e amante do património, a qual está para qualquer outro livro publicado sobre o tema, a começar pelo que eu próprio escrevi em 2010 por ocasião do bicentenário da III Invasão Francesa, como o Bayern de Munique para o Sacavenense…

No livro, não só encontra uma descrição detalhada dos combates de 1810, como um levantamento feito quase metro a metro das diferentes zonas fortificadas, tudo acompanhado por mapas (actuais e da época) e preciosas fotografias do terreno nas quais foi acrescentada a localização de obras defensivas, tanto existentes como desaparecidas ou em ruínas. E ainda fica a saber muitas outras coisas, nomeadamente que as Linhas faziam parte de um dispositivo mais vasto que incluía obras de defesa directa de Lisboa, fortificação da envolvente do embarcadouro de São Julião da Barra e traçados defensivos mais ou menos concretizados em Almada e Setúbal.

É um livro de estante e não de campo, pelo que se for passear para as Linhas, sobretudo a pé, mais vale fotocopiar as páginas relevantes e transportá-las devidamente protegidas num porta-mapas, daqueles que se vendem nas casas de artigos militares ou de viagens.

Passeios a pé

Se gosta de passear a pé ou de bicicleta planeie o que quer ver consultando a informação existente no portal do Centro de Interpretação das Linhas de Torres (CILT). Agrega seis centros locais de interpretação: Arruda dos Vinhos, Bucelas, Forte da Casa (Póvoa de Santa Iria), Mafra, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. E promove seis rotas pedestres: Primeira Linha, Percurso Wellington, Defesa do Tejo, Grandes Desfiladeiros, Nó das Linhas e Do Palácio ao Atlântico. Há também, integrado na rede europeia de percursos pedestres e sinalizado em conformidade com as convenções internacionais, uma Grande Rota com 112 km (GR-30 Grande Rota das Linhas de Torres).

Para quem queira começar com um aperitivo das Linhas, atrevo-me a sugerir uma incursão com o seu quê de anárquico mas, que agrega uma mão cheia de pontos de interesse.

Marco geodésico do Forte Aguieira

Marco geodésico do Forte Aguieira

Rui Cardoso

De Alverca ao Sobral

Para ver uma das maiores e menos conhecidas obras defensivas, visite as ruínas do Forte da Aguieira. Chegado às portagens da A1 em Alverca, tome a direcção Bucelas pela N116. No topo da subida sinuosa, quando encontrar à direita o ramal para Calhandriz, suba pelo caminho não asfaltado que parte na direcção oposta, ou seja para a esquerda da estrada nacional. Habitualmente é transitável por qualquer veículo mas se lhe parecer que assim não é, desmonte e siga a pé porque não caminhará mais de 20 minutos.

Lá em cima, muitos restos de muralhas abaluartadas, testemunho de uma das posições chave do flanco direito da Segunda Linha e uma vista soberba sobre o Tejo. No regresso ao cruzamento, se forem horas de refeição, siga para a Calhandriz e abanque na Adega Regional pois, entre polvo à lagareiro e coelho à caçadora, não se arrependerá.

Para ter uma ideia de um troço fortificado de cumeada dirija-se ao Centro de Interpretação de Bucelas, consulte o mapa da zona e veja como aceder à calçada militar que percorria a vertente norte da Serra de Sevres.

Aí poderá ver um troço de estrada militar, um pequeno forte em razoável estado e vários escarpamentos do rebordo do monte. Pode chegar pela mesma N118 subindo de Bucelas para Cabeço de Montachique e aí, logo ao começo da estrada para Fanhões, procure uma derivação empedrada à esquerda que segue pela curva de nível para leste e aventure-se a pé, a menos que disponha de um veículo todo-o-terreno. Pode ainda subir ao pico de Cabeço de Montachique (posto de vigia dos fogos) e daí apreciar o emaranhado de colinas onde o dispositivo defensivo se apoiava.

Outra possibilidade é tomar a estrada de Bucelas para Sobral de Monte Agraço (N115). Como vem de sul encontrará as indicações para o Forte Grande do Alqueidão antes do Sobral (onde, como se disse, funciona um pólo do Centro de Interpretação das Linhas de Torres). O referido forte era uma das principais obras defensivas do complexo e daqui costumava comandar o marechal Wellington. Várias mesas de interpretação ajudam a distinguir nas cumeadas a localização dos fortes vizinhos.

Finalmente, para ver o centro de comunicações das Linhas saia da A8 no nó 6 (Enxara do Bispo/Pero Negro) e procure a estrada secundária que contorna e depois sobe a serra do Socorro (bem visível a oeste da auto-estrada, coroada por uma capelinha branca). Aí, além de gozar a vista, poderá apreciar o mastro de sinalização ali colocado por ocasião das comemorações do bicentenário. Diz-se que uma mensagem, retransmitida pelas combinações de bolas coloridas e bandeiras içadas nos sucessivos postes, levava seis minutos a ir do Atlântico ao Tejo.

Ermida de Nossa Senhora do Socorro, na Serra do Socorro, em Enxara do Bispo, Torres Vedras (maio de 2002)

Ermida de Nossa Senhora do Socorro, na Serra do Socorro, em Enxara do Bispo, Torres Vedras (maio de 2002)

Nuno Botelho

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