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X-Files: Nasce o mito

Em “Séries com História”, às segundas-feiras na Vida Extra e com assinatura de Pedro Boucherie Mendes, o diretor de planeamento estratégico e diretor da SIC Radical escreve sobre “Ficheiros Secretos”

No tempo em que os animais falavam, a televisão servia-se em doses semanais de 45 minutos e esperar pelo episódio seguinte era parte do fascínio, já que até na televisão não era o destino que interessava, mas sim a viagem.

No início dos anos 90 foi pedida a um argumentista da Disney que desenvolvesse a ideia de uma série. Depois de várias recusas, a inspiração chegou do filme O Silêncio dos Inocentes e assim nasceu uma das séries mais importantes e relevantes da história da televisão: X-Files, em Portugal batizada de Ficheiros Secretos (melhor que no Brasil, onde era Arquivo X).

A ideia de ter investigadores (seja da polícia, do FBI ou de outra força policial qualquer) à procura de culpados de crimes não nova, mas Chris Carter deu personalidade atípica aos seus dois heróis. Fox Mulder gostava de ver pornografia e acreditava em extraterrestres e mantinha uma tensãozinha com Dana Scully (de que a televisão estava a precisar desde que Moonlighting com Bruce Willis acabara). Já a agente Dana Scully era cética como um cadeado e aparentava ser fria como um sorvete e foi inspirada em Clarisse Starling, que Jodie Foster interpretou em O Silêncio dos Inocentes.

Nos primeiros episódios da primeira temporada de X-Files, Mulder e Scully viviam na lógica “monster of the week”. Nesta designação cabem todas aquelas séries em que há um caso semanal que começa, é resolvido e tem o seu desfecho dentro do episódio. Nesta fase, a lógica de X-Files girava em torno do paranormal, mas a grande conspiração acerca do governo americano e dos aliens que seria o pano de fundo das temporadas seguintes, ainda não havia sido criada. Para se perceber bem, o homem com ar estranho e que surgia taciturno a fumar era um mero um extra que entrou apenas num episódio da primeira temporada, sem proferir uma palavra.

X-Files não foi um êxito massivo de público, mas revelou-se social e culturalmente muito importante, com um impacto que cresceria a cada ano. Vivíamos, convém lembrar, tempos em que só havia televisão generalista e clubes de vídeo. A personagem Dana Scully era médica e cientista além de agente federal e motivou um grande número de mulheres nos países em que a série foi exibida a seguirem carreiras nas chamadas ciências exatas. Interpretada pela atriz Gillian Anderson, Scully exsudava competência, presença e parecia totalmente “apta” a fazer o que fazia no enredo. A esta distância pode parecer bizarro, mas naquela época a agente Scully era a única protagonista feminina cientista, feminina, bonita e elegante e não uma excêntrica de bata branca fechada num laboratório que aparecia sempre de tubo de ensaio na mão.

Viva a Internet

Ficheiros Secretos estreou em 1994 e a sua influência depressa contagiou milhares de esquisitos e geeks que se tornaram fãs e coconspiradores usando uma coisa nova surgida nestes tempos chamada Internet. Talvez por ser uma série que misturava ficção científica com o universo do paranormal, assim que cada episódio era exibido, estes fãs interrompiam as suas outras obsessões e desatavam a escalpelizar, teorizar, explicar e especular entre si as incidências do que tinham acabado de ver. E assim, os episódios e os maneirismos estéticos e artísticos de x-Files, somados a estes exercícios especulativos do seu público criaram a primeira série com mitologia e verdadeiro impacto na cultura pop. Desde então, e como é sabido, muitas outras séries passaram a ter mitologias ou mundos próprios, ou explicações, teorias, teses e psicanálises dos enredos e personagens.

X-Files daria origem a dois filmes e a uma nova (e fraquita) vida recentemente, mas o seu lugar na história da televisão e da cultura popular das últimas décadas manteve-se a salvo. Será sempre uma candidata a série mais importante dos anos 90.

Terá sido tudo isto planeado? Na verdade, e como repito todas as vezes que consigo, não. Os programas de televisão aspiram somente a ter audiências por causa dos anunciantes, nunca a mudar o mundo ou a inventar a roda. Esta mitologia, assente numa grande conspiração que misturava segredos do Governo com extraterrestres nasceu porque a atriz Gillian Anderson ficou inesperadamente à espera de bebé e precisou de ficar ausente das filmagens durante algumas semanas. O que fizeram os argumentistas? Raptaram o personagem e mantiveram-na cativa durante grande parte da segunda temporada, criando assim a “backstory” conspirativa que vinha prenunciando apenas como exercício provocatório nos episódios precedentes.

Ficheiros Secretos foi exibida em Portugal em canal aberto na TVI nos anos 90 e ainda é um exemplo de televisão cujas recordações evocam aquela nostalgia quentinha que todos parecemos apreciar. A sua qualidade intrínseca seria larguíssima ultrapassada nos anos seguintes, mas é justo sublinhar que as melhores séries que temos tido desde então lhe devem alguma coisa. E ainda mais acertado sublinhar que muito do chamado culto por séries e a sua coloquialidade e a abundância de referências nos media e nas nossas conversas se deve muito ao caminho que a relação entre X-Files e os seus fãs começou a desbravar.

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