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Começar a namorar é como ter um novo leitor de VHS

O “Diário de um Pai Solteiro”, às segundas-feiras na Vida Extra, fala-nos esta semana sobre os benefícios das relações estáveis e duradouras

Acho que as pessoas são injustas quando me dizem que me tornei pessimista e cínico no que respeita ao amor e às relações. Gosto da ideia de uma relação estável e duradoura com uma mulher a viver junto comigo para sempre, por isso não entendo esse tipo de observações. Tenho apenas dificuldades com certos pormenores, como o da relação ser estável e duradoura. E da mulher viver comigo. Para sempre.

Mas tirando isso, gosto muito da parte de não ter de passar pela fase romântica de aprendizagem e descoberta mútua como quando se começa a namorar com alguém. Começar a namorar é como ter um novo leitor de VHS nos anos noventa e querer programar uma gravação no dia seguinte, tendo por ajuda apenas um manual em alemão. Experimentam-se botões e comandos, fazem-se experiências, anda-se para atrás e para a frente com a cassete e no fim ficámos com noventa minutos de ópera que passaram na RTP2 à uma da manhã em vez do Benfica Sporting da tarde seguinte.

Numa relação longa não há desilusões porque todos já sabem em que botões carregar e o que acontece. É tudo previsível. Uma relação ao fim de uns tempos é como um sistema operativo antiquado num computador demasiado velho para fazer uma atualização ou instalar aplicações novas. O utilizador desculpa-se dizendo “este serve para o que eu preciso”.

E acho isso mesmo bom e bonito. É algo que elogio nos meus amigos casados. Parabéns. É algo que eu valorizo nas relações estáveis e duradouras. Isso e a anestesia dos sentimentos. Quando temos 20 anos estamos numa excitação permanente com os sentimentos a pedir atenção. Cada nova relação é um continente por desbravar. Há ciúmes, há discussões, há sentimento de posse, insegurança, desejo, sofrimento, incompreensão, negociação, dor, frustração…

Nada como viver com essa pessoa uns anos para aplacar essa tempestade toda e assentar. Limar as arestas. Ambos convencem-se de que não merecem melhor e ficam juntos e os anos passam. Passam e passam e passam. Um dia olham-se ao espelho e perguntam-se a si próprios: “Quem sou eu? Mereço isto? Haverá algo mais para mim?”

Mas é só um dia. A vida continua e não é feita só de um dia. As relações estáveis e duradouras duram mais. De forma estável e duradoura. E ainda dizem que me tornei pessimista e cínico…

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