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Vida Extra

Uma cura de águas nas Caldas da Felgueira

Uma viagem aos saberes ancestrais dos romanos e às jóias da arquitectura termal oitocentista, não muito longe da terra natal do cônsul Aristides Sousa Mendes

Os romanos e os médicos oitocentistas sabiam o que faziam quanto recomendavam as águas termais para a prevenção e tratamento de uma série de doenças. Peçam conselhos a um médico da velha escola e ele não hesitará: Reumatismo? São Pedro do Sul! Sinusite? Caldas da Felgueira! E, consoante a região ou a patologia, lá virão Caldelas, Entre-os-Rios, Luso, Curia, Monfortinho, Monchique…

Foi exactamente da Felgueira, 4 km a sul de Nelas, que me tornei frequentador habitual, pelo menos uma semana por ano. As águas da nascente, referida em 1758 como de Vale de Madeiros, têm múltiplas virtudes mas revelam-se particularmente eficazes para problemas respiratórios, desde triviais sinusites e rinites à asma ou doença obstrutiva crónica.

Exploradas desde 1882 ganharam fama e começaram a atrair visitantes. Em 1937 no Anuário da Associação dos Médicos Portugueses descreviam-se as caldas como um “estabelecimento hidroterápico completo”, dotado de “aparelhagem moderna para banhos de bolhas de ar”. E para quem tivesse dúvidas citava-se o dr. Manuel Bento da antiga Escola Médica de Lisboa, apresentado como o maior clínico do seu tempo: “Por mais tapada que seja a rinite, por mais rouca que seja a faringite, por mais dispneica que seja a bronquite, a Felgueira dá melhoras certas e curas tão admiráveis como as mais famosas de Cauterets [estância termal dos Pirenéus franceses] ”. O Grande Hotel Club era descrito como tendo “alojamento para 250 pessoas, diárias de 25 a 40$00 e tratamento de primeira ordem”.

Aqui cheguei vindo de Coimbra depois de percorrer o IP3 até às proximidades de Santa Comba e o IC12 até Canas de Senhorim. Oportunidade para comparar as recordações de há um ano, logo após os incêndios de 15 de Outubro, e as impressões actuais. Duas conclusões ressaltam: por um lado, as feridas na paisagem começam a sarar, ainda que a regeneração espontânea da vegetação faça recear novas tragédias se não houver um esforço de ordenamento florestal; por outro lado, há uma excepção neste quadro de cicatrização: o troço do vale do Mondego coincidente com as Caldas da Felgueira, onde as encostas cheias de troncos enegrecidos continuam a marcar fortíssima e deprimente presença.

Termas Caldas de Felgueira

Termas Caldas de Felgueira

Divulgação

De carrinha e cheio de bagagem

Cheguei aqui a bordo de uma carrinha Opel Insignia Country Tourer, o que significa que, nem me faltou espaço na mala para os carregos de uma semana nas águas (bagageira de 560 litros), nem demorei uma eternidade desde Lisboa. Conforto irrepreensível, motor de dois litros de cilindrada que, com 170 cv, chega e sobra para as rampas do IP3. E um consumo compatível com um carro de cinco metros: nunca menos de 6,9 l/100 km mas também nunca muito mais. De gasóleo, claro, pois ainda não se inventou melhor motorização para viajar (a questão da poluição em meio urbano é um caso diferente mas quando se vêem em Lisboa ou Porto as frotas de transportes, distribuição e os táxis praticamente todas a diesel fica-se a pensar que algo não bate certo, nem no discurso dos inimigos do gasóleo, nem nas políticas oficiais). Preciosos nesta carrinha Opel, os faróis inteligentes com luzes LED, capazes de funcionar sempre em máximos mas sem nunca encandear o próximo.

Mas deixemos o carro, agora devidamente estacionado, e voltemos às termas. Costumamos olhar para as falhas tectónicas como uma fonte de risco, nomeadamente sísmico. Melhor que eu os especialistas em geologia explicarão que não é necessariamente assim. Mas uma coisa é certa: as termas são um benefício indirecto da tectónica. Ao longo de duas das principais falhas do território continental português multiplicam-se as zonas termais. Relacionadas com a Falha da Vilariça (Bragança-Celorico-Manteigas) avultam as termas de Longroiva (Meda), Fonte Santa (Almeida), Crô (Sabugal) ou Manteigas. E na esteira da falha Verin-Régua-Penacova orientada de NW para SW temos, entre outras, Gerês, São Pedro do Sul, Alcafache, Sangemil, Felgueira, Luso ou Curia.

O Opel Insignia Country Tourer junto ao Grande Hotel das Caldas da Felgueira

O Opel Insignia Country Tourer junto ao Grande Hotel das Caldas da Felgueira

Rui Cardoso

Águas das profundezas

O mecanismo que explica muitas destas nascentes termais é simples. A água das chuvas penetra através dos granitos superficiais fracturados pela erosão, infiltra-se em profundidade, circula, aquece, enriquece-se quimicamente, sobretudo em enxofre, e volta a emergir através de outras fendas na mole rochosa.

Visto de fora, um tratamento termal às vias respiratórias pode parecer caricato. Imagine-se o leitor metido numa sala de nome sinistro, o emanatório, onde no meio de um calor e de um nevoeiro infernais se vislumbram alguns fantasmas em trajes menores a passear em torno de um redondel, quais sísifos termais condenados ao castigo eterno. Na verdade, o acto chama-se nebulização colectiva e é uma espécie de super banho turco. Não menos divertida, a irrigação nasal que nos transforma em golfinhos, sereias, dragões ou outros animais lendários como aqueles que costumam estar nas fontes a deitar água, neste caso por uma narina, já que na outra está aplicada uma infatigável mangueira que debita líquido morno, sulfuroso e levemente salgado.

Uma das melhores coisas dos tratamentos termais é que nos deixam a maior parte do dia livre. Isso permite, por exemplo, dar uma passeata a pé pelas Caldas da Felgueira, ir ao Quiosque Sombrinha dar dois dedos de conversa e descobrir à venda um livro com a evocação da vida dos trabalhadores das vizinhas minas de urânio (“Vida Dura” de Carlos Jorge Mota Veiga, edição do autor apoiada pela Fundação Lapa do Lobo e pela Associação dos Ex-Trabalhadores das Minas de Urânio).

Também se pode (e deve) apreciar a arquitectura termal, como o belo balneário oitocentista da Felgueira. O gosto é revivalista, com ameias a coroar as fachadas, cunhais de pedra aparelhada e molduras igualmente em pedra nas generosas portas e janelas. Foi desenhado em 1883 por Rodrigo Berquó, o mesmo arquitecto das Caldas da Rainha. Por ocasião das obras de modernização em 1995 houve o bom senso de manter a traça exterior e a volumetria. No interior mantiveram-se os azulejos geométricos em dois tons.

Como a sociedade se democratizou, ao contrário do balneário oitocentista já não há entradas diferenciadas para pessoas de diferentes estratos sociais. No interior, uma série de vitrinas mostra uma colecção de objectos ligados à história termal: pipetas, máquinas eléctricas, receitas médicas, livros de contabilidade, análises químicas, etc.

Histórias de refugiados

Não menos interessante e contemporâneo, o vizinho Grande Hotel das Caldas da Felgueira, explorado pela mesma empresa do balneário. É um típico hotel oitocentista de termas, na linha dos seus congéneres de Caldelas (Amares),Vidago ou Curia. E onde se passaram histórias curiosas, como a de ter alojado, já depois da II Guerra Mundial terminada, em Maio de 1945 na Europa, umas largas dezenas de mulheres e crianças alemãs e italianas, familiares de diplomatas do Eixo que aguardavam a clarificação da sua situação.

Como contou na revista do Expresso a historiadora Margarida Magalhães Ramalho, nada faltou neste enredo: nem o facto de ter sido o orçamento da PIDE a pagar as despesas da estada de toda esta gente, nem um romance tórrido envolvendo um agente da polícia política e uma das alemãs mais jovens.

É sabido que Portugal se distinguiu durante o período histórico em causa pelo acolhimento (de boa vontade ou a contragosto, consoante se tratasse de pessoas comuns ou de governantes) de refugiados fugidos à barbárie nazi. A uma dezena de quilómetros da Felgueira fica Cabanas de Viriato, terra natal de Aristides Sousa Mendes, o cônsul que ousou desafiar Salazar em 1940. Passou milhares de vistos que salvaram, tanto gente anónima, como governantes no exílio, aristocratas, actores ou militares dos países ocupados.

Símbolo do castigo impiedoso aplicado pelo ditador e que reduziu o diplomata à miséria, privado de boa parte do salário e proibido de exercer advocacia, a Casa do Passal, residência da família Sousa Mendes, esteve décadas em ruínas. Recuperada pela Câmara de Carregal do Sal e pela administração central em 2014 foi devolvida à sua dignidade e em breve funcionará como museu (é monumento nacional desde 2011).

Passeio na natureza

Bem perto de Cabanas de Viriato fica a aldeia de Beijós, ponto de partida de um dos vários passeios pedestres criados pela autarquia e no decurso do qual se podem percorrer caminhos ancestrais, ver antiquíssimas sepulturas cavadas na rocha, toscas lagaretas em pedra ou alminhas, testemunhas da religiosidade popular. Tudo numa zona rural, onde se pode respirar ar puro e ouvir cantar a passarada ao desafio. É o Percurso Patrimonial de Chãs que vos aconselho a fazer. Não darão o vosso tempo por mal-empregado e encontrarão todas as informações no museu municipal de Carregal do Sal e no folheto explicativo aí distribuído.

A bordo da Opel Insignia Country Tourer percorri outros caminhos, estes na direcção do vale do Côa e dos castelos medievais que o defendiam e de que vos falei na crónica anterior. O carro mostrou-se cheio de boas surpresas. Tranca-se automaticamente uma vez estacionado, o que é uma bênção para condutores distraídos como o autor destas linhas. A câmara que auxilia nas manobras de marcha atrás também ajuda a detectar tráfego lateral ou peões que doutra forma poderiam ficar ocultos. São projectadas na face interior do pára-brisas informações importantes como a velocidade real e os limites da sinalização, o que nos permite manter os olhos onde

devem estar, ou seja, na estrada (head-up display). Pena que não custe tanto como um utilitário mas seria difícil que assim fosse, já que se trata do topo de gama do fabricante germânico, pensado para concorrer com as marcas de luxo. A versão ensaiada custa à volta de € 47 mil.

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