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Apple, mais do mesmo em bom - sem revoluções

Na quinta crónica de “Futuro Extra”, às sextas-feiras no Vida Extra, o editor de novas tecnologias da SIC fala sobre as mudanças paulatinas que a Apple faz nos seus produtos

Novo evento Apple e já sei o que acontece. Vou ouvir o mesmo de sempre de um amigo meu, que não trouxeram nada de novo. Vamos lá ver o que trouxeram, ainda sem experimentar, e já voltamos ao meu amigo.

Desta vez foi num cenário não habitual, uma sala icónica em Nova Iorque, a Brooklyn Academy of Music. Tim Cook começou por dizer que estavam ali numa homenagem aos artistas e criadores. Digo eu que era sobretudo aos artistas e criadores que usam Mac, como se viu no belo vídeo que mostraram quase no início.

Novo Macbook Air, há muito que quem usa a marca esperava por isto. Tim Cook recordou - e bem - o momento em que Steve Jobs puxou um computador portátil de dentro de um envelope comercial, aquele tradicional com o cordelinho a prender. O som que aquela sala fez não terá sido único nas apresentações de Jobs, mas é no mínimo raro o grau de espanto em que a plateia ficou.

O MacBook Air, de facto, redefiniu a noção de portátil. Mesmo desatualizada, não há ninguém que não fixe o olhar nesta espetacular peça de design. Faltava atualizar, e aí está o novo MacBook Air, sobretudo com um ecrã muito melhor, e som, e memória, e teclado, enfim muitos detalhes para o tornar novo. O preço também atualiza para cima, claro. Conforme as configurações de 1.379,00 € a 3.125,13 €.

Detalhe a que vou ter que voltar: uma ligação Thunderbolt compatível com USB-C que parece marcar mais uma reviravolta nas ligações a periféricos.

Parece o mesmo, mas não. É melhor, mais potente e mais caro

Parece o mesmo, mas não. É melhor, mais potente e mais caro

Apple

Depois de uma apresentação que, se foi muito bem feita, não parecia da Apple. Filmar um Mac mini como se fosse um disco voador, ocultando a imagem completa, fazendo parecer um engenho gigantesco, até que o vemos pacificamente pousado numa secretária, foi interessante mas não é com filmes destes que recuperam a magia das apresentações de Jobs.

É preto, é bonito, é estupidamente mais poderoso que a geração anterior, mais um dos ícones da Apple que estava a precisar de uma valente remodelação. Está feito e custa de 919,00 € a 4.996,98 € sem incluir nenhum dos pacotes de software que podem ser pré instalados e, claro, é preciso comprar ecrã, teclado e rato ou usar o que já tenha.

Ligações não lhe faltam, mas é tudo extra

Ligações não lhe faltam, mas é tudo extra

Apple

E finalmente o iPad Pro, o lançamento mais interessante. E também é uma atualização. Melhor ecrã, memória entre 128Gb e 1 Terabyte e francamente mais fino. Quem lá esteve na apresentação em Nova York diz que a sensação é mesmo a de agarrar um ecrã. Mantém os dois tamanhos, mais ou menos.

O ecrã mais pequeno, de 10,5 polegadas, passa a 11, mas a máquina tem a mesma área, a borda é que diminui. O maior, de 12,9, fica com o mesmo tamanho de ecrã, mas o aparelho fica mesmo mais pequeno, mais uma vez a borda é que diminui. Como seria de esperar perdem a tradicional ligação aos auscultadores. Têm identificação facial e fiquei muito contente por ver que funciona em qualquer posição, quer dizer, que se tivermos o ecrã voltado para nós não precisamos de lhe dar uma orientação especial para que possa ler a nossa cara.

Para quem tem iPhone isto pode parecer óbvio e banal, mas há tablets Android que exigem que coloquemos o ecrã alinhado numa determinada posição com a cara para que a identificação funcione. Se funcionar tão bem como a do iPhone é caso para esquecer, ou seja em circunstâncias normais nem damos por ela, está lá e funciona à velocidade da luz. Mais um indício para a minha teoria de que a Apple escolheu o seu caminho e não vai voltar à impressões digitais, embora o novo MacBook Air ainda funcione com o dedinho. Novos processadores tão potentes que os comparam com os melhores dos computadores portáteis e o preço é a condizer - por cá começa nos 900 euros e pode ultrapassar os 1700.

Os números enganam - os dois iPad são mesmo diferentes entre si, e eu continuo a preferir o pequeno.

Os números enganam - os dois iPad são mesmo diferentes entre si, e eu continuo a preferir o pequeno.

Apple

Um novo lápis acompanha este iPad Pro, ou antes, pode ser comprado à parte para lhe fazer companhia por mais 135€. Também fazia falta atualizar o lápis, tem novos e melhores gestos, e tem uma ligação magnética ao iPad, como nos Surface da Microsoft, mas com um acrescento muito relevante. Carrega sem fios nesta posição de descanso. Pode ser que faça esquecer a primeira versão do lápis, que para carregar ligava a ponta de trás ao iPad, das coisas mais estranhas e pouco funcionais que a Apple fez. Vale a pena dizer que se quiser usar teclado também tem que comprar e, se for português, custa 199 €, que é como quem diz 200 euros para o iPad Pro de 11”, e mais 20€ se tiver de 12,9.

Volto então ao USB C: o iPad Pro tem USB C e não a ficha lightning proprietária da Apple. O facto de isto acontecer no novo MacBook Air e no novo iPad Pro (e pode mesmo carregar por USB C) parece uma indicação de que a Apple pode ter-se rendido ao novo standard que está a ser usado em todos os Android e em cada vez mais acessórios. Faria sentido, o USB C tem mostrado funcionar muito bem, é fácil de ligar e tanto pode ser usado para carregamento como para ligação a periféricos.

E agora vou voltar ao meu amigo. Ele tem razão que a Apple cada vez mais faz lançamentos sem grandes revoluções. Parece que isso desilude muita gente. Eu acho que uma revolução de vez em quando é mais saudável, dando algum tempo para aperfeiçoar as coisas pelo meio. Entre os três iPhones que saíram este ano, que são todos uma atualização do X, e estes lançamentos, todos aperfeiçoamentos de coisas que existiam e funcionavam, este foi sem dúvida um ano de atualizações para a marca. Mas com a abertura da gigantesca nova sede e uma capitalização bolsista que a colocaram temporariamente como a empresa mais valiosa do planeta, parece estar a funcionar.

Nota: O maior aplauso de toda esta apresentação? O momento em que se percebeu que os novos iPad e MacBook são construídos com alumínio reciclado.

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