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O tal canal: Durante quase 20 anos, Herman José foi o maior português vivo

Em “Séries com História”, às segundas-feiras na Vida Extra e com assinatura de Pedro Boucherie Mendes, o diretor de planeamento estratégico e diretor da SIC Radical, escreve sobre “O Tal Canal”

Antes de Herman houve Eu Show Nico, a Prata da Casa, O Resto são Cantigas e Sabadabadu. Ou melhor dizendo, houve Nicolau Breyner, voltou a haver Raul Solnado, Carlos Cruz, Fialho Gouveia, Camilo de Oliveira e Ivone Silva. A RTP passou a emitir a cores em 1980 com a transmissão de um retumbante festival da canção vencido pelo Grande, Grande Amor de José Cid e certas engrenagens nunca mais pararam nos dois canais públicos. Ainda não tinham passado dez anos desde o 25 de abril e as tardes de domingo do canal 1 foram conquistadas por um viajado, ambicioso e dinâmico apresentador bastante mais alto do que a média nacional chamado Júlio isidro. O Passeio dos Alegres talvez tenha sido este o primeiro programa moderno da televisão portuguesa para o grande público, naquele sentido de se ter desamarrado da cassete revolucionária que contaminava todo e qualquer segmento de todo e qualquer programa de variedades ou humor. Visto de longe, Solnado, Breyner e a extraordinária Ivone Silva eram francamente talentosos e o público adorava-os, mas viria a ser um dos múltiplos personagens recorrentes de Passeio dos Alegres o verdadeiro, incontestado e unânime rei da televisão portuguesa nas duas décadas seguintes.

Os portugueses conheciam Herman José como conheciam dezenas de outros artistas que ascendiam à televisão na onda que (re)converteu o nosso star system do Salazarismo e Marcelismo para a Democracia. Na segunda metade dos anos 70, os artistas e apresentadores para irem e estarem na televisão só tinham de repetir as palavras “povo” e “liberdade” e em especial “camarada”. Acho (mas não tenho a certeza) que Herman nunca perdeu muito tempo com jargão, embora também porque surgia como sobretudo como parceiro de Nicolau Breyner na dupla Senhor Feliz e Senhor Contente.

O tal

Nos primeiros anos da década de 80, Herman canta a Canção do Beijinho, estreia-se na rádio (A Flor do Éter) e concorre ao Festival da Canção, sempre com um pé na lealdade aos seus parceiros de ofício no Parque Mayer (Herman foi sempre publicamente muito grato e amigo dos outros artistas, de todas as áreas) e o outro pé numa diferenciação a que chega em definitivo em finais de 1983 e dura até aos dias de hoje.

Os doze episódios de O Tal Canal, o seu primeiro programa a solo, foram emitidos no primeiro canal da RTP entre outubro de 1983 e janeiro do ano seguinte, e chegaram numa altura excitante na televisão portuguesa apesar do país estar atordoado pela intervenção do FMI e estar a ser governado por um bloco central PS-PSD. A RTP podia mudar com frequência as administrações e direções, mas programas como Os Jogos Sem Fronteiras e o Festival, séries como Fame, Barco do Amor ou Hill Street, sucessivos filmes e novelas brasileiras de qualidade além do prodígio que foi Vila Faia, exibida a meio de 1982, criavam a ideia que Portugal tinha uma grande televisão só com os dois canais.

Mas O Tal Canal foi outra história. A sofisticação criativa deste programa de humor em sketches, o seu cosmopolitismo e ritmo internacional, bem como o rasgo e um impressionante domínio do meio televisivo na edição, jogo de câmaras, sequência dos segmentos, linguagem vídeo, seriam suficientes para o país ter ficado boquiaberto com a proeza de Herman e alguns acólitos, mas a verdade é que O Tal Canal foi muito mais do que isso. Revendo hoje o programa – que está no YouTube ou de acesso livre no Arquivo da RTP online – entende-se de imediato que O Tal Canal era bastante subversivo, fartando-se de fazer pouco do então modo português de ser artista (sérios, revolucionários, cultíssimos, empenhados em educar o povo), maroto avant la lettre – a rubrica de culinárias chamava-se “Cozinho para o Povo” - e muito perspicaz no captar de um país que ainda há oito anos vivia em ditadura e se modernizava através da Dança Jazz, do boom do rock português, das Doce ou de Carlos Paião. Era assumidamente um país a cores, que já ouvia falar frequentemente da CEE nas notícias, mais ou menos alheado da Guerra Fria que Reagan começava a vencer, vidrado em novelas a Globo e com a miudagem obcecada com os jogos do ZX Spectrum.

À época os programas que chamamos de entretenimento, diziam-se de variedades. O Tal Canal era exibido logo a seguir a um telejornal de meia hora, pelas oito e meia da noite e era um programa para toda a família. Não havendo medição de audiências e concorrência com outras televisões, Herman poderia ter feito praticamente o que quisesse e sobretudo correr poucos riscos. Bastava-lhe ser revisteiro, fazer humor antipolíticos e coletivista ou com anedotas. Só que aos 29 anos e por motivos que só ele saberá, optou por um sketch show que parodiava um canal de televisão, glosando várias figuras então relevantes (Filipa Vacondeus, Carlos Pinto Coelho, as locutoras de continuidade), metendo-se abertamente com o futebol e os seus protagonistas José Estebes), fazendo caricaturas irresistíveis de músicos parolos (Tony Silva) e expondo o ridículo dos pós-modernos (o segmento de moda e rivalidade feminina Jaquina, Jaquina, Jaquina é do melhor humor que alguma vez surgiu na televisão portuguesa).

E não é que Herman sai incólume disto tudo? O Tal Canal foi um êxito tão grande que o humorista se torna uma presença regular na televisão portuguesa e um dos primeiros milionários não herdados que o país conheceu: nos anos seguintes o país gramou-a o exibir os seus carros, barcos e relógios, sem que a inveja geral e habitual se manifestasse por ai além.

Pode ser difícil de acreditar, mas para quem era criança no 25 de abril e cresceu pelos anos 80 e 90, Herman José era “o” génio e o alfa e o ómega da televisão popular e da de qualidade. Não havendo nada a não ser dois canais – e depois mais dois em 1992 – os programas de Herman José eram uma espécie de património nacional que se aguardavam de tempos a tempos e inspiraram quase todos os mais talentosos (e até os menos) argumentistas e humoristas que hoje têm mais de 30 anos, muitos dos quais escreveram para ele. O Tal Canal foi a primeira série portuguesa simultaneamente alinhada com a contemporaneidade daquela era e feita para todos.

A vida moderna

A ideia intuída que se podiam criar coisas além da cartilha pós-revolucionária e começou por ali. Se Passeio dos Alegres era um típico contentor à brasileira (um apresentador num mesmo cenário com várias rubricas, jogos e passatempos), o Tal Canal era mais anglo saxónico na forma e no conteúdo e, acredito, ajudou e muito Portugal a estar mais perto de um modo de viver europeizado. Afinal era possível ser inteligente e fazer humor ao mesmo e era possível fazer jogos de palavras e caricaturar sem palavrões e humilhações. O Tal Canal também era bastante “camp”, mas isso fica para outra história.
Naquele tempo Portugal era realmente pobre, as poucas estradas eram esburacadas, os médicos e dentistas caros e escassos, havia fome na zona de Setúbal, salários em atraso por todo o país e vivíamos com um grupo ativo de terroristas, as infames FP 25 de Abril. Poucos anos depois seria feita a adesão à Comunidade Europeia e logo de seguida Cavaco Silva começava a sua longa temporada como primeiro-ministro.

Nos anos seguintes, Herman teria novos programas (Hermanias e Humor de Perdição e depois Herman Enciclopédia etc) nos quais manteria bem alto o seu humor, capacidade de criar personagens e em especial o seu imbatível talento para ler a sociedade em que vivia. Num país maior e talvez mais grato o alemão Herman José – que nunca pediu a nacionalidade portuguesa – teria tido direito a algumas biografias sérias e os seus programas, personagens, sketches estariam disponíveis em várias edições de DVD de luxo. Se tivéssemos intelectuais interessados em cultura popular urbana, talvez alguém o tivesse investigado e relacionado com as mudanças na sociedade portuguesa dos anos 80 e 90 e primeiros anos de 2000. Pelo menos na minha opinião – e sem menosprezo para outras manifestações culturais - foram de Herman e do seus parceiros atores e argumentistas, os principais lubrificantes sociais, bordões, temáticas, polémicas e momentos do mais puro e saudável entretenimento daquela era. Que não tenha um teatro, cineteatro teatro, prémio de Humor, o que for, com o seu nome é bizarro e injusto.

Se houvesse um museu da televisão portuguesa, Herman mereceria uma ala só para ele.

O que é que aconteceu então? Uma coisa mais simples do que parece: acredito que acima de tudo Herman seja um profissional, alguém para quem o trabalho é um meio e não um fim. Quando a TVI começou a morder fortemente os calcanhares à SIC, Herman aceitou abastardar o seu programa de então na SIC em busca de audiências, ou seja, receitas para quem o tinha contratado, deixando eventuais pruridos artísticos de lado. Se do ponto de vista do seu empregador fez a coisa certa, vestindo a camisola da empresa e fazendo algo que os portugueses tanto dizem valorizar, é inegável que essa cornucópia de momentos de horror durante alguns anos corroeu algum do seu legado artístico e afastou-lhe público. Mas não era o próprio Tony Silva que avisava em 1983 que o “verdadeiro artista” era tudo e o seu contrário?

Uma inevitável descida das audiências dos seus formatos –porque o espetador foi tendo mais escolhas e porque as gerações se renovam - remeteram Herman para a RTP, onde é hoje mais conversador que humorista e cuja relevância o país não parece notar se tivermos em conta as audiências do seu formato atual.

O que é bem verdade é que quem o segue no Instagram percebe que muito do seu brilho e inteligência aguçada, bem como um enorme sentido crítico e de ridículo permanecem luminosos como uma estrela.