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Vida Extra

De aplicação em aplicação lá chegaremos

Na quarta crónica para a Vida Extra, sempre às sextas-feiras, a jornalista Cristina Margato na pele de Winnie desabafa: "Os especialistas valem pouco desde que as redes sociais se afirmaram”

SEACAT

Querido Willie,

Tenho de te contar um episódio que parece não ter qualquer importância, mas sobre o qual tenho andado a pensar. Há uns tempos um amigo perguntou-me se eu conhecia uma discoteca em Lisboa, numa área onde não há discotecas. Uma “amiga” dele estrangeira, encontrada na aplicação de encontros Tinder, tinha uma noite para sair em Lisboa e queria ir a essa discoteca. “Uma noite para sair, e queria ir a uma discoteca num lugar que nenhum lisboeta minimamente informado conhece?”, espantei-me. “Sim, diz que está muito bem avaliada numa aplicação.” “Numa aplicação?”, respondi-lhe. “Oh pobre amigo, esquece essa potencial amiga!! Acredita mais numa aplicação do que num alfacinha de gema, noctívago com tu!” A história passou, e ficamos sem saber se se tratava de uma história parecida como aquela do melhor restaurante em Londres, segundo uma aplicação conhecida e com centenas de ‘reviews’, que nunca chegou a existir.

Umas semanas depois, um casal de amigos, que não conheci no Tinder, veio visitar-me. Combinamos jantar perto da minha casa, sítio onde eles estavam a dormir, mas como estava atolada em trabalho esqueci-me de lhes sugerir um local. Eles anteciparam-se e vieram com a ideia de ir a um restaurante à frente do qual eu já tinha passado mil vezes, mas ao qual eu não tinha dado qualquer atenção, por me parecer muito pouco interessante. Disse-lhes que não fazia ideia da sua qualidade, e tentei sugerir outro: “Ah, mas este aparece muito bem cotado no TripAdvisor...” Convicta de que a opinião de uma alfacinha, ancorada no coração da capital, ainda tinha importância, insisti na minha opção. Foi aí que percebi que a proposta deles não era bem uma sugestão.

Num tom delicado e muito assertivo (e talvez nórdico, tendo em conta que são suecos), os meus amigos disseram-me: “Mas nós queremos lá ir. Tem tapas e nós gostamos de tapas.” Tem tapas? Ainda se fossem petiscos... Willie, por segundos, questionei-me: “Julgavam-se eles em Espanha?” Cedi à assertividade, não querendo estragar-lhes uma das poucas noites disponíveis em Lisboa, obrigando-os a ir a um restaurante a meu gosto.

É irrelevante dizer que os meus amigos reconheceram que o meu instinto estava certo, que o restaurante não merecia grande atenção, tendo em conta que no dia seguinte já estavam noutro restaurante sugerido pelo TripAdvisor. Foi nesse momento que comecei a repensar no papel de anfitriã e cicerone. Afinal os meus amigos já nem confiavam no meu gosto para escolher um restaurante no meu bairro.

Willie, não tenho nada contra as aplicações, ainda que me irrite com o facto de as pessoas usarem o Google Maps de modo a evitarem o contacto com a primeira pessoa com quem se cruzam na rua. Mas tudo isto só vem confirmar a ideia que já tinha antes, de que os especialistas valem pouco desde que as redes sociais se afirmaram.

Foi aliás, por isso, Willie, que o jornal que lês perdeu importância nos últimos tempos, que os suplementos culturais quase acabaram em todo o mundo, que a crítica teatral, de exposições ou de livros quase foi erradicada da imprensa, e substituída por narrativas subjetivas mais parecidas com aquelas respostas que damos ao Facebook: “Em que estás a pensar?” Ora, eu estou a pensar nisto, como, aliás, te digo logo no início desta cartinha. Estou também a pensar que as redes sociais permitem contornar os especialistas e propagar mentiras.

Do alto da ignorância, Willie, todos nós passámos a saber tudo sobre tudo. Através de uma simples soma, percebemos que a minha opinião somada à tua, e à do outro, e à do outro, dará uma média de gosto. A bom termo, tudo resultará numa fórmula matemática que serve até para casar (há quem só case por OkCupid, aplicação que há anos faz aquilo que o “Casados à Primeira Vista” da SIC está a fazer). Os algoritmos (ainda que invisíveis) estreitam a nossa vista. Tornam-nos menos abertos, menos tolerantes à diferença.

Quase 20 anos depois da Internet se ter tornado parte da nossa vida vivemos viciados em aplicações. Temos aplicações para tudo. Para deitar, para acordar. Respirar. Sim, Willie, para inspirar e expirar. Para fazer ginástica. Para evitar estar perto dos outros. Para estar com os outros. Para saber como está a maré. Para contar os passos que demos hoje.

De aplicação em aplicação, viciados em números, reduzimos o risco e a aventura da nossa vida. Podemos garantir que somos XX% liberais, XX% conservadores. XX% de esquerda, XX% de direita. Somos mais ou menos populares, e até podemos comprar o número de seguidores que temos, a percentagem de “match” que teremos com um potencial namorado, como acontece no OkCupid ou no “Casamentos...” da SIC.

É, por isso, Willie, que aquele episódio da série “Black Mirror”, sobre a aplicação que serve para medir o nosso estatuto e logo os direitos que temos, baseada nos comentários e nas avaliações feita por outros, é tão perturbante (na China, de resto, já é usada, para atribuir créditos bancários). É perturbante porque parece que aquela realidade é aqui e agora, que de aplicação em aplicação lá chegaremos…

Esta semana, como não podia deixar de ser, envio-te uma fotografia de Lisboa.

E já agora, e bem a propósito, sugiro-te que vás ao DocLisboa. Não percas “The Raft”, documentário sobre (provavelmente) a primeira experiência social que criou um “Big Brother” para estudar a violência.

Até para a semana, Willie,

Carinhosamente,

W.