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Vida Extra

“A Rede. Imagina-te prisioneiro nas malhas de uma rede”

Na segunda crónica de “Dias felizes”, às sextas-feiras no Vida Extra, a jornalista Cristina Margato volta a assumir o papel de Winnie para escrever uma carta a Willie.“Andámos meio século com medo de um botão que desencadeasse uma guerra nuclear, para agora não temermos outro botão que nos torna tão primários quanto eram os espectadores ou os imperadores dos circos romanos”, escreve desta vez

Seacat

Querido Willie,

Terei de começar por algum lado, mas não é fácil. Esta semana foi negra. Espero não me lembrar dela daqui a alguns anos como o princípio de algo terrível. Eu sei, eu sei, o otimismo é a minha lei, mas há momentos em que até gente como eu pode duvidar do caminho do mundo. Perguntarás: o que me aconteceu? Pois, a mim nada, ou quase nada. Aos outros, não sei bem o que está prestes a acontecer. Mas não nos podemos incomodar apenas quando nos vêm buscar a nós, não é? “Primeiro vieram buscar os ciganos”, já dizia Brecht.

Acredita, eu bem queria dizer “Ah este vai ser um dia feliz!!” É difícil. Não imaginas o que tenho lido por aí acerca das mulheres, culpadas de todos os males do mundo, e até dos deslizes e das barbaridades dos homens.

Homens e mulheres acham que aquelas que sobem a um quarto de hotel de um homem são sempre putas provocadoras, prontas a desviar a cada esquina os homens dos seus afazeres, a desencadear neles a violência, a agressão, o sexo vil, subjugador, e se são de facto putas até a violação merecem. Pelos vistos, há por aí a ideia de que sobram Evas decididas a expulsar o pobre homem inocente e ingénuo do reino dos deuses para lhe extorquir todo o ouro da terra... Pensava que a ameaça à integridade feminina vinha de outras paragens e religiões, e que por cá já tínhamos atingido algum nível civilizacional. Pois, foi uma ilusão, Willie.

Quando Beckett nos criou, a mim e a ti, há 60 anos, pôs-te a ler o jornal, quase mudo. A mim, a remexer na minha carteira onde, como sabes, guardo, entre outras coisas, um revólver: o Brownie.

Hoje, Beckett provavelmente já não te poria a ler um jornal, querido Willie. Estarias a olhar para um smartphone ou para um tablet, onde lerias não o jornal, mas o Facebook ou outra qualquer rede social. Falarias ainda menos. E eu, se calhar, teria igualmente menos para dizer, porque também eu teria um smartphone na mão, em vez de um batom ou de uma escova de dentes.

Já o revólver, nem imaginas, usá-lo-ia pendurado ao pescoço como uma joia, como vi uma comentadora de política fazer na televisão. Seria um sinal de afirmação de um tempo que parece um faroeste.

Querido Willie, no Facebook, espécie de mundo atual, as emoções não se escoam nas palavras. Mas num botão. Sim, no botão que carregamos para dizer que estamos felizes, tristes, surpreendidos, que adoramos qualquer coisa, ou que nos sentimos chocados. Também há um desenho de um polegar, que viramos para cima como um imperador romano, para dizer que está tudo ok. Ao carregar no botão, despejamos as emoções, e passamos a viver apenas delas. Esquecemo-nos da razão, da verdade. Só queremos saber daquilo que nos faz sentir bem. Evitamos o confronto e, ainda assim, continuamos infelizes. Há sempre alguém nesse pequeno ecrã a dizer-nos que a nossa pequena vida não é suficiente. O pior nem é a insatisfação ou o mecanismo da inveja que desperta essa rede. O pior é a mentira.

Não quero atribuir todas as culpas ao mesmo inimigo, mas a verdade é que o Facebook e outras redes sociais têm ajudado a eleger gente muito estranha, como é o caso de Trump (homem sem noção alguma de serviço público) à custa de mentiras estapafúrdias que se espalham, levadas pelos tais botões de que te falei, e pelas respetivas emoções primárias a que correspondem. Chamam-lhes “fake news”, mas são a verdade que milhões desejam. O nosso querido Beckett teria de rever a ideia de absurdo, se espreitasse para dentro dessa coisa chamada Facebook, onde a mentira tomou o lugar da verdade, e onde a democracia se perde.

Andámos meio século com medo de um botão que desencadeasse uma guerra nuclear, para agora não temermos outro botão que nos torna tão primários quanto eram os espectadores ou os imperadores dos circos romanos que condenavam à morte o gladiador mais vulnerável para fazer viver o mais vil de todos.

Willie, para teres a noção do problema, há um país, o Brasil, que pode eleger um ditador. Sim, um ditador. Leste bem: eleger. Se isso acontecer, o que é provável , este ditador será eleito por voto popular, direto, democrático, sem engodo no discurso, sem disfarce, anunciando a execução do tipo de medidas que os ditadores costumam esconder: a suspensão de direitos humanos e da liberdade, a perseguição dos mais frágeis, a esterilização dos deficientes. Nunca a linguagem dos políticos foi tão real. Acreditas, Willie? Ocorre-me o que diz Saramago num dos seus Cadernos de Lanzarote, dos quais agora podes ler o último, relativo ao ano de 1998, o do Nobel: “A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza.”

O botão, coisa moderna. A rede, coisa antiga. “A Rede. Imagina-te prisioneiro nas malhas de uma rede”, já dizia o nosso estimado Pozzo, em “À Espera de Godot”

Como sempre acontece, já falei demais. Na semana passada, enviei-te a fotografia de uns figos que apanhei junto à casa onde Saramago viveu. Eram deliciosos. Podias fechar os olhos e ouvir as rãs, o rio a correr, e até com algum esforço o estalar do milho a dobrar-se, sob o jugo da espiga quase madura. Ah, que dia feliz!

Esta semana, também te envio uma foto de um momento feliz. Mas é um instante. Nunca sabemos quanto dura uma fração, não é? Está no nosso texto. É da Mel, cadela amiga que te apresento, a olhar o horizonte, escutando os sinos a tocar, na aldeia cravada no sopé da serra. Oh Willie, que momento belo, mas sabes, logo a seguir, depois desse pôr-do-sol, veio o inferno, e a serra que a Mel tanto aprecia, com o seu ar tranquilo, ardeu. Sim, ardeu a Serra de Sintra. Que momento trágico!

Deixo-te duas sugestões:

Se tiveres tempo, ouve este podcast, e lê o livro de Valério Romão, "Cair para Dentro" (Abysmo, 208)

Se não tiveres, ouve esta música. Gosto do refrão. “Every morning comes the sun/Every day will find an end/Every song leaves a final chord ringing/I want to risk the pain that might be coming/And kiss”

Beijos,

A tua Winnie

  • Dizer não não basta

    Cristina Margato

    Na terceira crónica para a Vida Extra, sempre às sextas-feiras, a jornalista Cristina Margato olha para o Brasil, através de Winnie, a personagem que Samuel Beckett criou para contracenar com Willie em "Dias Felizes". “ É o sim que nos manterá na luta”, repito. Pois, o SIM. Mas onde pára o sim, nesse grande país que é o Brasil? Será que posso dizer que o homem é a aranha do próprio homem?"

  • Chineses topo de gama

    Lourenço Medeiros

    Na terceira crónica de “Futuro Extra”, às sextas-feiras no Vida Extra, o editor de novas tecnologias da SIC fala sobre o novo Huawei

  • Do Convento de Mafra às muralhas de Monsaraz

    Rui Cardoso

    O barro, a pedra, a água e o vinho unem o litoral atlântico à planura alentejana. Uma viagem por montes e vales foi a prova de que assim é. Esta é a terceira crónica de “Viagens na nossa terra”, às quintas-feiras no Vida Extra, com o jornalista Rui Cardoso