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O Tinder é como o metro e o Central Park é um jogo de realidade virtual

O “Inventário de Nova Iorque”, às quintas-feiras na Vida Extra, tem uma nova entrada. No segundo texto, a atriz Maria João de Almeida escreve sobre a Big Apple — que começa a ser também sua — e as diferenças face à realidade que conhecia

É um mundo curioso este, sem dúvida. Ainda hoje na estação de metro de Penn Station estava um rapaz a cantar a 'She will be loved'. dos Maroon 5. Eu pensei que isso já era 'super 2001', afinal não. Ainda anda aí. Mas 'super 2001' foi o cenário com que eu me deparei um dia destes no Central Park.

Duas miúdas e um rapaz, os três nos seus 13 anos, todos muito pipis, vestidos como dita a 5ª avenida e os seus pais Van der qualquer coisa (isto dito do alto da minha imaginação), combinavam ir encontrar-se com um segundo rapaz, que aparentemente era o interesse amoroso de uma das raparigas. Segundo consegui perceber da conversa pouco articulada destes pré-adolescentes, estavam a tentar determinar quantas vezes ao certo o casal apaixonado já tinha trocado beijos, ao que a rapariga envolvida disse que num dia tinha acontecido duas vezes, e no outro dia mais uma, perfazendo um total de três vezes.

O amigo, detentor do grau guru supremo da escala de medição de beijos, corrige-a de imediato, dizendo que quando os beijos ocorrem no mesmo dia contam apenas por um. Pareceram todos perceber que claramente aquilo fazia todo o sentido. E lá seguiram nas suas vidas inocentes pelo Central Park fora.

As relações hoje em dia… Isto está o fim do mundo em cuecas. Já no outro dia dizia uma colega minha de San Francisco que o Tinder é como o metro, e eu ‘’como assim?’’, e ela explica-me que tal como na carruagem do metro em que olhamos para as pessoas e pensamos ‘’hmm não, nada de interessante para mim…’’, no Tinder passa-se exatamente o mesmo- é tudo não, não, não; enquanto que no Bumble já é como se fosse uma carruagem onde estão todas as boas opções reunidas. Dá que pensar.

Desviei-me do assunto agora. Voltando ao Central Park, ainda não explorei nem metade, talvez porque seja gigante. Segundo reza a lenda, os próprios nova-iorquinos quando lá entram, nunca sabem muito bem onde vão sair. Esperam só não ir parar muito longe do sítio que pretendem. É como se fosse um jogo de realidade virtual. Uma das minhas primeiras conclusões foi: tem zonas muito convidativas para uma pessoa se sentar lá e beber uma cerveja com os amigos ao fim do dia. Errado Maria. Apaga já essa imagem idílica da tua cabeça. É proibido beber álcool no Central Park. No Central Park e em qualquer espaço ao ar livre. Não que isto não é o Arco do Cego, vamos ser civilizados.

É que não é mesmo o Arco do Cego, até porque não há cá cervejas a cinquenta cêntimos. Há toda uma adaptação a fazer a este cenário económico. Apesar de estar com alguns problemas de aceitação relativamente ao preço do passe mensal de metro — $121 — e ao preço médio de uma cerveja — $7/8 — (atentar na enumeração prioritária dos items para não levar a interpretações prejudiciais à minha pessoa), estou num lugar bom. Na minha cabeça. Esta é de facto uma cidade que nos alimenta a alma e faz acreditar que é possível.

Se nós quisermos, é possível. Não sei explicar. É como se houvesse um ar diferente no meio da cidade, um ar cheio de possibilidades. Adoro estar no meio da cidade — os carros de um lado para o outro, ver as pessoas que passam e ficar a criar vidas que não conheço, as luzes, os rappers amadores em cada esquina e o pulsar constante desta máquina imponente dão-me possibilidades. É isso, o sentido de possibilidade, de que tudo pode acontecer. E para mim, essa sensação vale tudo. O infinito sentido de que há sempre mais alimenta-me.

Pensei que iria chorar quando chegasse cá, por alguma razão, não sei.Talvez por ter visto demasiados filmes com esta cidade como fundo e sempre ter sonhado em viver aqui. Pensei que me iria emocionar a ver a Estátua da Liberdade durante a aterragem, ou com os edifícios à noite iluminados. mas não. (Eu sei, pirosona. Eu sei).

O que me arrancou o coração foi o memorial do 11 de Setembro. Senti ali que me estavam a esmagar, que alguma força me puxava para o centro da terra. Aqueles dois espaços gigantes, aqueles dois vazios foram avassaladores para mim. E chorei quando li numa das pedras que rodeiam o memorial ‘’To Ryan, his loving wife and their unborn child’’. Aí sim. Alguém tinha espetado uma rosa branca numa das reentrâncias das palavras. Destruiu-me. Famílias deixaram de existir ali. Vidas que ainda não tinham tido oportunidade de ser. Projectos de vida.

No fim, são as emoções básicas humanas que nos aproximam. Não foi ver um ícone inanimado que me fez chorar, mas sim este rasgo na humanidade. Na altura tentei imaginar que as torres ainda estavam lá, eu olhava para elas e pensava “ok, e se um avião viesse agora e se despenhasse contra elas?”, e era quase uma imagem impossível de se formar na minha cabeça. Como é que foi possível?

E senti-me pequenina, minúscula e frágil que nem uma folhinha. Somos todos tão frágeis.

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