Perfil

Vida Extra

Aqui, no lugar de Porto Covo…

Na segunda crónica de “Viagens na nossa terra”, às quintas-feiras no Vida Extra, o jornalista Rui Cardoso ruma ao sul. A viagem faz-se pela última costa selvagem da Europa

Cmanuel Photography - Portugal

Quando nos aproximamos de Sines pelo IC33, descendo a serra de Grândola, vemos à direita a larga curva que a costa começa a descrever a sul das lagoas de Melides e de Santo André. É o Cabo de Sines, marcando a transição entre a costa arenosa iniciada em Tróia e as primeiras falésias. E entre o campo alentejano e uma paisagem industrial onde avultam uma refinaria, um porto oceânico e um complexo petroquímico. De noite, a constelação de luzes e as altas chaminés flamejantes transportam-nos para o universo de “Blade Runner”.

Chegados a São Torpes pelo IC4, há um novo virar de página no que à paisagem diz respeito. A central termoeléctrica, uma das duas em Portugal que ainda queimam carvão (a outra é o Pego, em Abrantes, com combustível aqui desembarcado e transportado de comboio), corresponde ao limite sul do complexo industrial. A praia de São Torpes, de águas azuis e límpidas, marca nova fronteira entre dois mundos, com as chaminés a ficarem para trás e a vila de Porto Covo e a ilha do Pessegueiro a despontarem a sul. Ironia do progresso, a água usada para refrigerar as caldeiras (não poluída quimicamente mas a temperatura elevada) é deitada no mar junto a um alto paredão rochoso e deste ajuste térmico resulta aquilo a que os locais chamam “a praia do esquentador”, obviamente muito frequentada.

A última costa selvagem da Europa

Entrámos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina. Os 100 km até ao Cabo de São Vicente correspondem a um dos troços do litoral europeu mais bem conservados. Sucedem-se 70 mil hectares de areal, dunas e arribas rochosas, por vezes moldados pelas linhas de água. É o caso da foz do Mira, em Vila Nova de Milfontes, ou das praias de Odeceixe (fronteira entre Alentejo e Algarve) e da Amoreira (Aljezur). Mas pouco depois de São Torpes isso também sucede, embora em escala reduzida, na foz da ribeira da Azenha, na Praia dos Aivados.

Esta praia é um local extraordinário mas para lá chegar vindo de Sines é preciso passar por Porto Covo e pela Ilha do Pessegueiro.

Será exagero estabelecer uma relação directa entre a transformação urbanística sofrida por Porto Covo e a canção homónima composta em 1983 por Rui Veloso e inserida no álbum “Guardador de Margens”. Mas é verdade que em três

décadas a pitoresca aldeia de pescadores se expandiu de forma explosiva. Permanecem como pontos de interesse o mimoso porto dos pescadores e a praceta quadrangular setecentista, com igreja de um lado e fiadas de casas térreas caiadas de branco, de porta e janelas simétricas, a remeter para as “praças novas” das fundações pombalinas, tanto no Algarve (Vila Real de Santo António) como no Brasil. Por alguma coisa o largo se chama do Marquês de Pombal, tal como uma das várias esplanadas onde afluem magotes de gente nas manhãs e tardes de Verão.

Daqui para sul, ter um carro mais alto, se possível com tracção integral, dá bastante jeito. Não para fazer treinos para o Paris-Dakar mas para poder chegar mais facilmente a locais únicos. Isso permite, por exemplo, descer de Porto Covo para o porto de pesca, atravessar a foz da ribeira e subir para o topo da falésia, circulado daí em diante, quase sempre à vista do mar até à praia da Ilha do Pessegueiro.

Uma ilha encantada

Nalguns pontos deste litoral a acção das ondas separou pedaços da arriba, originando escolhos e ilhotas, dos quais o exemplo maior é a Ilha do Pessegueiro. Vista ao longe parece um animal pré-histórico, ali petrificado por ancestral e poderoso feitiço. O areal, à sota da ilha, é um dos poucos desta costa onde praticamente não há ondas. Uma baía tão abrigada era ideal para os veleiros doutros tempos se resguardarem dos temporais. Ou para os piratas se esconderam à espera de presa fácil. Daí que em 1588 Filipe I tenha mandado um dos melhores arquitectos militares da época Filipe Terzi construir uma fortaleza costeira, com fosso, esplanada para a artilharia de maior calibre e dois baluartes. O edifício já esteve em risco de ruína total e foi alvo de obras de recuperação mas permanece fechado aos visitantes porque provavelmente não há dinheiro para formar guardas e guias. Ironias do património neste país.

O forte parece acenar ao seu congénere, começado a edificar na ilha do Pessegueiro por iniciativa de D. Pedro II, no século XVII, mas nunca terminado. O objectivo era cruzarem fogos de artilharia, interditando a baía a navios hostis. Assim, limitam-se a cruzar olhares, como aqueles guarda-redes que tentam desviar remates com os olhos. À volta, na ilha, visitável de Verão através de viagens de barco com partida de Porto Covo, há vestígios de ocupação bastante mais antiga que a seiscentista, talvez romana.

Cada um terá as suas preferências mas tenho para mim que a esplanada do restaurante “A Ilha” é o melhor lugar desta costa para se beber um gin ao pôr-do-sol, enquanto se vêem os últimos lampejos dos raios solares, se segue o voo das gaivotas e dos corvos e se espera que a caldeirada vá apurando na cozinha.

A areia e as camionetas

Daqui para sul, cruzada uma linha de água, quase sempre tão seca como um oued marroquino, começam as pistas de areia que chegam até Vila Nova de Milfontes. Por via de regra as pistas perpendiculares ao mar são acessíveis a todos os veículos (na presunção de um mínimo de desembaraço da parte do condutor), enquanto as paralelas pedem altura livre ao solo e, nalguns casos, tracção integral.

Há aqui uma espécie de pirâmide alimentar. O jipe ou a pick-up são os melhores amigos do veraneante que queira estar longe das multidões para gozar o sol e o ar puro em relativo sossego. Mas quando as coisas correm mal, o melhor amigo do jipe é um jipe maior e de preferência um tractor.

Expliquemo-nos. Há duas semanas quando quis experimentar aqui a série especial Sport da pick-up Strakar da Mitusbishi, experiência de que vos falarei em crónica específica, mais virada para os interessados em TT, resolvi desafiar os deuses e as leis da física, tentando passar numa zona a subir com areia muito solta, digna de um atasqueiro do Paris-Dakar (parecia acabada de descarregar de um camião das obras). Ficou patente que mais por culpa minha que do carro, era areia a mais para a minha camioneta. Não tive outro remédio senão apanhar boleia de dois simpáticos pescadores até descobrir na Ribeira da Azenha um agricultor que, não só não me recusou ajuda, como primeiro numa velha pick-up também Mitsubishi e depois num enorme tractor, me deu o indispensável puxão, isto depois de eu ter cavado toneladas de areia com as mãos e vazado os pneus quase até saltarem das jantes.

Todos aqueles que ao longo da última meia dúzia de anos reboquei e arranquei da areia desta costa, incluindo surfistas, turistas estrangeiros, aventureiros de fim-de-semana e até uma patrulha da GNR no seu velho Nissan Patrol de tecto alto, estão finalmente vingados. O Olimpo castigou a minha hubris, sobretudo porque à esquerda da pista onde me atasquei havia, bem à vista, um caminho bastante mais praticável…

Dos Aivados ao Malhão

Fique pois o estimado leitor a saber que, se quiser chegar à bonita Praia dos Aivados, tem estradão seguro que deriva da estrada municipal 1072 (Porto Covo-Brunheiras-Milfontes) duas centenas de metros depois da placa “Ribeira da Azenha” e do Café Pôr do Sol (que verá do lado esquerdo vindo de Porto Covo). Sentado no areal, divirta-se com a ilusão de óptica que parece colocar as chaminés da central termoeléctrica na Ilha do Pessegueiro. E tome um belo banho em água de temperatura variável mas batida por revigorantes ondas. Verá passar dezenas de caminheiros que, de mochila às costas, percorrem os trilhos pedestres aqui assinalados, a caminho do Algarve. E lá no alto, a leste das dunas, poderá encontrar gente passeando a cavalo. Prova de que esta costa é para todos os que dela gostam, independente do meio de transporte, do passaporte ou do provimento da carteira.

Da azenha que deu nome à ribeira não há vestígio visível mas esta lá vai correndo a sul do estradão de acesso à praia. Porventura terá ficado desgostada com as mudanças trazidas a esta costa pelos temporais dos últimos dois anos e à chegada ao oceano esconde-se envergonhada por baixo da barreira de calhaus rolados que passou a separar a duna da praia até ressurgir fugazmente na areia.

Gelados e cinema

Continuando na direcção de Vila Nova de Milfontes pela estrada municipal, pode virar para a Praia do Malhão, versão ampliada e mais frequentada dos Aivados, igualmente por estradão frequentável por qualquer veículo. Do Malhão para sul, se lhe apetecer explorar as pistas arenosas que levam a Milfontes, escolha as que seguem paralelas ao mar e, se estiver sem veículo de apoio, não faça derivações à direita, sob pena de lhe poder acontecer como a mim…

A chegada por pista de areia a Milfontes recompensa-nos com uma visão de cortar a respiração sobre as arribas e a foz do rio Mira. A vila cresceu desmesuradamente com o turismo, nem sempre bem, mas tem coisas simpáticas desde os gelados da Maby até ao Cinema Girasol, o último em Portugal a ter projectado filmes em película até à inevitável reconversão para a projecção digital. António Feliciano, proprietário desta improvável sala, é um verdadeiro cinéfilo, famoso por pegar na carrinha e no projector e, de Inverno, ir mostrar filmes aos habitantes das aldeias perdidas do interior do concelho.

Por isso os Azeitonas lhe dedicaram em 2016 a música “Cine Girasol” e eu, como muitos outros, sou seu fã incondicional durante as férias de Verão.

A carregar...
  • A pé, do Penedo aos Capuchos e volta

    Rui Cardoso

    Um passeio a pé pela Serra de Sintra com começo e final na pitoresca aldeia do Penedo, sobranceira a Colares, na nova crónica de “Viagens na nossa terra”, do jornalista Rui Cardoso, sempre à quinta-feira no Vida Extra

  • Sarampo: Nasceu depois de 1971?

    Vera Lúcia Arreigoso

    Anos depois de o país ter vencido o sarampo, eis que o vírus volta a atacar, agora por fora. O sarampo continua a não circular entre a população mas está a entrar, trazido por visitantes ou viajantes portugueses infetados além fronteiras. Com a esmagadora maioria das crianças imunizadas, são os adultos que estão na linha da frente da infeção e protegidos, seguramente, só estão os que já tiveram a doença