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A vacina da gripe é para todos

“Sala de Espera” ganha a sua página semanal na Vida Extra às terças-feiras. Na primeira crónica, a jornalista Vera Lúcia Arreigoso, que acompanha a área da saúde, centra as atenções na importância da vacinação

JGI/Tom Grill

Até diagnóstico em contrário, todos os anos há inverno e vírus da gripe e todos os anos regressam os mitos sobre a doença e a vacina que a previne. Ora, sendo outubro, mês em que tradicionalmente é iniciada a imunização, é o momento certo para também repetir o que já se devia saber. Um: qualquer pessoa pode vacinar-se contra a gripe. Dois: a vacina não provoca formas ligeiras de gripe. Três: os vírus mudam a cada inverno, portanto é preciso imunizar todos os anos.

A comunidade médica sabe que a vacina contra a gripe, à partida, pode ser dada a qualquer ser humano com mais seis de meses. E estes só ficam de fora, não porque lhes faça mal mas porque o seu sistema imunitário é igualmente bebé e ainda incapaz de produzir as defesas contra os vírus da gripe e seria um desperdício de doses. Os vírus influenza infetam pessoas de todas as idades, logo, todas ganham em imunizarem-se para não ter a doença, no entanto, isto só é literalmente recomendado em pouquíssimos países, entre eles os EUA. A explicação é simples: pagam aos laboratórios um preço elevado, garantindo um número muito expressivo de doses, quase para cada cidadão.

Produzir uma vacina da gripe requer um processo complexo, diferente da maioria das vacinas, e mesmo nos dias de hoje a produção não chega para todos. Vende-se a quem paga e a quem compra mais, neste caso aos países onde a população mais adere à vacinação. Portugal está entre os que pagam e compram menos. O preço é semelhante ao de outros países no mesmo grupo e o país não faz encomendas de monta porque a adesão da população parece ainda não justificar reforços. Os estudos a nível local mostram que entre os portugueses são possíveis ganhos de 2% a 3% nos níveis de adesão, que mesmo assim são bons.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai ter nesta época as mesmas 1,4 milhões de doses para administração gratuita do ano passado. Como os portugueses são mais de dez milhões, a imunização na rede pública será para quem corre riscos maiores, ou seja, quem por outras doenças ou debilidades tende a desenvolver complicações da gripe, como pneumonia. No ano passado, o Governo comprou mais 200 mil vacinas face à época anterior e pôde incluir os bombeiros e os diabéticos nos grupos de risco.

E quem não tem direito à imunização gratuita, mantém o direito a proteger-se. Basta comprar a vacina, com receita, nas farmácias, que têm doses próprias precisamente para vender a quem fica de fora da lista gratuita do SNS, sejam crianças ou adultos.

Tomada a vacina, não são raras as pessoas que juram ter adoecido. A convicção certamente até teria sido atestada pelo médico, mas com outro culpado. Após a administração da dose, sem vírus vivos, o corpo humano leva até 14 dias para produzir os anticorpos e nessa janela a pessoa pode ser infetada, quase sempre por ‘primos’ do influenza. Isto é, por outros agentes respiratórios que provocam sintomas semelhantes aos da gripe e que, não sendo vírus da gripe, não estão incluídos na vacina.

Ora, é a grande variedade de ‘infetantes respiratórios’, no caso de versões do vírus da gripe, que justificam as dificuldades de fabrico da vacina. O influenza muda de ‘guarda-roupa’ a cada inverno e os cientistas só conseguem desvendar o que vai usar no desfile seis meses antes de reaparecer entre a população. É também por essa ‘vaidade’ que todos os anos é preciso tomar uma nova vacina.

E porque estamos em outubro e a campanha de vacinação vai começar...Um: gripe não é constipação. Dois: os antibióticos não matam vírus. Três: se estiver doente ligue ao médico ou para a Linha Saúde 24, ambos dir-lhe-ão se é caso para ir à Urgência.

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