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Será que o Pai Panda ficou lamechas? É que tem o coração fora do seu corpo

O “Diário de um Pai Solteiro”, às segundas-feiras na Vida Extra, apresenta-se esta semana num registo mais sentimental

cristinairanzo

O meu coração está fora do meu corpo e tem pernas e bracinhos. Foi-me arrancado em 2013. Segurei-o embrulhado num cobertor branco, ensanguentado. Foi-me entregue por mãos de enfermeira. Desde então anda por aí e a distância que vai de mim a ele varia de centenas de quilómetros como quando foi ao Algarve com a mãe, até à espessura da pele, como quando adormece em cima de mim na praia do Oeste, abrasivo da areia colada, esgotado e em hipotermia.

Vou andando cada vez mais para a direita nos lineares a escolher sapatos e roupa. O talher de Pandinha passou a normal. O Lego passou do Duplo ao City. A TV do Baby ao Network. O berço de grades passou a cama e já não a contém, como o meu corpo deixou de o conter. Por vezes, a meio da noite, acordo com os seus passos descalços e rápidos no soalho de madeira como os de um pequeno animal furtivo,e já antecipo o chiar da porta do quarto, onde o seu vulto cabeludo vai assomar à espreita.

Se estiver com fome, vai tentar perceber se estou a dormir profundamente para poder ir à cozinha roubar uns snacks diversos de pacotes que deixei esquecidos. Se estiver assustado com um sonho mau, vai enfiar-se na minha cama ao meu lado sem pedir licença. Oiço-o respirar. Mexe-se imenso, como se ainda nadasse na barriga da mãe. Por vezes, no verão, observo-lhe a pele a vibrar a cada pulsação, como um pequeno tambor suave.

Nunca perdi nada porque nunca tive nada de especial a perder. Agora tenho tudo e o medo que acompanha o tudo. E que me faz sentir sempre um calafrio quando me ligam de um número desconhecido e não o tenho ao pé de mim. A vida parece-me feita de vidro, como se caminhasse na superfície de algo que é melhor do que tudo vivi, mas que tem por baixo um fundo escuro e pior do que tudo o que vivi se algo correr mal ao meu coração. Mas não trocava isto por nada. Prefiro-o ali, fora de mim, a viver para sempre.

E isto, senhores, é mais coisa menos coisa o monólogo ideal num date com uma mãe separada que tenha os filhos a tempo quase inteiro. O ideal é já depois da sobremesa quando já beberam um pouco (normalmente não estão habituadas a álcool ou sequer a jantar fora).

Para a semana dou instruções sobre um bom monólogo de sobremesa para raparigas jovens sem filhos que odeiam a ideia de compromisso e curtem viajar, ter experiências e viver no limite. Fiquem sintonizados.

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