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Vida Extra

O que aconteceu em Dallas não ficou só em Dallas

Na primeira crónica de “Séries com História”, às segundas-feiras na Vida Extra, o diretor de planeamento estratégico e diretor da SIC Radical, escreve sobre “Dallas”

Em televisão, aqui, no Japão, na Nicarágua ou na Dinamarca, é impossível dissociar os programas do seu objetivo. As séries, os concursos, os talent shows ou os programas da manhã acontecem porque há um propósito que até pode ser o cumprimento de uma lei ou de um acordo comercial, além da disputa óbvia por resultados de audiências.

Assim, quando em 1977 surge Gabriela na nossa televisão, um dos motivos da decisão era poder mostrar a mais portugueses a obra de Jorge Amado, então uma referência cultural indiscutível para as elites revolucionárias do novo regime. Já na Roménia, alguns anos depois, a televisão do ditador Ceausescu decidiu emitir a série americana “Dallas” em horário nobre para explicar ao povo romeno a degradação moral e social trazida pelo capitalismo. (O efeito foi o oposto. Depois da queda do ditador, muitos romenos admitiriam sem problema que a opulência visível em Dallas os motivou a sair do país e a tentarem ser ricos eles próprios).

Em 1978, a CBS estreia “Dallas”, a primeira vez que uma soap opera como as que decoravam as tardes da televisão americana viajava até ao prime time. A ideia era conquistar mais público feminino e foi também por isso que ao contrário do habitual, quase metade dos argumentistas de serviço à minissérie eram mulheres. Nesse abril de 1978, a intenção era contar uma história Romeu/Julieta, mas os planos saíram furados e, como se sabe, a série que nos revelou J.R. tornar-se-ia num fenómeno global, como “O Barco do Amor” ou a “Balada de Hill Street”.

O sucesso relativo da minissérie foi suficiente para “Dallas” se transformasse numa aposta da CBS e se tornasse numa das primeiras series da televisão a ter episódios que continuavam de semana a semana (e não fechados, com uma história do princípio ao fim do episódio) e temporadas que acabavam com os chamados cliffhangers (um mecanismo narrativo que usa episódios de alto impacto na história cuja resolução fica em suspenso até à temporada seguinte). Até meados dos anos 80, cerca de 50 milhões americanos viam semanalmente os episódios de “Dallas”, um dos folhetins televisivos mais caricaturais e mais pobres artisticamente de que há memória e também uma das séries mais inadvertidamente influentes na história do audiovisual americano.

Tramas óbvias de poder, dinheiro e sexo e personagens absolutamente transparentes nas suas intenções, motivações e ingenuidades, faziam de Dallas uma espécie de desenhos animados de carne e osso onde se celebravam a ganância, o sexo e as patifarias da pior espécie. Pelos vistos era exatamente isso que o mundo pretendia na passagem de uns tristes anos 70 para uns anos 80 que seriam outra coisa, bem diferente.

O que começou com cinco inocentes episódios no que deveria ter sido apenas uma mini série, deu origem a 356 episódios semanais ao longo de 14 temporadas. “Dallas” chegaria a 90 países, tornando-se num dos programas mais influentes da história da televisão e um anúncio semanal de quase uma hora de como a América era rica, bebia, fumava, fazia imenso sexo fora do casamento, intrigava, guiava bons carros e toda a gente parecia senão feliz, pelo menos bem melhor que no resto do mundo. O corolário é que se hoje a ideia de “ver séries” é uma obviedade lúdica como “comer um gelado” ou “ir a um concerto”, muito se deve a “Dallas”.

A transposição de uma saga familiar para o prime time, com enredos múltiplos, cruzados e sequenciais, personagens maus e cínicos pelos quais torcemos e os tais cliffhangers entre temporadas são alguns dos legados que são hoje comuns e que então eram inéditos. De registar que quase tudo o que hoje é tido como revolucionário em Dallas foi surgiu mais ou menos por acaso ao longo do processo de escrita e filmagens, com os próprios autores e produtores da série a admitirem que a carga simbólica e metafórica das tramas foram qualquer coisa que só bastantes anos se perceberam plenamente.

Dallas vs Dallas

A princípio, a cidade de Dallas detestava a série “Dallas”. Botas, chapéus de cowboy, ranchos, gado, petróleo, nada daquilo era Dallas, na altura uma espécie de centro financeiro do Texas e que pouco ou nada de rural tinha muito menos poços de petróleo à entrada da cidade como se via no genérico. Quando havia filmagens na baixa, a produção trazia sempre umas dezenas de chapéus para emprestar aos transeuntes para que JR não fosse o único a usar o célebre chapéu Stetson (um exemplar doado pelo ator Larry Hagman faz parte da coleção do Smithsonian Museum of American History em Washington).

Quarenta anos depois da estreia, o rancho Southfork continua a ser uma atração turística, mas nos primeiros episódios a série era tão pouco ambiciosa que os atores usavam a sua própria roupa e o criador e argumentista David Jacobs nunca tinha ido sequer à cidade de Dallas quando desenvolveu uma saga com ranchos, petróleo e multimilionários adúlteros. Muitos anos mais tarde diria que escreveu uma série que se deveria ter chamado Houston, mas que Dallas, onde Kennedy foi assassinado, lhe parecera um nome de trabalho mais apelativo. Ao fim de poucas temporadas, a cidade de Dallas já perdoara a liberdade criativa da série (e a sua amoralidade), acolhendo-a como uma espécie de marco de um novo começo pós-Kennedy.

O assassinato do presidente marcara a cidade, e agora, com o presidente Reagan a impor uma nova América, o preço do petróleo a subir e a curiosidade mundial sobre a cidade a crescer, uma nova vida e uma nova prosperidade chegavam à cidade e ao Texas. E notou-se. No celebérrimo genérico inicial de cada episódio, que terá provavelmente a música mais reconhecível na história da televisão, havia várias panorâmicas da cidade e da região e viam-se apenas alguns arranha céus nas primeiras temporadas. Oito anos depois, quando o genérico foi atualizado, já eram muitos mais a povoar o centro da cidade.

Quem matou JR? Na primavera de 1980, o episódio “A House Divided” acabou a terceira temporada e nele JR Ewing é baleado para choque e espanto do público. Nesse que ainda é um dos cliffhangers mais célebres da cultura popular - que em Portugal é normalmente mal traduzido por “Quem matou JR?” – os produtores repetiram a cena com quase todo o elenco a empunhar a arma e ainda incluíram alguns membros da equipa para despistar os próprios atores. Para criar suspense junto dos espetadores e da imprensa? Evidente que sim, mas também porque ainda não faziam ideia de quem escolheriam como autor dos disparos porque como se imagina, JR Ewing era o principal personagem e maior atração em Dallas e a sua morte tida como uma impossibilidade. Ou talvez não.

Uma greve de argumentistas adiou a estreia da nova temporada de Dallas para novembro de 1980 e na verdade a CBS chegou a colocar a possibilidade de não continuar a usar o ator Larry Hagman como JR, usando um truque bastante comum na televisão da época e hoje muito mais raro: JR seria espancado na cara e teria de recorrer a cirurgia plástica. Assim, caso não houvesse acordo com Hagman, outro ator poderia aparecer em seu lugar assumindo o personagem JR. fosse como fosse, ao longo do verão de 1980, Larry Hagman e os seus agentes negociaram ferozmente com a CBS e chegaram a arranjar maneira de estar publicamente com a rainha de Inglaterra e a Princesa Grace do Mónaco (que como toda a gente em todo o mundo lhe perguntavam quem tinha disparado sobre JR). A popularidade de Hagman era tal que passou a ser o ator mais em pago da televisão com o próprio a admitir que não fazia ideia de quem era o culpado.

Múltiplas apostas e concursos foram organizados, o tema chegou a fazer parte do anedotário da campanha para as eleições presidenciais, mas só ao quarto episódio da temporada seguinte se saberia a resposta. O episódio “Who Done It?”, onde tudo foi revelado de forma bastante anti-clímax, foi visto por 90 milhões de americanos, num recorde de 76% de share, a 21 de novembro de 1980 e teve mais espetadores do que a soma dos votantes em Jimmy Carter e Ronald Reagan, os dois candidatos presidenciais e ainda hoje é o segundo programa mais visto de sempre na televisão americana (atrás do final de MASH). Por esta altura Dallas era um colosso de audiências e popularidade um pouco por todo o mundo, com aquele verão de seis meses entre os disparos e a descoberta do culpado a fermentarem o fenómeno.

Nos anos seguintes, a série carregou nas cores do melodrama, novas personagens e tramas foram-se somando, mas o declínio inevitável surgiu, até porque entre a primeira e segunda metade dos anos 80, tanto a América como o Ocidente mudariam muito. O escape hedónico que era cada episódio, de fraquíssimo interesse dramático e cultural mas de imensa gratificação de entretenimento, tinha agora opções muito mais interessantes. Nesta primeira e longa iteração de Dallas, JR-Larry Hagman não chegaram nunca a morrer, apesar de no último episódio o próprio Satanás (!) ter tentado matar JR, num episódio final de duas horas em que JR é visitado por um anjo que lhe mostra como teria sido a família Ewing e o motiva a suicidar-se. Mas JR sobreviveu e personagem e ator fizeram parte do elenco do remake da série que o canal TNT lançou em 2012.

Nessa série, de curta vida e pouca memória, os argumentistas mataram finalmente JR, mas a pedido do próprio que estava com cancro em fase terminal. Pouco tempo depois, o actor Larry Hagman, para sempre o JR começara por ser um personagem secundário na série Dallas nos anos 70 e cuja carreira até aí havido tido o pico com um personagem cómico, morreria também de cancro. (p.s. Quem disparou originalmente sobre JR? Uma cunhada, por que por mais revolucionária que Dallas tenha sido, não poderia propriamente usar um dos personagens principais.)

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